ZEN, TRANQUILA E COERENTE

 
Apesar do peso sobre a discussão gerada pelo assunto anterior, Fernanda tira a próxima carta. “Tomara que este assunto seja mais leve”.

“Thomas encontra Fernanda um pouco antes das seis da manhã no Café da Natasha. Ela entrega a ele um envelope com uma passagem para Veneza e um convite para uma exposição fotográfica à qual ele deve comparecer. No dia seguinte deve encontrá-la em Paris.”

“Este é um bom exemplo de um capítulo que é pura ficção, ainda não aconteceu, mas vai acontecer exatamente conforme escrito nesse resumo. Previsão para a ficção tornar-se realidade? Dezembro. Quando estiver pronto o projeto Vida. Thomas vai dar uma parada em Veneza e lá haverá uma surpresa reservada para ele. Depois segue para Paris e nos encontramos.”

“De que forma você gosta de Thomas?”, perguntei,meio que para sinalizar que estava participando.

“Gosto dele por inteiro, gosto de fazer parte de sua vida. Gosto da fotografia que ele faz, o que sei hoje na minha profissão devo a ele. Gosto também do que ele escreve, seja em papel, online ou em que formato for, e não me importo que os outros fiquem especulando se é realidade, ficção, fantasia ou delírio. Como a Marcela, não dou a mínima para isso.”

Agora ela estava calma, zen, tranquila, coerente.

“Amo Thomas, sempre amei, mas é um amor diferente. De tempos em tempos precisamos um do outro e nos encontramos, foi sempre assim desde que nos conhecemos. Mas nossos encontros são espaçados por anos, às vezes por muitos anos, não conseguimos viver juntos o tempo todo. Cada um de nós precisa do combustível do outro, e nos encontramos em períodos diferentes de nossas vidas, como agora. Joana e Marcela sabem disso, já conversamos e tenho certeza que isso nunca foi problema para elas. Quanto a esse enredo fazer parte de um texto de acesso público, isso realmente é com elas.”

“E essa coisa de escrever algo que é pura ficção, mas um dia vai acontecer, como funciona? Dá para falar algo mais sobre isso?

Fernanda não quer falar sobre esse assunto no momento e passa para o Alex.

“Thomas e Alex são amigos desde os primeiros dias de infância, amigos confidentes, acho que pode falar algo sobre isso melhor do que eu.”

Alex está ouvindo a conversa encostado na janela, tomando uísque, e se aproxima da mesa. Sem sentar-se, começa a falar o que sabe sobre o livro.

“Uma noite encontrei Thomas no Great Balls e ele me falou pela primeira vez sobre Tristessa, um livro que ele pretendia colocar na Web, no qual misturava a sua vida e a de seus amigos com um pouco de ficção. Nunca li a versão anterior em papel.

Fez uma pausa, sugerindo que não era algo muito fácil para se explicar.

“Porque incorporar a vida de pessoas reais em sua ficção?”, perguntei um dia a ele.

“A ficção apenas não basta. Apenas a vida, sem ficção, também não. Eu quero penetrar acordado a dimensão do sonho”.

“Estranhei a sua determinação com relação ao livro, pois desde os primeiros tempos de escola ele nunca planejou nada na vida, sempre deixou as coisas acontecerem. Ele me contou várias vezes sobre o acaso de seus amores, com Fernanda, Joana, Marcela, e sempre confiou numa espécie de determinismo que dirigia sua vida. Afirmava que pouco podemos mudar em nossa vida, ela já está desenhada quando nascemos.”

“Por outro lado sempre foi também uma pessoa muito fragmentada, sempre procurando sentidos e significados para a vida. Uma vez disse-me que todos os dias tirava suas máscaras para si próprio na procura de um eu que nunca encontrava. Sentia-se um estrangeiro, sem identidade, em um país que ele não conhecia – mesmo nascido no Brasil e rodeado de amigos no Brasil.”

“E nessa noite no Great Balls, durante quase duas horas, ele me fez uma sinopse do livro, cuja ideia básica era a de um personagem chamado Thomas – o seu próprio nome -, fotógrafo e escritor, que escrevia um romance numa época de transição do papel para o digital. O autor-personagem estava na fase de criação, e cada capítulo que escrevia passava para um grupo de amigos opinarem. Aconteceu que esses amigos começaram a fazer parte da história e se tornaram também personagens. Não gostei muito do que ouvi, e antes que acabasse de me contar todos os detalhes eu o interrompi, e a história é essa que estamos discutindo aqui, ajudando-o a escrever a sua Tristessa.”

 

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