VULTOS NA CONTRALUZ

 
Grito desesperado quando penso ter chegado ao lugar onde nasci, mas o que eu via era um grande galpão de ferro velho, um imenso cemitério de automóveis, estava tudo diferente.

Houve um tempo, antes de Paris, e eu começava a lembrar, em que as coisas não tinham tomado ainda aquela forma de matéria líquida, fluida, transparente. Tinha havido uma origem naquele lugar, e esse começo havia sido o grande areal branco e a velha casa de madeira, onde eu tinha passado os meus dias jogando bola e empinando pipa com os amigos, mas não consigo visualizar, as imagens me fogem.

O que eu vejo agora é um cenário morto, uma espécie de excremento cósmico fluido, formado de engrenagens, ferramentas, chips, teclados, monitores, graxas, lubrificantes, esparramado por todo o espaço visível. Não existe estopa suficiente no mundo para limpar isto tudo.

“Onde estão todos? Onde estão as crianças, Joana, Marcela…?”.

A resposta veio por trás de mim, através de uma voz de mulher.

“Depois que os elementos começaram a entrar em decomposição as pessoas procuraram a morte, mas nem todos conseguiram alcançá-la. Os que restaram foram para o outro lado, porque a maré que veio cobriu de espuma toda a região onde estavam. Os que ficaram deste lado no princípio viveram dispersos como ciganos, em barracas, mas depois começaram a apodrecer também.”

“Quem é você?” pergunto. Tento ver o rosto, mas não consigo enxergar nada na contraluz do sol que nascia na linha do horizonte.

“Não importa quem sou. Eu vivo apenas a madrugada, depois sou também massa decomposta, como os outros, matéria sedimentada, resto de amor. Tenho dinamite entre as pernas, e caminho pela madrugada apenas para ouvir o diálogo de fome dos que forram a sua noite com jornais velhos. Estou aqui agora apenas para receber você.”

“Essa voz é a da Fernanda. De onde você vem? Onde esteve durante esse tempo todo?”

“Eu estive em Monterey, Woodstock, Altamont, Ilha de Wight, vivi aquilo tudo, mas não alcanço hoje os resultados.”

“Você é a Fernanda. Deixe-me ver o seu rosto, passe para o lado de cá.”

A contraluz impedia totalmente a visão do rosto da mulher que me recebia.

“Eu disse que iríamos nos encontrar muitas vezes pela vida, sempre procurando por janelas e portas para passarmos…”.

“Você fala como ela, é a Fernanda!”

“… e que a última porta seria eu a mostrá-la e você a atravessá-la. Mais tarde disse também que daquela porta em diante somente a você caberia decidir o caminho, e em algum ponto da estrada esta foi a direção escolhida. Uma frase que foi escrita, um projetor que não foi desligado, um livro que não foi lido, uma data, e aqui está você.”

“Onde estão todos? Nada disto faz sentido. Eu quero saber onde estão os meus.”

“Os seus, os que restaram, estão do outro lado, os demais estão mortos, sepultados em caixas coloridas, mágicas, sonoras, fabricadas em sonhos de velhos pastores digitais. Os outros fugiram para o outro lado, porque não conseguiram encontrar a morte. O resto é isso que você está vendo, este caos cósmico, os vultos perdidos na distância e a morte madrugando na matéria.”

“E você? E os seus mortos?”

“Há uma ferida em meu ventre de morte, e nada a dizer de mim a não ser um grito e um apelo sem sentido. Já passei também por essa experiência que você está passando. Lá do outro lado há uma procissão de mulheres me esperando, todas com as coxas de fora, à procura do estado de graça, do segredo da permanência, e como eu, elas também tem dinamite entre as pernas.”

“E por que você foi designada, desde o início, para acompanhar toda a minha vida?”

“Essa explicação você não vai ter, faz parte do mistério da existência. Só o que eu posso dizer é que desde o início eu já sabia, em algum lugar da madrugada, o ossário de um errante como você, que nunca viu a morte e também nunca teve a vida. Eu posso mostrar o caminho que o levará aos que restaram, mas isso não o ajudará em nada, pois eles não são mais os mesmos – a mulher que vai estar ao seu lado não é a mesma, você não é mais o mesmo.”

Apesar de não conseguir captar o sentido do que ela dizia, as suas palavras tinham uma força estranha, pareciam estar vivas, vibrando em uma dimensão mágica. Os sons se materializavam e formavam imagens estranhas ao seu redor, se projetavam no espaço e me enlouqueciam.

Tentei chegar perto, ver-lhe o rosto, mas ela continuava sempre na contraluz, com o sol sempre por trás de sua cabeça, e caminhava em volta de mim, e o sol a acompanhava e deixava uma aura ao redor de seus cabelos.

“Onde estão eles?”

Os seus estão em Nigger Bay, esperando-o para se despedirem. Segue naquela direção, atravessa a ponte em arco e caminha até encontrar a praia onde passa uma estrada de ferro. Lá eles estarão à sua espera.

 

Quem viu Thomas pela última vez Vento sudoeste Plano de Viagem Home