VIVENDO EM MUNDOS PARALELOS

 
Paula tira a próxima carta.

“Thomas se questiona sobre o que está escrevendo e sobre o como está escrevendo. Em linha reta, do começo para o fim, afinal tudo tem que ter um começo e um fim. Mas existe mesmo um começo e um fim? Ou somos nós que inventamos começos e fins para dar um sentido à vida?”

“Eu não deveria ter tirado esta carta, Joana, você é a especialista em literatura, seu conhecimento deve ter certamente levado o Thomas a se atirar em uma aventura destas.”

“Me deixe fora disso, Paula, por favor.”

“Eu sei que você fez o MFA – Master of Fine Arts – nos Estados Unidos com foco em escrita criativa e isso fez de você uma especialista em literatura, que é onde o Thomas acabou se atirando. Foi você quem o inspirou a escrever um livro?”

Pensativa, Joana navega um pouco entre o falar e o não falar sobre um passado congelado nas páginas de uma ficção, não quer acrescentar mais realidade a essa ficção. Mas resolve falar.

“No início posso tê-lo inspirado sim, dei força a ele, mas hoje quero ficar bem longe disso, não tenho nada a ver com a criação e edição desse texto, por razões óbvias.”

“Mas você o ajudou na parte inicial do processo?

“A ideia inicial era completamente diferente, era um texto puramente experimental, uma brincadeira. Iríamos apenas brincar do que chamamos na época de ‘cinema escrito’. Pura piração. Comparando com o cinema, podemos dizer que nesse livro-filme ele seria o roteirista e eu a diretora e produtora. Algo que aprendi nas oficinas de criação, com um maluco da minha classe. Ele produzia o seu texto com storyboards, desenho dos ambientes, roupas, personagens, como se estivesse produzindo um filme, e essa experiência me impressionava. Ele precisava enxergar antes, para escrever depois. Mas em nosso caso era tudo experimentação, sem qualquer pretensão.”

Novamente deu uma pausa, não sabia se continuava, mas mesmo assim tentou dar uma fechada no assunto.

“Depois da separação não quis saber de mais nada, senti-me traída duas vezes, uma pelos textos explícitos sobre a vida de Thomas com outras mulheres e outra por ter sido realmente traída por ele com essas mulheres personagens pelas quais hoje não tenho ódio algum. Mas gostaria de não falar mais sobre isso, minha atuação como personagem dessa história está encerrada.”

Paula insiste, gosta muito de Joana e sabe que ela foi a maior inspiradora de Thomas não apenas para esse livro, mas para a vida, tudo que ele fazia tinha a marca do que havia aprendido com ela, menos a traição.

“Nos últimos anos você tem se interessado sobre uma possível relação entre a teoria do caos e literatura e certamente deve ter falado com Thomas sobre o assunto. Você acredita que em seus textos tenha alguma influência do que você disse a ele sobre isso?”

“Acho possível sim e posso até imaginar que ele tenha começado a ser escrito em algum lugar do planeta onde um dia fui assistir a uma palestra sobre a relação entre literatura e teoria do caos, depois de concluir o MFA.”

“Foi isso que eu quis dizer. Thomas sempre teve vontade de escrever, porém isso não teria acontecido sem você. Mas além do início como isso se refletiu na forma do texto?”

“Eu nunca fiz uma leitura completa desse texto, do início ao fim, todas elas foram desordenadas, mas mesmo na desordem em que li percebi uma falta de equilíbrio na colocação do tempo e do espaço, que é um dos princípios básicos da teoria do caos. Mas não estou falando desses artifícios literários de narrativas não lineares, indo e voltando no tempo finito que vivem os personagens, estou falando de um não equilíbrio até mesmo desmedido, remetendo a outras dimensões que podem ser enxergadas como outras vidas, em outras eras.

“Outras encarnações?”

“Vamos chamar de outros mundos paralelos, faz mais sentido.”

“E vocês já haviam conversado sobre isso?”

“Não, nunca conversamos, foi só uma impressão que tive. Apesar de ele ter usado nossas vidas para ilustrar a sua história, ele nos tira da finitude de nossas vidas e atira os personagens em um tempo infinito, labiríntico, regido pelo imprevisível e dentro do qual vivemos várias vidas. Mas isso foi só uma impressão, o mais provável é que ele nem saiba exatamente o que está escrevendo.”

Roberta começou a estranhar a conversa entre Paula e Joana, elas falavam de coisas que não estavam no texto do livro original que iria ser impresso.

“De que textos vocês estão falando? No original não tem nada que possa remeter ao que vocês estão conversando. É uma história com começo, meio e fim, dentro do limitado tempo de vida que nos cabe viver, entre o nascimento e a morte. Labiríntico? Estranho? Um pouco. Thomas salta do lirismo para a metafísica como se um fosse consequência do outro, mas nada a ver com teoria do caos ou personagens em outras vidas. Dá para você explicar isso melhor?”

Ainda bem que Marcela não estava na mesa durante essa conversa. Apenas Alex, Fernanda e Fred acompanhavam a discussão entre esses personagens que pareciam até disputar o domínio do conhecimento sobre uma obra que a rigor nem existia ainda.

“Talvez você não tenha recebido esses textos, Roberta”, disse Fernanda, entrando na discussão. “Posso assegurar a você que nada do que Thomas escreveu sobre nós em Paris aconteceu na vida real, pelo menos nesta vida, logo só pode ter acontecido em outras camadas de outras vidas”.

“E como é que você pode falar sobre isso com toda essa segurança?”, pergunta Paula.

“Porque eu vivo em cada uma das camadas da vida dele, e ele vive em cada uma das camadas da minha vida. E você conhece esse assunto melhor do que nós.”

“E o que faz você ter tanta certeza disso?”

“Quando nos reencontramos na adolescência surgiu entre nós um código através do qual cada um passou a ter acesso ao outro. E é assim que funcionamos, não consigo explicar a vocês nada mais além disso porque as palavras que conhecemos não bastam.”

“Você conhece os textos que ele deixou com o Fred?”

“Cada página, cada linha, o que é real e o que é fantasia, o que já aconteceu e o que ainda vai acontecer.”

“Prefiro não prosseguir com este assunto agora, acho que devo conversar com o Thomas antes”, disse Roberta levantando-se para respirar um pouco, mas Paula ainda tem algo a dizer.

“Você me surpreende, Fernanda. Às vezes você é pura porra-louquice e o “fiel, carinhosa e puta” parece ser o seu bordão preferido, às vezes é misteriosa, secreta, e diz coisas que a maioria dos mortais tem dificuldade para entender. Qual é a tua?”

“It is my way”, responde a personagem da Fernanda porra-louca, encerrando um papo que parecia não ter como continuar.

“E o projeto que ele está desenvolvendo em realidade virtual sobre a trajetória do homem…”

“Também o conheço”, respondeu antes que Paula concluísse a pergunta. “Trocamos ideias nos últimos meses. Como Thomas não quis rotular esse projeto, eu o chamo apenas de Vida e ele o chama simploriamente de Show”.

Paula sentiu pela primeira vez o poder de Fernanda sobre Thomas e reconheceu.

“Conhecemos-nos pouco e posso estar parecendo rude mas gosto de você, Fernanda. Você faz bem para o Thomas, talvez mais do que isso. Gostaria de voltar a conversar sobre esse assunto mais tarde.”

 

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