VERÃO DE 2012

 
Paula e eu caminhávamos pela areia de Porto Piano nas primeiras horas da manhã. Ela havia me dito, quando acordou, que precisava embriagar-se de azul. Preparava-se para o encontro logo mais à tarde e precisava esvaziar a mente, dizia que só conseguia pensar bem no vazio. E com as nossas cabeças imersas no silêncio da cor conseguimos caminhar como se a praia estivesse vazia, sem ouvir os ruídos de uma manhã de sol em Porto Piano, num sábado de verão. Caminhávamos bem perto do mar, naquela faixa onde as ondas morrem, para evitar a areia fofa e quente, difícil de caminhar.

Crianças brincando, vendedores de sorvete, carrinhos de bijuterias, vendedores de pamonha, tudo ofuscado pelo silêncio do azul. Protegida do sol por um chapéu Panamá, uma senhora de idade avançada, também imersa no azul, chupa um picolé. Mais adiante uma criança corre gritando, fugindo da onda, para os braços da mãe; um pai, de mãos dadas com o filho pequeno, contempla o horizonte. Tudo é azul. Nem o ruído das ondas parecia chegar até ela.

Duas festas, separadas por dezessete anos e uma história no meio. No verão de 2012, nos reunimos todos novamente em Porto Piano, só que desta vez à luz do dia. A praia diante da casa não é particular, mas isolada o bastante para Paula montar na areia uma imensa tenda branca, com música, comida e bebida, apesar de não haver motivo para muita felicidade naquele verão. No centro da tenda foi colocada a mesma mesa com a mandala no tampo e a alguns metros adiante, cravado na areia, um espelho no tamanho de uma porta, com uma maçaneta.

Os convidados são os mesmos do primeiro encontro, apenas com duas ausências: Thomas e Fernanda. Ninguém os via nem conseguia contatá-los desde que partiram, ele para Veneza, ela para Paris, no dia 19 de dezembro de 1999. Todos os outros tiveram muitos contatos durante esse período, mas nunca como da primeira vez, todos juntos. Durante esse período o ponto de encontro do grupo continuou a ser o Great Balls.

Nesses 17 anos muitas coisas mudaram, do e-mail às redes sociais, da relação de respeito entre o homem e a terra aos objetos que usamos. Não mudaram os livros que lemos, mudou a forma como os lemos e os objetos que usamos. E assim vemos espalhados pela tenda, além dos antigos laptops, também smartphones, tablets, e-readers, gps, roteadores wi-fi e outros gadgets da moda. Mas nós não mudamos muito, apenas adicionamos um novo sentido à palavra toque para usar alguns equipamentos e nos ajustamos ao resto.

Envolvido com a experiência de colocar um livro na rede, acabei abraçando definitivamente o pseudônimo Passenger, e passei a me interessar pelo provável surgimento de um novo formato de literatura digital. Naquele começo distante, em 1995, tudo apontava para a possibilidade de que em um futuro não muito distante todos teriam que se adaptar a uma nova literatura: volátil, efêmera, exposta em um pedaço de vidro, que só existiria no estado de ligado-desligado. Mas quase nada aconteceu, átomos e bits não conseguiram chegar a um bom encontro na literatura. Ainda estavam todos na esquina, antes do beco, esperando para ver a cara do livro de amanhã. Enquanto isso não acontecia, continuavam a ler os velhos livros em computadores, celulares, e-readers e tablets. Mundo 3.0, redes sociais, geração Z, eram apenas tentativas de rotular uma multidão plugada na rede, eram apenas novas expressões e conceitos que não agregavam muito, a não ser novas palavras incluídas no jargão da conversa do dia a dia.

Como na primeira festa, acabamos todos sentando ao redor da mesa da mandala, só que desta vez não foi por um convite de Paula, que apenas mais tarde se juntaria a nós. Cada um acabava indo para a mesa e sentando, como se o desenho da mandala com as suas simetrias perfeitas, pudesse trazer respostas para o que o que nos perguntamos durante esses últimos anos.

Alguém tem alguma notícia do Thomas?, perguntou Roberta quando sentou.

“Não”, respondeu Alex, monossilábico, visivelmente abatido.

Com exceção de Alex, ninguém mais tinha visto Thomas desde dezembro de 1999, quando tomou o avião com Fernanda e embarcaram para a Europa, ele para Veneza e ela para Paris, onde se encontrariam depois. Alex ainda os encontrou em Paris, no dia seguinte ao da partida, haviam combinado se ver em um bar na Place du Tertre, mas depois disso o desaparecimento foi completo, sem notícias em jornais, de amigos ou quem quer que seja. Ninguém conseguiu também contatar Fernanda nesse período, por nenhum meio de comunicação, mas no caso dela era comum sumir por longos períodos e ficar incomunicável, afinal o relacionamento dela não era exatamente com todas essas pessoas, mas com Thomas.

E para quem conhecia os textos não havia como não relacionar o seu desaparecimento com a morte no final da história, anunciada por ele no primeiro encontro. Por outro lado também não havia nada que esclarecesse o desaparecimento, por mais que todos tenham se empenhado durante esses anos. Além de órgãos de notícias, hospitais e tudo o mais que fosse possível para encontrar uma pista, foram contatados todos os internautas que interagiram com ele através de e-mail até o momento da partida para Paris.

Antes do embarque ele enviou algumas páginas via e-mail para mim e avisou que era tudo o que tinha. Não informou se era o final do livro e eu também acabei não perguntando, afinal falaria com ele em alguns dias quando retornasse de Paris.

O último texto que recebi falava sobre a sua infância, sobre um areal branco e uma velha casa de madeira, e essa imagem parecia ter um grande significado para ele. Era um dia de verão e nesse lugar estavam ele, Alex e Fernanda, crianças ainda, se preparando para um baile de carnaval. Tinham uma vida inteira pela frente naquele momento e falavam sobre seus futuros antes de sair para um baile infantil.

O primeiro a se manifestar foi o Alex, o mais abatido, durante esses anos não deixou de pensar nesse desaparecimento um só dia.

“A única coisa que eu consigo pensar sobre tudo isso que aconteceu e não gostaria de pensar, é que existe uma conexão entre a morte anunciada no texto e o desaparecimento. Isso tem um lado ruim, pode ser uma morte real, mas tem também um outro lado bom, que deixa uma esperança – essa morte fazia parte da ficção, estava no texto. Ele previa uma grande audiência, esperava ver o país seguindo a sua história online como seguem uma novela global, mas superestimou na época não só o seu talento como o tamanho da Web nos primeiros meses e anos. Nós recebemos e respondemos milhares de e-mails, mas milhares eram apenas milhares, não eram suficientes para construir um relacionamento entre autores e seguidores como existe hoje no Twitter e Facebook.”

“Mas e daí, qual era a ideia do desaparecimento, da suposta morte, o que tem a ver com aqueles arquivos que não eram para que eu e Paula víssemos?”.

“Não sei, Marcela, ele me falou sobre isso diversas vezes, mas nunca discutimos detalhes, eu não achava nem que ia acontecer o livro online, creditava sempre essas conversas na conta dos seus projetos pensados e não executados. Pelas pistas deixadas no texto ele desapareceria e deixaria milhões de leitores preocupados com a morte de um certo Thomas G. Marasco, sem a certeza de ser um personagem ou uma pessoa real. Dois anos antes do desaparecimento ele já tinha até deixado de responder e-mails dos leitores, mas mesmo assim sumiu na data prometida, 19 de dezembro de 1999. Coincidência, não?”

“E você acha que ele pode estar vivo hoje, em algum lugar do planeta, rindo de nós? Você sabe que ele era capaz de tudo, não?”.

“Pode ser sim que ele esteja por aí, Joana, em alguma parte do mundo, rindo muito de nós. Ou não. É um período muito longo para fazer uma brincadeira como essa, mas a possibilidade existe, apesar de muito estranha. Maravilhoso seria se ele pudesse aparecer aqui hoje e nos contar que tudo não passou de uma brincadeirinha, um blefe, um delírio de ficção. Eu encheria ele de porrada, mas queria muito que fosse assim. Eu gostaria mesmo que isso pudesse acontecer neste encontro, mas é bem provável que eu já tenha bebido demais para imaginar coisas.”

“Eu e meus filhos compartilhamos a sua esperança de que ele esteja vivo, Alex. Sei que é um excesso de otimismo, pouco consistente, mas acreditamos. Os nossos filhos estão sofrendo também, precisamos de uma resposta.”

Com Marcela não era muito diferente. Em todos os contatos feitos com ela durante esses anos ela não parecia fazer outra coisa a não ser procurar decifrar algum código oculto no texto que pudesse levar a uma pista, uma luz a tudo que aconteceu.

“A minha cabeça já explodiu mil vezes diante de tantas possibilidades ruins, e o que resta nela é apenas o que ficou gravado da nossa conversa no último instante em que estivemos juntos. Depois do evento ele passou em casa de madrugada para se despedir, algumas horas antes de tomar o avião. Contei a ele sobre o arquivo final.htm, que havia me deixado preocupada, e ele me perguntou como eu havia tido acesso àquele arquivo. Ele ficou preocupado, era como eu não devesse ter lido esse arquivo.”

“E o que havia nesse arquivo?”, perguntei a ela, “eu não me lembro.”

“Era um texto estranho, um cenário muito sinistro. O lugar onde ele brincava quando criança havia se tornado um cemitério de automóveis, e as expressões se referiam a coisas estranhas, como matéria morta, decomposta, excrementos cósmicos e coisas do gênero. Nesse lugar ele procurava por mim, por Joana, quando uma mulher se aproxima e começa falar que todos haviam partido daquela região, haviam fugido para um outro lado, por causa de uma epidemia. Ele tentava ver o seu rosto, mas ela se posicionava sempre na contraluz, e ele só enxergava um vulto.”

“Agora lembro dessa cena também, achei estranha quando subi a página, mas até então Thomas estava entre nós. Foi pouco antes da viagem.”

“Por causa dela eu fico com a esperança de que isso era algo que ele estava planejando e não deveríamos saber, era uma parte secreta da sua ficção, e era uma coisa boa, uma brincadeira mesmo. Tem também uma cena em que ele passa por uma porta de vidro na casa da Fernanda e chega à cidade onde nasceu. Pode ser que ele entre por essa porta de vidro que está ao nosso lado, pode ser que a maluca da Paula possa saber de alguma coisa que não sabemos. Onde está ela?”

“E você Joana, o que pensou nestes últimos dez anos a respeito disso?”, pergunta Roberta a ela.

“Para mim esse desaparecimento tem a ver com a ficção. Pode ter havido algo fatal ou não, uma perda real ou não, mas tem a ver com a ficção. Eu costumava dizer a ele que quando se começa a escrever uma obra de ficção existem algumas coisas que devem estar definidas desde o início, principalmente o centro da história e o seu final. Mas ele argumentava que não, ele achava que devia encontrar os caminhos e os fins nas esquinas e becos, como na vida real, e afirmava que se já conhecesse toda a história não haveria motivo para escrevê-la. Acho tudo muito complicado, me parece estranho dizer o que estou dizendo, mas acho que tem a ver com isso.”

Roberta, que ouvia Joana atentamente, continuou o raciocínio dela. “Como Joana, eu acredito na possibilidade desse desaparecimento fazer parte da ficção maluca que sempre habitou a cabeça dele. Nós discutimos muito no período em que ele estava terminando os últimos textos, tivemos grandes brigas com relação ao final do livro, mas ele era muito obsessivo, parecia disposto a qualquer coisa por esse texto. Nunca chegamos a um bom acordo quanto ao final, ele nunca encaminhou a sua história para um final coerente, mas sim para um delírio. Eu nunca consegui entender porque ele era capaz de fazer tanta coisa por esse texto, mas ele sabia o que queria, com certeza, e esse desaparecimento nebuloso pode ter sido decidido por ele, seja uma fatalidade ou não.”

“Quem foi a última pessoa a vê-lo?”, pergunta Marcela.

(Inserir algum a coisa que tenha acontecido, tipo música, vento, alguém que passou pela praia, cavalos que os turistas alugavam, etc. Fazer algumas descrições também nos parágrafos anteriores: da tenda, das pessoas que passam, da mandala, etc… Ver fotos de praia que possam ilustrar a narrativa, como a menina a cavalo em Búzios, etc. fazer um levantamento de fotos.)

 

O pedido de Thomas Incorpóreo Plano de Viagem Home