VERÃO DE 1995

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“Irmão Harry, convido‐o
para uma pequena diversão.
Somente para loucos.
A entrada custa a razão.
Está disposto?”

Herman Hesse, O Lobo da Estepe

Era uma noite quente do verão de 1995. O vento que vinha do mar atravessava o ambiente fazendo flutuar as cortinas, e as sombras desses movimentos misturavam-se com as luzes móveis de uma pequena pista de dança.

“Não deixe de vir à minha casa neste sábado, Fred, eu gostaria de apresentar você a um grupo de amigos. Paula Davis”. Pensei em não ir, ela nem me disse quem eram as pessoas, mas quando dei por mim estava na estrada, e algumas horas depois na casa dela.

A silhueta de uma DJ operava os decks na contraluz e spots coloridos giravam e iluminavam as pessoas em intervalos curtos de tempo, em uma improvisada pista de dança. A festa era para poucas pessoas, oito para ser exato, descobriria mais tarde.

O que eu também não sabia até esse momento, entre outras coisas, era que a partir dessa noite eu começaria a ser chamado por outro nome, passaria a caminhar por uma faixa muito estreita entre a ficção e o real, e muito menos que compartilharia com outras pessoas a informação sobre o anúncio de uma morte prometida.– Quanto tempo falta ainda, Fernanda?
– Não sei, talvez não muito.
Fernanda tentava me levar de volta à casa onde havia uma grande festa, eu ouvia as pessoas me chamarem, mas os intervalos de tempo do vento foram ficando mais curtos, até que as pás do ventilador…
…pararam de girar.

Paradas na pista, Paula e outra mulher conversavam muito empolgadas sobre alguma coisa, e num determinado momento brindaram com um beijo e um tocar de copos. Um casal dançava agarradinho um clássico do pop sensual, uma bela mulher bailava sozinha com movimentos sensuais, e esparramados em um sofá ao lado da pista outro casal conversava.

Recém-chegado, champanhe no copo, e oculto pela sombra de uma das colunas, levantei o líquido à altura dos olhos e comecei distraidamente a desfocar tudo o que via. As pessoas na pista, as luzes, o casal na poltrona, os movimentos do DJ, não passavam de vultos deformados, formas sem nome. E mergulhado nessa abstração percebi o vulto da mulher que dançava sozinha caminhando através do líquido em minha direção.

Estava tudo de uma leveza quase insuportável até aquele momento, quando o vulto de mulher surgiu diante de mim, bela e chique, sedutora e pecadora, e se apresentou ao som de “Slave to Love”. Ocorre-me agora que talvez ela tenha esperado a música para se apresentar.

 

Meu nome é Fernanda Damiani . Sim, tenho os olhos verdes como o sonho e os cabelos negros como a noite mais profana. Aos dezoito eu era apenas uma menina feia e intelectual, que gostava mais de política do que de masturbação. Hoje sou bonita, fiel, carinhosa e puta.

A bela da festa parecia dizer um texto ensaiado, já escrito antes, mas ela era exatamente aquelas palavras, e naquele momento o impacto de sua presença me colocou definitivamente dentro da noite. A música e a bela me confirmaram que aquela não seria uma noite qualquer, havia em seus olhos um ponto de partida, uma viagem, eu só não fazia ideia para onde.

Fernanda era uma mulher muito bonita, falava bastante e era muito bem articulada, os átomos da sua presença não ganhavam dos bits. Além de bonita, fiel carinhosa e puta, resumiu que depois de um período militância política na juventude, trabalhou como modelo, jornalista e fotógrafa de moda. Mais tarde deixou a moda e o jornalismo para dirigir um projeto de banco de imagens em um museu em Frankfurt. Agora era apenas fotógrafa e tinha um estúdio em Paris.

Após uma pausa começou a relatar um diálogo amoroso que teve em seu primeiro encontro aos 14 anos, e ela parecia falar de outro lugar.

– De onde você vem?

– Eu venho lá do outro lado.

– E o que é o outro lado?

– Pode ser o que você quiser.

– O outro lado da matéria?

– Não, o outro lado do tempo.

– E o que você está fazendo aqui, sentada comigo na beira desta piscina?

– Procuro as bonecas perdidas na minha infância, a lã dos carneiros que me agasalharam em outros tempos, e acima de tudo estava à tua espera. Eu fui a escolhida para te guiar por esta vida.

Aquela conversa já estava me deixando meio enfeitiçado, mas antes que pudesse esboçar algo surgiu o cara que um dia esteve sentado com ela à beira da piscina. Ele dá uma parada, nos fotografa, e chega até nós.

Você é o Fred, certo? Frederico Bergamasco. Sou Thomas Marasco . Os nossos sobrenomes rimam, parece que somos os dois de origem italiana. Paula me disse que você trabalha com produção multimídia e agora vai desenvolver projetos para a Web. Temos muito a conversar.

“Era verdade. Em alguns meses a internet estaria disponível no Brasil e eu estava me preparando para trabalhar nessa área. A Wired era minha revista de cabeceira e foi nela que acompanhei os primeiros passos desse ambiente ao qual um dia todos teríamos que nos acostumar. Thomas também estava interessado na chamada nova mídia, mas no momento se dedicava a outro projeto pessoal que lhe tomava todo o tempo e precisava de alguém para tocar um projeto seu nessa área.

Como a Fernanda, ele também falava muito, com a diferença de que não era articulado como ela. Não falava de forma linear, misturava passado e futuro, sonhos e projetos, sem a preocupação de dar muito sentido ao que dizia.

No início da conversa foi difícil entender o que ele estava querendo, mas me esforçava para compreendê-lo. Mais tarde descobriria que na verdade ele estava me contando o início desta história que eu estou começando agora a contar para vocês, com a diferença de que eu já sei o final. (Ou penso saber).

Passamos para uma sala ao lado onde havia dois projetores, cada um apontado para paredes diferentes. Ele apagou a luz, acionou o primeiro projetor e iniciou-se um período de silêncio.

Ocupando toda a área da parede da esquerda se via a imagem de um rosto de mulher sobre o qual uma linha de luz o percorria de forma intermitente da direita para esquerda, e abria em forma de círculo nos olhos. Um rosto em estado de espera, à espera do acontecer. Abaixo do rosto estava escrito: Tristessa.

Era a capa do livro.

A enigmática imagem, com um rosto que parecia ser o de Fernanda, sugeria para mim uma camada mais profunda do ser humano, não temporal, não espacial, dizendo coisas que não poderiam ser ditas, apenas indicadas. Como as que eu acabara de ouvir da boca de Fernanda.

Essa viria a ser a primeira tela de uma história que começava a ser contada naquele momento, uma espécie de capa do livro na rede. O rosto realmente parecia ser o de Fernanda, mas não dava para ter certeza.

Antes que eu me virasse para olhar o seu rosto, com o primeiro projetor ainda ligado, ele acionou o segundo, e na outra parede lemos um texto.

“Todo processo de transformação social tem um epicentro, que é o momento em que a revolução efetivamente acontece.

Os personagens desta história vivem no epicentro da transição entre a era industrial e a era digital, em uma sociedade em permanente processo de descontinuação.

Eles vivem um momento em que a pobreza, a AIDS, as guerras religiosas e o desemprego contrastam cada vez mais com o desenvolvimento da tecnologia da informação e com o crescimento do indivíduo no ciberespaço.

E dentro desse processo todos eles vivem o presente, olham para o passado, sonham e deliram, dando prioridade ao eu. Passam a maior parte do tempo olhando para dentro de si mesmos, às vezes sem perceber a revolução da qual estão fazendo parte.

Bem-vindos a este grande teatro da informação.

A entrada é franca para todos que estiverem presos nesta imensa teia de bits.

Esta novela não é apenas para raros e loucos, se bem que um pouco de cada um desses atributos pode ajudar bastante na loucura da viagem.

Não haverá instruções de navegação. No auge do desespero, use o back, o go, ou apele para o navegador.
Fasten your seat belts e boa viagem.

Eu lhes desejo um selvagem voo por dentro de vocês mesmos em direção ao futuro.”

Era o prefácio do livro.

 

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