oficina de danca em praga 3

Paula foi quem um dia apresentou Joana para Thomas, por isso tinha um cuidado muito especial com ela nesse processo de elaboração de divulgação online do livro.

“A idéia de ver agora um livro de Thomas na internet mencionando inclusive o relacionamento  de vocês te incomoda?”, pergunta a ela.

“Não, com certeza a vida real é bem mais dolorida do que a ficção. Thomas expôs as suas aventuras com outras mulheres enquanto estávamos casados, isso sim me deixou louca, com ódio dele. Depois, na falta de inspiração para criar algo interessante, decidiu expor a própria vida e as de pessoas de seu relacionamento, mulher, filhos, amantes, namoradas. Acho tudo isto muito pobre, nada nobre. Mas também não vou ficar odiando-o por isso, a dor maior foi o fim de nosso casamento, o livro é só um acessório. Ele sempre foi um excelente pai para os nossos filhos, e eu também não fui tão fiel a ele o quanto se possa supor. E isso não está no texto dele porque ele não sabe.”

“Eu sei que você concluiu o MFA – Master of Fine Arts – nos Estados Unidos com foco em escrita criativa e isso faz de você uma especialista em literatura, que é onde o Thomas acabou se atirando. Foi você quem o inspirou a escrever um livro?”

“No início posso tê-lo inspirado sim, dei força a ele, mas hoje quero ficar bem longe disso, não tenho nada a ver com a criação desse texto, por razões óbvias.”

“Você o ajudou em que parte do processo?

“A idéia inicial era completamente diferente do que existe hoje, era um texto puramente experimental. Comparando com o cinema, podemos dizer que ele seria o roteirista e eu ficaria com a produção e direção, afinal eu era a especialista. Em cima do texto eu criava as roupas, ambientes e tudo o mais que envolvesse a ação. Aprendi isso nas oficinas de criação. Um maluco de minha classe produzia o seu texto inclusive com storyboards, desenho dos ambientes, roupas, como se estivesse produzindo um filme, e essa experiência me impressionava. Ele precisava enxergar antes, para escrever depois. Mas em nosso caso era tudo experimentação, sem qualquer pretensão.”

Joana deu uma pausa, parecia não saber se continuava. Thomas era um livro já lido em sua vida, não queria se envolver novamente com esse texto, não mais. Mesmo assim deu uma fechada no assunto.

“Depois da separação não quis saber de mais nada, senti-me traída duas vezes, pelos textos explícitos sobre a vida de Thomas com outras mulheres e por ter sido realmente traída por ele com essas mulheres personagens. Mas gostaria de não falar mais sobre isso, minha atuação como personagem dessa história está encerrada.”

Marcela volta de uma saída da sala para atender Thomas que a chamou no celular e Paula se dirige a ela.

“E você, Marcela, como se sente como personagem real dessa história toda?”

“Não me importo muito com o fato dessa história ir para o papel ou para a internet, ou qualquer outra mídia. Não tenho idéia da dimensão do que isso significa. Quantas pessoas irão ler, quais pessoas se interessarão, qual o tamanho disso tudo? Não sei nem quais de vocês leram. Apenas senti muito tristeza de me sentir nesse texto como a provável causadora da separação dos dois, mas o relato de Joana agora me deixa um pouco mais tranquila.”

“Como você conheceu o Thomas?”, perguntou Roberta. Ela conhecia o texto, não gostava muito de Marcela, e resolveu checar.

“Nos conhecemos na Aliança Francesa e na primeira aula já rolou uma atração. Eu tinha namorado, Thomas era casado, não escondemos isso um do outro, e começamos a sair até que um dia fomos parar em um motel. Alguns meses depois veio a separação deles, me senti culpada sem ter certeza de nada, e continuamos o nosso relacionamento, morando em casas separadas.

Houve um silêncio, Roberta parecia aguardar a continuação.

“Isso bate com o que você leu nos textos, Roberta?”

O sorriso de Marcela ao colocar a pergunta fez com que ela não respondesse à provocação. Não satisfeita com o silêncio, Marcela continuou:

“Você está esperando mais detalhes? Se o nosso sexo é bom? Se Thomas vai à igreja todos os domingos? Se ele continua comendo outras?”

“Não, estava só pensando. É que não acho boa a idéia de expor os amigos em uma história da vida real, seja com nomes verdadeiros ou fictícios, mas foi o que ele quis fazer e não sou eu quem vai impedí-lo, pelo contrário, estou apoiando. Apoiando o projeto de um livro, não da exposição da vida de seus amigos e relacionamentos.”

“E onde vocês se conheceram?”

“Achei curioso ele omitir que nós conhecemos em Praga, em uma oficina de dança xamânica, numa época em que estávamos meio perdidos em nossas buscas. O texto passa a impressão que nos conhecemos porque eu casei com Alex, seu amigo de infância, quando na verdade nos conhecemos e casamos porque Thomas nos apresentou. Tivemos um relacionamento em Praga, que se estendeu por alguns meses no Brasil, mas quando voltamos casamos com outras pessoas.”

Roberta conhecia o texto completo, até os rascunhos. Quase tudo que Thomas escrevia passava por ela, e isso a deixava desconfortável com relação a Joana, por isso foi direta com relação a ela.

“Lamento por ter transado uma noite com Thomas quando vocês ainda eram casados, Joana, percebo que fiz algo ruim a você, mas às vezes existem situações que fogem de nosso controle, os instintos nos dominam e as coisas simplesmente acontecem. Espero que isso não tenha sido causa relevante na sua separação. Me desculpe.”