TRISTESSA

 
Na primeira vez que estive em Paris foram muitas semanas de trabalho. Eu precisava mostrar que a Paris dos anos 20 havia sido a maior badalação intelectual de todos os tempos e os caminhos para restaurar a cidade da “geração perdida” eram muitos. Diversos hotéis, restaurantes, cafés, brasseries, bistrôs, livrarias, praças, muitas pessoas. Afinal haviam sido verões e mais verões de ócio a marcar aquela loucura toda, e eu precisava registrar e falar sobre todos os lugares por onde a festa havia passado.

Pontos como o Dôme, Rotonde, Coupole, Closerie de Lilas, Flore, Deux Magots, Lipp, Sélect, não puderam deixar de fazer parte do meu trabalho, apesar de não possuírem mais a magia da época. E as pessoas, principalmente, também eram muitas, de Gertrude Stein a Henry Miller, que foi praticamente o último a chegar para a festa. Optei por destacar mais os que se estabeleceram lá pelos lados da Sorbonne, mais especificamente os que viveram ao redor de Hemingway. Até os beats – Kerouac, Ginsberg, Corso, Ferlinghetti – estiveram por lá.

Mas hoje, antes de encontrar Fernanda, quero apenas registrar uma perspectiva de Paris que esqueci de fotografar na vez anterior. É uma foto comum, banal, como aquelas estampadas em quase todos os postais de Paris.

São quase seis horas da tarde, está para escurecer, marquei com Fernanda às nove no apartamento dela. Desço na estação de metrô do Louvre, uma das mais bonitas de Paris – onde se pode ficar apreciando obras de arte enquanto se espera o transporte – e caminho até a Place du Carroussel.

Esparramo todo o equipamento fotográfico sobre a grama bem cuidada da praça e me preparo para fazer a clássica foto de Paris: L’Arc de Triomphe de L’Etoile, visto através do L’Arc de Triomphe du Carroussel, e de quebra, entre um e outro, a fonte das Tuileries, o obelisco de La Concorde e o charme da Champs Ellysées.

Perspectiva fodida. Só Paris mesmo. Armo o tripé, coloco na máquina uma objetiva de 800 milímetros para comprimir nas frações de milímetro da emulsão fotográfica os quase dois quilômetros que separam os dois arcos e fico esperando as luzes acenderem. O sol já está quase desmaiando por trás da Tour Eiffel e o frio ultrapassa o suportável. Mas o momento da imagem não pode ser perdido, tem que acontecer nesse intervalo entre o dia e a noite, depois que as luzes são acionadas.

Sem as luzes acesas, principalmente a da fonte das Tuileries, do Obelisco e dos Champs Elysées, nada feito. O frio aumenta, mas aguardo o acender das luzes. Nenhum movimento na praça. Num banco, a alguns metros, alguém sentado, parecendo um vulto de mulher, me observa. Corro, pulo, dou murros no ar para aquecer, mas não adianta. O frio atravessa o couro, a lã, os meus ossos e a porra das luzes não acendem. Seis e meia da tarde, já quase escuro.

“Para a puta que o pariu com os franceses! Vão fazer economia de energia justamente hoje?”

Estou para desistir quando as luzes se acendem. O arco, a fonte, o obelisco, a avenida e finalmente o arco de L’Etoile são acesos quase na sequência em que se afastam de mim. Perspectiva demoníaca, maravilhosa. Tiro as luvas de couro, esfrego um pouco as mãos para esquentar, e corro como um louco para o equipamento na ansiedade de possuir uma perspectiva de Paris através de um retângulo. Ajusto velocidade, abertura, filtro para eliminar reflexos e começo a clicar desesperadamente, intensamente, troco de filme, tudo muito rapidamente, sem parar.

Clico tantas vezes quanto aguento o frio e caio satisfeito na grama gelada. Às minhas costas as paredes solenes do Louvre me observam, caladas. Agora preciso recolher toda a parafernália espalhada pela grama, sob o olhar arrepiado dos fantasmas do museu e fugir logo desse frio.

Durante toda a minha orgia percebo que o vulto de mulher me observa, sentado no banco, sem esboçar qualquer reação. Concentrado no trabalho também não tenho tempo de lhe dar qualquer atenção.

“Que não venha me encher o saco”, pensava enquanto fazia as fotos.

Só que agora não estou mais por trás das lentes e fico curioso para conhecer o fantasma feminino que assistiu calado ao meu luxurioso espetáculo. Coloco tudo na bolsa, muito rapidamente por causa do frio, e caminho em direção ao vulto-mulher, como quem não quer nada. Já está quase escuro e uma névoa inesperada cai sobre Paris. Passo pelo vulto, mas ele nem move a cabeça.

De passagem dá para ver que é bonita. Morena, cabelos negros cortados à velha moda punk, olhos tristes mas fascinantes, e rosto magro. Ando alguns metros, paro e volto.

“Bon soir”, tento.

Ela gira a cabeça na minha direção, me olha nos olhos, e quando consigo ver-lhe o rosto fico arrepiado. É o mesmo rosto de Fernanda, há vinte anos.

“Fernanda, sou eu, Thomas, você me reconhece?” digo impulsivamente.

Ela retorna a cabeça ao ponto de partida e continua imóvel, calada, contemplando o silêncio das janelas do Louvre. Apenas um olhar vazio, focado no nada, como se eu não estivesse presente. A semelhança com Fernanda de 20 anos atrás é impressionante. Sinto-me em uma outra camada da vida, provavelmente do passado e resignado prossigo:

“Mon nom est Thomas, vous êtes bien?” pergunto, começando a atropelar o francês.

Sentado agora ao seu lado, olhando-a bem de perto, ela me parece não estar se sentindo bem. As luzes da fonte das Tuileries ressaltam na contraluz o perfil de seu rosto, desfocado nesta perspectiva louca.

“Quelle est votre nom? Vous êtes bien?”

Sem sequer virar o rosto para o meu lado ela responde:

“Mon nom est Tristessa e eu sinto solidão, como você.”

As palavras começam a surgir, ora em francês, ora em um português afrancesado. E o nome Tristessa me soa familiar, é o nome da peça de teatro que escrevi e dei para Fernanda ler, há cerca de vinte anos atrás. Ninguém mais leu aquele texto, nem Joana.

“Se você está com algum problema, me diga onde você mora e eu a levo para casa.”

“Eu não sou de Paris”, responde sem virar para o meu lado. O perfil de vulto continua mal iluminado e confuso, e envolto em uma névoa que começa a existir também entre nós. Seu rosto está completamente desfocado e o olhar parece perdido na distância que nos separa das luzes fortes das Tuileries.

“De onde você vem?”

“Eu venho de longe, de um lugar onde você nunca esteve.”

“E o que está fazendo aqui, sentada sozinha neste lugar, com este frio?”

“Estava à sua espera.”

À minha espera? Qual é? Eu já até sonhei com uma mulher dessas, misteriosa, em Paris, papo louquíssimo, mas era um sonho, ela não existia.

“Eu sou fotógrafa também. Estive nos Estados Unidos em 1955, na exposição “Family of Man”, e me impressionei muito com aquele homem solitário, encostado na árvore, ao lado de sua bicicleta e perdido no meio daquelas quinhentas fotos montadas naquele layout maluco. Estive em Colônia, em 1978, e me emocionei com aquela sofisticada mulher coberta por um robe de seda, se oferecendo a seis jovens executivos. E estive em Veneza também, vendo a sua exposição.”

Sem perceber começo a entrar no estado de transe dessa mulher que se diz chamar Tristessa, começo a vibrar na mesma onda, sem questionar, apenas pedindo para ser um pouco da sua solidão, que a partir deste momento passa a ser um pouco minha também.

“Eu me chamo Thomas”, repito novamente o nome, agora sem fazer sotaque francês. “Gostaria que você dividisse comigo um pouco dessa sua angústia.”

Um vento gelado e preguiçoso, molhado agora de noite, balança os nossos cabelos e das Tuileries chega até nós um cheiro gostoso de mato. As palavras começam a fluir aleatoriamente, aparentemente sem sentido.

“É terrível como esquecemos tão depressa o enredo dos primeiros passos, as ruas da infância, os desencontros da adolescência, e caímos logo na ideia de saudade de um tempo que não volta nunca mais. E o pior é que a fotografia está morta.”

“Por que morta?”

Depois de algum silêncio, seguido do ruído de um barco cortando o Sena em frente ao Quai du Louvre, Tristessa olha bem direto nos meus olhos, pela primeira vez.

“Os teus olhos são estranhos, você parece solitário também. E é um fotógrafo, uma espécie em extinção. Uma pessoa muito triste.”

“Sou sem Deus, agora triste, só também. O amor que eu tive pela imagem destruiu o sonho-criança que eu esperava recriar um dia em algum canto do mundo. Mas estou conseguindo superar tudo isso.”

“Você é um fracasso, pertence a uma espécie em extinção, por isso é triste. O seu discurso na exposição foi um fracasso e não há mais tempo depois de Veneza. Os sais de prata estão sendo substituídos por bits e a fotografia está desaparecendo. Só o que restam são fotógrafos nostálgicos como você, tentando aprisionar o tempo em exposições falidas.”

O ruído de um jato rasga os céus bem em cima das nossas cabeças e de repente penso haver recobrado a sanidade, ou insanidade. O que significa isso tudo? Quem é essa mulher com cabelo punk e a cara da Fernanda há vinte anos atrás, sem envelhecer? O que ela sabe da exposição em Veneza? Que discurso foi esse que eu nem fiz?

Antes que eu consiga tirar as minhas conclusões ela levanta e sai correndo em direção ao Sena, com as roupas balançando ao vento frio, até desaparecer completamente na névoa. Perplexo, começo a correr na direção em que penso ter ela corrido. Quai du Tuileries, Quai du Louvre, a lua já bem alta e fria, e a paisagem ficando para trás. Canso, e começo a andar lentamente. De um lado o Sena: tenebroso, calado, frio. Do outro lado o asfalto: negro, iluminado e profano, com os seus automóveis barulhentos e velozes.

“Quem era aquela mulher? Como ela sabia da exposição em Veneza?”

Antes de partir ao encontro de Fernanda sento no Closerie. Penso em Tristessa, na exposição, o que um tem a ver com o outro e não encontro nada.

 

A carta do Passenger No deck, a céu aberto Plano de Viagem Home