TODO O VÔMITO DO MUNDO

 
Em uma daquelas noites quentes e enluaradas do verão de 1991, eu e Alex, depois de muita conversa e muito uísque, vomitamos na imensa banheira que tinha em minha casa, imensa o suficiente para receber todo o vômito do mundo.

A noite estava limpa, negra, mas cheia de estrelas. Depois do vômito saímos para o jardim que dava para a rua, deitamos sobre as margaridas e ficamos contemplando as estrelas. Um universo sem fim diante dos nossos olhos, sem explicação alguma naqueles dias, como até hoje.

Um mendigo parou na porta e pediu esmola. Duas horas da manhã, o universo desenrolando o seu enigmático tapete de estrelas diante dos nossos olhos bêbados, e um mendigo pedindo esmola àquela hora.

Naquela época Alex costumava debitar a Ginsberg, a Kerouac, a todo aquele pessoal da beat generation, tudo que de espantoso ou estranho nos acontecia, porque para ele havia ocorrido por ali o começo de toda a loucura do nosso tempo. Disse então ao mendigo para caminhar duas casas adiante, bater na porta, e procurar por um sujeito barbudo chamado Ginsberg. O mendigo não entendeu nada.

“G-i-n-s-b-e-r-g”, ele repetiu para o mendigo, soletrando. “Procure por Allen Ginsberg, duas casas adiante. Ele costuma receber mendigos em sua casa todas as madrugadas, e certamente terá uma solução para você, se estiver lúcido.”

“Ginsberg !”, repetiu o pobre homem com muita dificuldade, guiado apenas pela sonoridade complicada da palavra. Depois olhou para mim, agradeceu e seguiu. Espero que o mendigo tenha conseguido achá-lo.

Sei que você não está concordando com nada disto, Roberta, e talvez nem queira mais publicar o meu livro, mas o problema é apenas de temperatura de cor. As temperaturas mais quentes, ao redor de 3.000 graus Kelvin, mais ou menos perto da temperatura da voz de James Taylor quando ele canta You´ve Got a Friend, deixam os fotógrafos assim. Ou o homem de fotografia, como você gosta de me classificar. Escrevo debaixo de uma lâmpada de 80 watts, halógena. A luz me ilumina e me cega, ao mesmo tempo.

Mas passado o episódio do mendigo, continuamos deitados sobre as margaridas, respirando fundo, tentando afastar definitivamente a sensação de vômito, e aproveitando a imagem do universo: bondosa, negra, estrelada.

Contemplando o infinito ocorreu-me então que Ginsberg e Kerouac não tivessem lá tanta culpa. Afinal eles não passavam de discípulos de seus antecessores, catalisando em sua época toda uma loucura já inventada no passado.

Argumentei com o Alex, ainda meio bêbado, e ele concordou. Apenas neste século muitos já haviam começado antes deles. Hesse, Artaud, Camus, Sartre, e tantos outros. Minha mãe diria, na sua ingenuidade, que são tudo farinha do mesmo saco, pensam demais. Até Hemingway, por que não? A Paris dos anos 20 tinha também um pouco desta loucura toda. Mas também eles foram discípulos de outros, como Heidegger, Nietzche ou Schopenhauer. Farinha do mesmo saco insiste minha mãe, pensam demais e fazem os outros pensarem também.

Varremos o tempo com a velocidade de uma estrela e paramos em Heráclito, por falta de um maior conhecimento da história da filosofia. Alguém tinha que ser o culpado. Mas no tempo de Heráclito não havia bares, cafés, processadores de texto e muito menos Internet. Não deve ter sido muito fácil manter acesa a chama dessa confusão toda através dos tempos.

Alex dormiu e me deixou falando sozinho, na grama, com os olhos a varrer aquela escuridão sem fim. As margaridas, caladas, também adormeceram. Comecei então a pensar por onde andaria Paula naquelas horas. Há mais de um mês não me escrevia.

Tentando registrar essa noite que ocorreu há muito tempo atrás, me vem agora a imagem do dia em que encontrei Marcela com o namorado, feliz, e com muito tesão nos olhos. Em meus sonhos sempre imagino as mulheres gozando pelo rosto, lágrimas grossas jorrando dos olhos, como se fossem esperma masculino. E depois Paula novamente, mas agora no futuro.

Penso em escrever um dia sobre os sonhadores no poder, e vejo Paula entrando em meu escritório para tratarmos dos destinos do mundo. Puro delírio. Eu, diretor de tecnologia da informação da empresa Planeta Terra, baixando normas e regulamentos sobre o hardware do corpo e o software da alma, e ela, jornalista famosa, derrubando presidentes, gerenciando os destinos do mundo, me procurando para uma entrevista. Um olhando fundo nos olhos do outro, com muito poder nas mãos, mas sem saber para onde levar a massa toda, porque tudo isso é muito complicado, principalmente para os sonhadores.

Tenho certeza que um dia, livres de todas as responsabilidades que nós mesmos nos atribuímos, ainda caminharemos por uma estrada florida, eu e Paula, em direção à casa dos sonhos. Na porta haverá uma placa escrita: THIS IS NOT HERE. Como no vídeo do John e da Yoko. Entraremos, eu irei para o piano, como John, ela abrirá as janelas, como Yoko, e a casa ficará muito branca e muito clara. Depois ela se sentará ao meu lado no piano, cantaremos Imagine, em seguida morreremos de mãos dadas, cobertos de rosas.

 

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