TEU CORPO PROMETIDO AO MEU

 
Mesmo em um tempo muito anterior à tua chegada, quando havia apenas um corpo prometido ao meu, em algum canto eu já sabia você à minha espera. Nos teus lábios eu sabia a palavra que me reconstituiria de tantas mortes passadas, nas tuas mãos eu tinha a certeza do gesto preciso, em teu corpo a convicção da loucura – por isso eu passava as noites arrebanhando sonhos, inventando fugas, para poder estar lúcido quando chegasse a nossa hora.

Naquela primeira noite o meu corpo estava ainda adormecido sobre o horizonte de muitas mortes passadas, daí o espanto no início, aquele silêncio liso entre nós, sem relevo algum. Foram apenas os meus olhos nos teus, os teus olhos nos meus, agitados como o vento dentro da noite que nos viajava. Eu não sabia a melhor maneira de nos conhecermos, e as coisas teriam que evoluir por si, até que deixasse de existir eu e você dentro da noite – apenas nós.

Quando mais tarde os nossos corpos se tocaram pela primeira vez a minha vontade de amor alcançou aquelas distâncias que não conseguimos nunca viajar, atingiu aqueles limites de onde podemos contemplar todo o azul, e eu tive uma vontade louca de descobrir a espécie de amor que tinha por você.

Mas a desordem das palavras não conseguiu ainda chegar naquela noite à síntese almejada, e o mistério de não entender continuou. Era ela, a noite, sempre ela, entre mim e você. As horas passaram ligeiras, o tempo se esvaiu, e as nossas palavras chegaram ao fim.

Quando finalmente as flores começaram a crescer em teus lábios, eu entendi então o porquê de tanta ansiedade. Os ponteiros das horas que antes nos varavam adormeceram cansados, e com eles morreu a espera que ardia em madrugadas passadas, plasmada ainda na frustração do primeiro amor. A compreensão esperada penetrou as nossas palavras, os nossos olhares, e o que estava para nascer subiu aos nossos lábios, tomou a forma de luzes e de cores, como nos sonhos. Os nossos olhos vestiram sons e disseram coisas mágicas ao nosso silêncio. As minhas mãos tocaram os teus cabelos, os nossos lábios tremeram, e a noite se esparramou inteirinha por dentro de nós.

Agora entendo. O nosso amor veio da noite que se foi e da madrugada que se perdeu depois no silêncio das calçadas sem ninguém. Por isso tenho agora as minhas mãos perdidas na névoa por você deixada, tenho os meus olhos aprisionados na rede que os teus olhos lançaram no oceano da manhã que está por nascer.

Mais tarde, em meu travesseiro, sonhei os nossos corpos flutuando nus em uma imensa sala de aula, as minhas mãos e olhos percorrendo todo o teu corpo, e as nossas almas fora de nós, distantes, nuas também, caminhando de mãos dadas em uma praia deserta e ensolarada.

 

Joana Marasco Joana Marasco Plano de Viagem Home