SHOW

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Quando chegou ao local o evento já tinha iniciado, e para se misturar com o povo Thomas entrou pelo mesmo lugar dos convidados não especiais.

Ao entrar no recinto as pessoas eram totalmente orientadas por setas, mas acabavam envolvidos por elas e se perdiam. A projeção ocorria em todas as partes, em paredes e tetos virtuais. Tudo acontecia ao redor das pessoas, que continuavam apenas a seguir as setas.

Enquanto seguiam as indicações, alguns olhavam para os lados, outros para cima, mas todos perplexos com o tamanho das imagens de alta definição que se erguiam ao seu redor, projetadas em gigantescos telões virtuais. O primeiro movimento mostrava a história do homem, desde os primeiros dias, quando a vida dependia apenas da sua supremacia sobre o mundo animal.

Thomas caminhava anônimo pelo interior de sua grande festa, observando atentamente a reação do público à obra. Enquanto as pessoas derramavam sacos e mais sacos de pipoca pelo chão, muitos anos de caça e pesca se passavam nos telões, até que surgiram os primeiros códigos e as sociedades organizadas.

“Não adianta ficar escondido no meio das pessoas, Thomas. Você é um mistificador”, disse Roberta se juntando a ele no meio da massa.

Imagens de misticismo, poesia, guerras, ouro, palácios, o aprofundamento da dúvida filosófica, as religiões, a matemática, a medicina, tudo ia acontecendo diante dos olhos cada vez mais deslumbrados dos convidados, que acabaram por desembocar em Cristo. Fim do primeiro movimento.

Thomas caminhava apressado pelo meio da multidão e Roberta gritava atrás dele, contestando tudo o que via.

No segundo movimento os quase dois mil anos de cristianismo que garantiram a fé e preservaram a estagnação da idade média eram ilustrados por contornos de pessoas feitas de clips de papel. Eles se davam as mãos, apoiados em trapézios que desciam das nuvens.

Depois a sede de novas descobertas, o aperfeiçoamento dos instrumentos de navegação, a atração pelo dinheiro, pelo individualismo, pela fama pessoal, fez com que esses homens descessem das nuvens e vestissem pesadas roupas.

“É tudo como em seu livro, Thomas. Você fala, mostra, projeta e não diz absolutamente nada. Continua usando filtros, efeitos especiais, objetivas que deformam, tudo para esconder a sua incapacidade de subverter a estrutura convencional dentro de um enquadramento objetivo e científico.”

“Eu sei que você me adora, Roberta. Se a sua empresa me garantir o projeto no Brasil já me dou por satisfeito.”

“Do que eu vi até agora, não gostei de nada. E a empresa não é minha, é do meu pai.”

“Mais tarde conversamos sobre isso.”

Um adolescente reconhece Thomas e se aproxima:

“A vida é mais bonita fora de foco, cara. Às vezes vemos ao longe cores e movimentos que nos parecem bonitos, elegantes, mas quando focamos percebemos o feio. A textura e a forma das suas mais diminutas partículas, quando colocadas sob uma lente macro, são feias.”

“Ou bonitas. Mas talvez você tenha razão, o mistério sobre os detalhes sempre protege a beleza.”

A descoberta das leis do universo pelos filósofos e cientistas alavancaram as grandes revoluções que mudariam o mundo, e essa fase da humanidade era mostrada de uma perspectiva com o ponto de fuga debaixo da terra. Torres de energia subiam da superfície do planeta e tentavam suportar um grande balé de nebulosas, furando os céus.

No meio da multidão um homem se desespera. Tenta seguir as setas, se perde, e é envolvido por elas. Para em um orelhão com vídeo, puxa o seu cartão magnético e liga para lugar nenhum. As pessoas mais equilibradas continuam a seguir as indicações, e ao mesmo tempo acompanham as imagens nos telões.

“Em que parte da história estamos?” pergunta uma mulher ao marido.

“Newton está descobrindo a lei da gravidade”, ele responde mordendo uma coxa de frango crocante.

Um homem nu corre em direção aos espectadores, fugindo do horizonte em chamas, e trens automatizados cruzam o planeta em alta velocidade. É o terceiro e último movimento – o começo do tempo atual. O homem aprende a voar e começa a se locomover com mais facilidade pelo planeta. As primeiras calculadoras se transformam em poderosos computadores, e o homem começa a ter cada vez mais pressa.

As imagens se sucedem. Os mesmos contornos das pessoas que se davam as mãos agora empunham máquinas fotográficas antigas e começam a fotografar os espectadores. Um executivo tenta fazer voltar os imensos ponteiros de um relógio dourado e uma modelo ri, sentada no chão, ao som de um velho hino de Stockhausen.

No salão principal os empresários se deslumbram, tentando acompanhar a grande dança de imagens. Grande chance de se viabilizar o projeto de Thomas.

Homens e mulheres, com roupas de executivos, caminham sobre linhas de gráficos que furam as nuvens como escadas que não levam a lugar algum. Os empresários não estão sendo poupados, mas parecem gostar. Não entendem, mas aplaudem.

“Fabuloso! Essa é a criatividade do novo milênio.”

Longos aplausos.

As pessoas feitas de clips agora não são apenas contornos, mas corpos sem rosto, que novamente se dão as mãos e dançam nas nuvens.

Ao chegarem ao grande salão VIP central, Thomas definitivamente deixa Roberta para trás e caminha ansiosamente na direção de Fernanda, que observa tudo muito distante, do alto de sua beleza, enfiada em um terno de seda preta amassada.

Antes que consiga falar, ela tapa sua boca com a mão e dispara:

“Esses seus personagens caminham sobre linhas de gráficos que furam as nuvens, mas não levam a lugar algum. Eu não financiaria um projeto desses, mas tenho certeza que você conseguirá. Os empresários se impressionam com qualquer tipo de arte que eles não conseguem entender.”

“Você está cada vez mais puta e mais gostosa, e está com o mesmo cheiro da última vez que nos encontramos.”

“Você também está cada vez mais puto e mais sedutor. Sabe o que dizer para me agradar.”

“Isso é o que eu chamo de uma comunicação perfeita.”

Uma voz sexy de mulher invade o ambiente, dizendo poesias eróticas e apocalípticas. Os corpos de um homem e de uma mulher, nus, protegidos por lençóis brancos, atravessam as diversas telas. O branco é substituído por outra mulher nua, mas colorida, com as mãos sujas de tinta. Ela está nervosa e aperta as suas mãos contra uma placa de circuito integrado. Sente a dor dos pontos de solda, fica com raiva e atira a placa em um espelho partindo-o em pedaços.

“Eu sempre imagino você me comendo em um estádio de futebol. O meu corpo estirado por cima das cadeiras, a minha blusa abaixada, as minhas pernas abertas, e você no meio delas.”

“O meu tesão pela estética e a sua tara por locações para o amor nos completa.”

“Vim de Paris por nós. Quero que amanhã você esteja em Veneza. Tem uma nostálgica surpresa fotográfica que você não pode perder. Depois de amanhã você voa para Paris: tenho mais novidades em meu estúdio. O convite é irrecusável. Já fiz as reservas. Voamos amanhã cedo.”

Dois surfistas nostálgicos e digitais contemplam agora o nascer do sol, com suas pranchas coloridas. Algumas chaminés de usinas antigas, soltando fumaça, servem de cenário para a amarelada e quente paisagem. Anjos com os rostos pintados e olhos tristes observam um maestro regendo a sua orquestra. Close dos olhos tristes. Das mãos do maestro. Fora de foco. Os empresários aplaudem. Dois homens deixam os seus rastros na areia dourada de fim de tarde. Uma homenagem a Antonioni.

O homem das cavernas e o do cartão de crédito trocam energias. Aquele risca as paredes de sua caverna com lascas de pedra, este saca o cartão de crédito e cruza o planeta, como se estivesse atravessando os cômodos de sua casa.

Ardentes aplausos empresariais.

Leo Berstein, proprietário de três canais religiosos, chega meio bêbado em Thomas e dispara:

“O que é que você pode criar para que a nossa presença na rede seja a maior do planeta no início de milênio?”

Os homens feitos de clips se desfazem.

“O que eu posso criar faz parte de seus limites.”

“Eu asseguro a você que se o limite for o dinheiro, você poderá chegar até onde puder com os seus limites.”

“Não é sobre dinheiro que estou falando.”

A música sobe, e o diálogo é interrompido.

Outro empresário, estilista de moda, também chega a Thomas.

“Beautiful. O que eu crio é o que eu vejo nessas imagens: uma moda de rua, confortável, de qualidade e apelativa.”

O comentário agrada Thomas, e ele retribui com um sorriso.

“Fuck you”, acaba resmungando baixinho.

Uma mulher vestida de roupas brancas transparentes estende a mão aos espectadores e procura ajuda, pergunta sobre a origem do universo. Close no seu rosto. No seu olho. Um gigantesco close do olho humano enche as telas. O globo ocular é o planeta terra, e uma lágrima colorida rola diante dos espectadores, de tela em tela, até se arrebentar no chão, molhando as pessoas.

“Nada mais kitsch e ridículo, Thomas”, diz Roberta toda respingada de água.

Fim da apresentação. Palmas frenéticas.

“Parabéns, Thomas. Esse espetáculo foi melhor do que tudo feito antes dele.”

Empresários, convidados e amigos crescem ao redor de Thomas para parabenizá-lo, mas tudo aquilo começa a incomodá-lo.

“Vamos sair daqui, Fernanda. Preciso ir até o Great Balls respirar um pouco daquele ambiente poluído.”

 

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