QUEM VIU THOMAS PELA ÚLTIMA VEZ?

 
Na primeira versão, contada por Alex, parecia ter sido ele o último a encontrar Thomas, em Paris, no dia seguinte à partida. O encontro foi em um local combinado, um bar na Place du Tertre, e ele estava acompanhado de uma mulher que falava um francês misturado com português. Beberam e conversaram muito até que os dois saíram e deixaram-no sozinho, com a cabeça cheia de cerveja.

“Thomas se despediu com um ‘Tchau, Alex, te vejo amanhã, em São Paulo’, ela com um beijo na minha boca que o deixou muito puto. Foi a última vez eu o vi”.

Nesse dia Alex teve que repetir novamente essa história, como vinha repetindo desde o desaparecimento de Thomas, até a inesperada chegada de Fernanda, a quem ninguém havia conseguido contatar.

Ela ouviu atentamente a história de Alex, do lado de fora da barraca, sem que ninguém a percebesse. Terminada a fala, ela entrou e informou que a história era verdadeira, só que a mulher que estava com Thomas era ela.

“Essa cena do bar foi uma brincadeira que fizemos com o Alex. Como presumidamente já o encontraríamos zonzo da cabeça, cheio de cerveja, resolvemos trapacear com ele. Eu coloquei roupas e maquiagem muito estranhas, falei um francês misturado com português e passei por uma estrangeira angustiada e cheia de problemas.”

– “Não é possível, Fernanda, não era você, eu reconheceria!”

– “Mas não reconheceu, e aquele beijo na boca só foi mesmo para deixar o Thomas puto da vida”.

“E por que você não entrou em contato conosco antes?”, disse Marcela.

“Eu estive ocupada, trabalhando muito, e não sabia nem que Thomas havia desaparecido. Agora quem está perplexa sou eu. Depois que deixamos o Alex fomos para o meu apartamento, bebemos, conversamos, até que uma hora ele decidiu ir para o hotel e foi embora. A propósito, essa porta de vidro cravada na areia parece muito com a porta pela qual ele saiu de meu apartamento. De quem foi a ideia de colocar essa porta nesse lugar?”

A saída por uma porta de vidro espelhado explodiu a conversa, e a Fernanda foi bombardeada de perguntas por todos.

“Porta de vidro? Que porta de vidro?”

“A porta social do apartamento é de vidro e espelhada por dentro.”

“E ele já havia visto antes essa porta de vidro?”

“Sim, ele já tinha estado uma vez nesse apartamento”.

“Que história maluca é essa, Fernanda? Dez anos sem fazer contato com o Thomas e conosco, e ninguém conseguiu localizar você na Web ou no telefone! E o Thomas sai por uma porta de vidro, da forma como ele escreveu em seu texto? E agora tem uma porta de vidro espelhado cravada na areia?”

“Bem, sobre essa porta espetada na areia eu também quero saber o porquê. Quanto a mim, eu estava mergulhada em meu mundo, no meu trabalho. Depois que Thomas saiu eu desliguei dessa história do livro, ele iria retornar ao Brasil pela manhã e sempre foi normal ficarmos muitos anos sem contato um com o outro, e desta vez não seria diferente das outras vezes.”

“Mais de dez anos? Passaram-se mais de 10 anos, Fernanda!”

“Sim, e daí? E porque vocês não me procuraram?”

“Porque ninguém conseguiu localizar você.”

“Agora quem está cada ficando pirada com essa história de desaparecimento sou eu”, disse Fernanda.

“E como é que você veio parar aqui justo hoje? Como sabia que estávamos aqui?”

“Cheguei a São Paulo ontem, fui para a casa de minha mãe e tentei fazer contato com o Thomas, mas não consegui localizá-lo em lugar algum. Decidi então pegar a estrada e vir aqui na casa da Paula, que sempre foi um ponto de referência para esse grupo. Simples assim.”

Alex levantou-se, calado, pegou uma lata de cerveja e caminhou até perto do mar.

Joana e Roberta também se levantaram, perplexas com o que acabavam de ouvir, e saíram para caminhar. Agora não era mais o Alex o último a ter visto Thomas, que por acaso havia sumido nos últimos dez anos, agora era Fernanda, que morava em um apartamento com uma porta de vidro espelhado pela qual ele saiu, e por acaso, também, havia uma porta de vidro espelhado cravada no chão da tenda.

“A porta de sua casa é parecida com esta da tenda?”, perguntou Marcela, sempre a mais agitada de todos.

“A porta é igual, todo vidro espelhado é igual, a maçaneta é diferente. Que tipo de relação você está querendo fazer entre as duas portas?”

A conversa foi ficando agitada e um vento sudoeste começou a balançar um pouco a tenda, anunciando mudanças climáticas. Paula chegou com o vento e se juntou a nós, visivelmente abatida. Cumprimentou Fernanda e Marcela, mas o meu primeiro impulso foi perguntar a ela sobre o espelho.

“Porque esse espelho no formato de porta, Paula, inclusive com uma maçaneta? Tem alguma coisa a ver com o texto de Thomas? Com a porta espelhada do apartamento de Fernanda em Paris?”

“Não, não necessariamente. Na verdade não sei nem o que responder para você agora, mas durante o dia talvez eu possa falar algo mais sobre isso.”

“Você conhecia essa história da Fernanda, de que foi ela a última pessoa a ver Thomas e ele saiu do apartamento dela por uma porta de vidro espelhada?”

“Não, não conhecia, não nos falávamos desde a festa anterior, nunca consegui fazer contato com ela. Estamos nos vendo agora, estou sabendo agora sobre a porta e estou tão surpresa quanto vocês devem ter ficado.”

Fernanda relaxa um pouco, o foco da discussão passou para Paula.

“E você não acha uma coincidência imensa estarmos todos debaixo de uma tenda com uma porta de vidro espelhado, inclusive com a maçaneta?”

“Não há coincidência alguma, Marcela. Thomas já havia me falado da porta quando descreveu a sala do apartamento da Fernanda, ressaltando principalmente as máscaras, um retrato de Artaud e uma porta de vidro espelhada. Eu talvez tenha colocado essa porta aí pela mesma razão que vocês estão se fazendo tantas perguntas. Lembrança. Vontade de ter ele aqui conosco outra vez. Esperar que ele entre por essa porta? Eu não chegaria a tanto.”

“E você, Passenger?”, perguntou Marcela mudando de alvo, esperando de mim uma pressão sobre Paula, sobre o que ela achava que Paula sabia e não queria revelar.

“Ouvindo tudo o que vocês disseram e associando com o fato de que eu também já pensava que esse desaparecimento tem a ver com a ficção, acho mesmo que talvez existam respostas no texto. Thomas sempre foi uma pessoa enigmática, e eu acho que esse sumiço faz parte da sua história, é apenas uma questão de conseguirmos enxergar.”

Paula concordou comigo, Marcela estava nervosa.

“As respostas estão no texto sim, isso é uma coisa típica do Thomas, eu o conheço muito bem desde os nossos tempos de escola”. Ele deixou escrito que Tristessa seria desenvolvida em tres atos: Corpo, Fragmento e Todo. Será que tudo o que lemos online não teria sido o primeiro ato?

“Mas o Thomas não está aqui, porra!”

“Calma, Marcela.”, vamos ouvir a Paula.

“Será que depois do desaparecimento dele não estaríamos vivendo, hoje, um segundo ato, chamado Fragmento, anterior ao Todo? Será isso? Será que haverá ainda um terceiro ato? Parece tudo uma grande bobagem dele, mas a vida não é feita só de coisa séria. E ele não é uma pessoa séria, ri mais da vida do que as pessoas comuns. É que hoje ele não está conosco aqui, mas vocês sabem como ele era, também conviveram com ele, alguns mais, outros menos, mas mais intensamente, como você, Marcela.”

Fernanda continuou calada, não comentou a fala de Paula e também não mostrou surpresa com o nervosismo da Marcela. Contei a eles o que sabia dos três atos a que a Paula havia mencionado.

“Para mim ele falou desses tres atos de outra forma, a ideia era mais de uma trilogia mesmo, como se fosse uma bonequinha russa às avessas, essa foi a expressão que ele usou. Primeiro você enquadra a boneca pequena, o livro de 1995 que está online, e joga uma pequena quantidade de luz sobre ela. Isso dá apenas uma noção do que está sendo contado. Depois você encaixa a segunda boneca, joga uma quantidade de luz maior, coloca os próprios personagens para discutir o texto, e o conhecimento da história se aprofunda. Pode ser isso que fizemos na reunião de 1995 e o que estamos fazendo agora. Depois você encaixa a terceira boneca, aumenta a luz, o foco, e a história se completa, se desvenda. Sobram ainda bonecas caso a história não tenha sido contada por inteira.”

As três se manifestaram dizendo que nunca haviam ouvido falar dessa história. E não podiam ter ouvido mesmo, eu havia acabado de inventá-la. Comecei a achar que eu estava pirando também, como a Marcela. Diante de todas as perguntas e respostas apenas uma coisa era certa: apesar de Thomas estar desaparecido há mais de dez anos, todos nós acreditávamos, ou queríamos acreditar, que o desaparecimento fazia parte da ficção.

 

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