QUASE IMAGEM

“O público e os empresários adoraram o evento, Roberta, eu senti.”

“O seu problema é que você delira o tempo todo.”

“E você?” pergunta Thomas ansiosamente, apesar de já imaginar a opinião dela. “Gostou?”

“Uma merda.”

“Você não concorda, pelo menos, que eu sou sensível o bastante para criar aquela dimensão do sonho que as pessoas gostariam de enxergar se pudéssemos visualizar a história do mundo? E que até faço isso com certa técnica e precisão, como se fosse um pintor clássico?”

“Você cria como se fosse um pintor, um fotógrafo, e não um produtor de multimídia. Você está sempre no passado. É como se usasse tintas a óleo e uma tela, ao invés de canhões de luz e um espaço virtual. Você é antigo, Thomas.”

“O que importa é o resultado final. Você é muito exigente, muito analítica, muito comprometida com a tecnologia, e isso pode afastar você da essência dos elementos que compõe um grande evento. Um simples erro de lógica em seu raciocínio tecnológico, e pode privar-se de um encontro que pode ser essencial. Não estou agora me referindo ao show, especificamente, mas em relação ao mundo, à sua vida, a tudo.”

“Eu estou manifestando a minha opinião como uma observadora comum, como uma espectadora, não como uma potencial patrocinadora do seu projeto.”

“Não é verdade, você nunca fala sobre o que faço como uma observadora comum.”

“Está bem. Não gostaria de estragar esta noite, no fundo você sabe que eu odeio e adoro tudo o que você faz, apenas temos pontos de vistas diferentes sobre algumas coisas.”

A partir desse momento Roberta começa a relaxar, sorrir, seu rosto se descontrai e ela começa a se mostrar diferente da mulher que ele estava acostumado a conviver. Thomas gosta da nova personagem e fica curioso para conhecer melhor a mulher que sempre esteve por trás de tanta teoria, mergulhada nos abismos mais profundos do inconsciente das pessoas e do mundo dos negócios.

Desde aquela noite inusitada, na passagem do ano de 1995, era a primeira vez que estavam juntos, a sós. E Roberta sempre fora para ele uma mulher muito enigmática, mesmo no tempo em que estava casada com Alex.

“Como está o seu relacionamento com Alex?”

“Está, apenas está. Há mais de um ano somos apenas amigos e companheiros, como você acabou de ver. Até confidentes, às vezes, mas preferimos viver separados. Ambos damos mais importância à liberdade que aos compromissos, cada um por suas razões. Ele por neurose de liberdade, e eu… acho que pelo mesmo motivo. Com isso perdemos o tesão um pelo outro. Sempre invejei um pouco você e Joana.”

“O nosso relacionamento também não foi tão simples quanto possa parecer, sempre foi preciso muita transigência de ambas as partes, durante todo o tempo. E no final acabamos nos separando.”

“Eu soube.”

“Você sempre se esconde por trás dessas suas roupas largas, desses óculos, fazendo o tipo intelectual tecnológico, mas isso dá a você um certo charme, sabia?”

“Não, não sabia. Devo encarar isso como um elogio ou como uma cantada?” diz meio irônica e vaidosa ao mesmo tempo.

“Você me deixa embaraçado com a sua objetividade.”

“Está bem, vamos relaxar um pouco. Você sabia, Thomas, que Alex e eu não transamos desde que nos separamos?”

“Na verdade nunca parei para pensar na vida sexual de vocês dois, nem o Alex é de fazer esse tipo de confidências.”

“Parece incrível, mas se você me perguntar o porquê eu não vou saber responder. Acho que é perda de tesão, simplesmente. É a primeira vez que falo sobre esse assunto com alguém.”

“E por que você quer falar sobre isso hoje?”

“Não sei. Talvez a noite, a oportunidade. Como você vê, só consigo ser objetiva como empresária. De mim mesmo, não tenho certeza de nada. Há mais de dez anos não paro para conversar sobre a minha vida, nem com uma amiga. E agora estou com vontade de falar sobre esse assunto, justo com você.”

“Eu acho ótimo, Roberta. O único risco que você corre é ter a sua vida devassada em meu livro. Mas prometo confundir a personagem, para que você não seja identificada.”

“Faça isso com relação ao livro. Mas fora dele eu ia pedir exatamente para ser identificada.”

“Como assim?”

“Eu quero que você me fotografe.”

“Fotografar”?

“Isso. Eu quero ser fotografada. Eu quero ser fotografada por você.”

“Tudo bem. Quando você quiser, fotografamos.”

“Agora.”

“Agora?”

“Sim, agora. Quero aproveitar agora que a bebida já me descontraiu um pouco.”

“Onde?”

“No meu apartamento.”

Thomas acha estranho, reluta, pensa em Alex, mas não pode nem dizer que está sem a câmera, pois Roberta sabe que ele nunca anda sem ela, está sempre na mochila. Pensa. Faz uma pausa.

“Por acaso você está com medo de ser seduzido por sua empresária?” retruca Roberta diante do silêncio.

“Para mim está bem. Eu só estou surpreso por você querer, de repente, ser fotografada por mim.”

“Eu também. Foi espontâneo. Sempre tive curiosidade de saber como você poderia me ver por trás das suas lentes, e de como eu me veria fotografada por você. É só um fetiche, um objeto de desejo.”

“Estou lembrando de umas fotos antigas que o Helmut Newton fez da Charlotte Hampling em um quarto de hotel na Côte d’Azur, em branco e preto, com a iluminação artificial disponível, e que ficaram maravilhosas. Mas acho que não é o que você está querendo.”

“Como é que você sabe? Só por que eu não sou a Charlotte Rampling e nós não estamos na Côte d’Azur?”

“Você conhece as fotos?”

“Não.”

“Então por que está me questionando?”

“Você está me enrolando, Thomas, se não quiser fazer as fotos, tudo bem.”

“Esquece. Vamos ao seu apartamento.”

 

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