PUTO, TRAÍDO E CORNEADO

 
O lugar que combinamos nos encontrar não ficava muito perto e tomamos um taxi. O bar, imortalizado por alguns pintores menos conhecidos do início do século vinte, não passa agora de um boteco que vive das glórias do passado.

Quando entramos tenho a nítida impressão de que estamos em um pub londrino, não só pela decoração do ambiente, como pelas pessoas que enxergo. A maioria está trajada à velha moda punk, dos pés aos cabelos, estes geralmente espetados e coloridos, combinando com a cor da roupa, como os personagens que desfilam de dia na King’s Road e à noite se aglomeram nos arredores da Leicester Square.

Enfim, era um ambiente com muita gente, muita fumaça e muito barulho. Um extravagante casal gay sentado logo na entrada com o seu cachorro parecia fazer as honras da casa. Alex já está lá, tomando a sua bière a la pression e escrevendo debruçado em seu velho e cansado laptop. Quem não o conhece pode até pensar que se trata de um candidato potencial ao Prêmio Nobel.

“Olá, escritor. Ou será que não se trata de um lambe-lambe multimídia? Que alegria ver você de novo. Afinal faz dois dias que não nos vemos. De onde surgiu essa figura maravilhosa?”

“Mon nom est Tristessa”, Fernanda se apresenta, carregando todo o mistério que pode na voz.

“Mon nom est Alexandrê. Plaisir”, responde meio irônico e bêbado.

“Trois bières à la pression” grito para o garçom enquanto sentamos.

“Onde é que você foi encontrar uma mulher dessas?” pergunta com a voz meio enrolada, de quem já está pelo menos umas cinco bières acima. “Have you already experienced her french pussy?” continua, grosseiramente e misturando línguas.

“Take it easy, Alex, não seja grosso. Ela está muito para baixo.”

E assim iniciamos o grande jogo da noite, jogo esse que mais tarde eu mesmo perderia completamente o controle. Faço o meu papel e digo que a encontrei perdida entre as paredes do Louvre quando estava fazendo algumas fotos. Depois a segui e a segurei quando ia saltar no Sena. O resto ficaria por conta da Fernanda.

“Está bem, vou levar você a sério. Em que língua ela se comunica? Só francês?”

“Mistura de tudo, fala até um pouco de português.”

“Je n’entend pas votre paroles”, arrisca Fernanda com muita graça.

“C’est bien, Fernanda, vamos falar em francês, inglês ou em qualquer porra de língua em que possamos nos entender”.

Alex fecha o laptop e tenta ligar-se no ambiente. O garçom surge da fumaça e deposita as bières sobre a mesa.

“What are you doing here in Paris?” Fernanda pergunta para confundir o coitado do Alex.

“Se eu soubesse o que estou fazendo aqui, ou o que qualquer pessoa está fazendo em qualquer parte do mundo, meu nome seria Deus, não Alex”, resmunga em voz baixa, olhando para o vazio, como se estivesse falando sozinho. Depois vira para Fernanda, e continua em português franco-inglês:

“I’m working, just working. Estou escrevendo sobre a decadência dos bares de Paris no fim do milênio. Un travail de merde, en résumé”.

Fernanda entra na linguagem híbrida do Alex.

“Do you know, Alexandrê, você é uma pessoa très heureuse. Você tem um travail de merde, comme vous dit, mas tem alguma coisa. Quanto a mim não tenho nada. Eu venho do futuro, de um lugar onde tudo ficou tão fácil que as pessoas passaram a não ter mais com o que se preocupar, e sem ter com o que se preocupar elas voltaram os olhos para o drama da existência, e enxergando o drama da existência passaram a andar mais perto da morte.”

A partir desse momento Fernanda começa a se integrar na carne de um novo personagem e de uma forma muito mais forte do que eu jamais poderia ter imaginado.

Apesar da surpresa, para mim naquele instante tudo ainda não passava daquelas divagações existenciais a que eu estava acostumado em Fernanda, mas já havia uma grande mudança se processando, que só mais tarde eu constataria. Sempre gostei de ouvi-la divagando pelos caminhos dramáticos da prosa filosófica, solta, e agora atravessando as molduras caducas do nosso tempo digital. Ela sempre voa alto.

Alex, também inspirado, retruca com o sonho.

“Quem não tem o trabalho para se preocupar, e também não tem o que fazer, pode se ocupar apenas do amor, e isso é muito bom, cést merveilleux”.

“Então vamos mudar um pouco o que eu disse”, continua Fernanda. “Imagine que eu venha de um lugar onde todas as guerras já terminaram e só existe a paz. A grande bomba, a esperança maior, não chegou a estourar, e sem a menor perspectiva de uma nova guerra todos estão condenados a viver. Só que nesse lugar as pessoas pararam de lutar, não por uma questão de sobrevivência – e muito menos de civilidade – mas porque já estão cansadas de tudo, porque também a guerra, para eles, já havia se tornado medonhamente chata”.

O cachorro do casal que estava perto da porta late. Sempre achei incrível a tara dos parisienses por cachorros, a ponto de os arrastarem para os bares. A conversa começa a ficar pesada e Alex também entra no clima.

“Quando chegarmos a esse tempo de onde você diz que vem, até sofrer terá se tornado um sentimento medíocre, monótono, mas aí já será o fim”.

“Foi o que eu comecei dizendo”, arremata Fernanda, agora já quase falando apenas em português. “E quando chegarmos a esse tempo as pessoas já terão perdido toda a noção dos valores, e a anarquia social terá levado o mundo à apatia e à indiferença, e ninguém mais sentirá a menor sensação de ódio, ciúme, compaixão, amor… Por isso não podemos deixar que essa sensação atinja o resto do mundo, precisamos rebentar a cabeça das pessoas, explodi-las e começar tudo de novo”.

“Porra!”, acabo eu explodindo também, envolvido por uma conversa que já está ficando pesada demais. “Vocês estão falando de um mundo em que todas as religiões já fracassaram e Deus está morto, e esse mundo é hoje, é ontem, é todo lugar. É São Paulo, Paris, Nova York, Londres… A falta de comunicação entre as pessoas já gerou o vazio, o tédio e a solidão de que vocês estão falando, mas tudo isso tem que ser encarado. Vivemos literalmente um mundo em que não há um motivo sequer para acordar pela manhã, e acordamos. Acordamos para tentar viver apenas por viver. Mas e daí? Vamos sair daqui e nos matar? Não! Vamos participar dessa festa, vamos viver essa grande festa”.

E foi assim, no meio da fumaça daquele boteco barulhento, entre os latidos do cachorro do casal e os gritos constantes de bière, que Fernanda foi deixando de ser a pessoa que eu conhecia e a provocar o início de uma explosão de arquétipos que há muito tempo eu guardava adormecidos dentro de mim. Seus olhos começaram a brilhar dentro da noite, e ela começava a pairar acima das pessoas, acima de nós, cheirando a noite, ouvindo a noite passar.

“Trois bières more”, grito para o garçom começando também a misturar as línguas. Viro para Fernanda e digo baixinho, também já meio out:

“Acho que estou te amando novamente”.

“Forget me, baby, eu sou muito complicada. O melhor que você tem a fazer, enquanto há tempo, é se livrar de mim”.

“Você me fascina ainda. Estou agora imaginando você no fim da madrugada, o sol entrando pela janela e nascendo em teu corpo, você na cama, os lençóis amarrotados, e eu por trás do retângulo, enquadrando…”.

Fernanda começa a rir sarcasticamente, exageradamente, parece liberar uma quantidade imensa de energia há muito tempo aprisionada. Talvez pelo excesso de trabalho que vinha atravessando, pensei. Mas ela continua.

“Sou trágica, mulher e fodida. Muitas dores, tentando me recuperar. By myself, como você está vendo. I’m not the rose of the Spanish Harlem. I’m myself, by myself. É muito difícil explicar isso a você, baby”.

Começo a ficar puto e nervoso com a mistura de línguas, com os “baby” da nova Fernanda, e mais puto ainda com o cachorro que não para de latir. Começo a perder o controle sobre Fernanda, se é que algum dia o tive.

Assim como não percebi se houve um instante em que realmente Fernanda deixou de ser Fernanda, ou se houve uma transformação lenta da personagem, também não percebi quando eu mesmo comecei a penetrar em uma nova dimensão.

De repente Alex me parece já estar de saco cheio e sugiro sairmos.

“A noite é sua, Thomas, faça o que você quiser. Leva a moça para o hotel, vá para a casa dela, eu já não estou em condições de decidir mais nada. Pode ir que eu vou continuar por aqui mais um pouco, escrevendo sobre este maldito boteco só porque no passado um punhado de bêbados como nós frequentou esta espelunca”.

“Minha nova Fernanda, do you want to fly over Paris with me?”

“Of course, mon cherie. Why not?”

“Tchau, Alex, te vejo amanhã, em São Paulo.”

Fernanda se despede de Alex com um beijo na boca. Fico puto, me sinto traído, corneado.

 

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