PROCISSÃO DE ANJOS E DEMÔNIOS

 
Saímos caminhando pela Rue du Faubourg Montmartre e subimos em direção ao Sacré-Coeur.

“Aonde vamos?” pergunto.

“Para o meu apartamento, mas antes vamos caminhar um pouco pela noite.”

Logo estamos diante da sagrada basílica do Sacré-Coeur: branca, iluminada, profana. Fernanda saca da bolsa um spray de tinta preta e escreve nas imaculadas paredes:

“Existe dentro das noites de Paris uma procissão de anjos e demônios que os próprios parisienses não enxergam”.

A atitude dela me assusta um pouco, afinal não se trata de pichar os muros do Cemitério da Consolação, como antigamente, mas as paredes do Sacré-Coeur.

“Paris é uma cidade fascinante e misteriosa”, diz olhando para o que acaba de escrever.

Como não me animo a participar da sua tese, ela grita, quase uivando como uma loba:

“EXISTE DENTRO DAS NOITES DE PARIS UMA PROCISSÃO DE ANJOS E DEMÔNIOS QUE OS PRÓPRIOS PARISIENSES NÃO ENXERGAM.”

“De onde surgiu essa ideia?” pergunto.

“Está escrito na porta da igreja, você não vê? Com letras luminosas.”

“Não. Eu só vejo o que você escreveu com o spray.”

“Antes do sol nascer você vai ler novamente essa frase, de uma forma um pouco diferente, em outro lugar.”

Enquanto Fernanda delira e discursa sobre os anjos e demônios de Paris, pego a câmara que trouxe no bolso do casaco e decido registrar o que vivo. Fernanda está transcendente em seu delírio, seus olhos brilham.

“Vou fotografar você. Seu rosto está profano e sublime.”

“Não adianta, Thomas, você não vai conseguir registrar a minha imagem agora, porque neste momento eu não estou neste mundo”.

Não dou qualquer importância às suas palavras, não vejo sentido algum e começo a fotografar.

“Say cheese, Fernanda, vous êtes très belle.”

“Cheese, mon amour, I love you”, diz abrindo os braços e soltando beijos. “Está começando a nevar, veja que coisa linda”, diz tentando apanhar com as mãos os flocos de neve que caem.

Me aproximo e fotografo o seu rosto fino e lindo, depois um meio corpo, com o casaco de couro preto, depois uma geral, com a basílica de fundo. Ela corre para uma das portas, sobe no degrau e abre o seu longo casaco negro forrado de pele. Por baixo está só de calcinha, com os peitos soltos, balançando. Tira a calcinha, joga para o alto e grita:

“Viva os anjos e demônios de Paris!”

Registro tudo, com muito desejo e muito amor. Depois ela corre para mim e gruda o corpo nu no meu, me envolvendo com seu casaco de couro.

“Vamos descer a escadaria”, diz, apertando-me muito forte. “Gostaria de ser comida por você agora, aqui nestas escadas, mas ainda não é chegada a hora.”

Já são quase duas horas quando descemos a Rue du Faubourg Montmartre. Estranhamente tem muita gente na rua, muitos carros, como se algo estivesse acontecendo ou na iminência de acontecer.

Um cego passa por nós, tateando a calçada com a bengala e falando sozinho. Quando vai atravessar a rua um carro breca em cima dele, bem em frente a um teatro. O cego põe-se a gritar, o trânsito para, os carros começam a buzinar e a confusão é muito grande.

Logo depois do acidente com o cego começa a passar um enterro, agora já no Boulevard Montmartre, em direção à L’Opéra.

“Enterro à noite?” pergunto com espanto. “Você não acha estranho?”

Fernanda observa as pessoas e os seus olhos brilham, mas sem espanto algum, como se tudo aquilo lhe fosse muito íntimo, como se fosse uma cena normal nas noites de Paris.

“Veja as paredes”, diz, procurando me integrar no ambiente.

Na parede dos prédios é projetado, vindo não se sabe de onde, aquele filme da morte de Kennedy. O carro aberto, os tiros, um close da Jacqueline angustiada, tentando segurar os miolos do presidente. O filme acompanha o enterro, e o caixão é acompanhado por uma imensa multidão – toda a cidade de Paris parece estar nas ruas – que caminha chorando, com velas nas mãos. As pessoas vestem máscaras de pessoas famosas, vivas ou mortas. Acompanham o enterro Churchil, Gandhi, a Princesa Diana, Reagan, Getúlio Vargas, Lennon…

“Que significado terá isto para os parisienses?” pergunto sem nenhuma esperança de explicação.

Fernanda contempla tudo maravilhada, encantada, como se esse ritual todo já estivesse previsto nessa noite. Os filmes, agora projetados nas paredes do Museu Grévin são sobre fuzilamentos de guerra, provavelmente Vietnã e Camboja. Depois acidentes de trânsito, em várias partes do mundo.

Enquanto observamos a multidão e os filmes, parados em frente ao museu, aproxima-se um garotão de cabelo espetado, terno da década de 50, muito punk. Ele estende a mão para Fernanda, gargalhando sarcasticamente.

“Me dá…” diz com a mão direita estendida para ela, rindo muito, sem conseguir terminar a frase.

Não consegui entender se estava pedindo esmola, comida, maconha ou qualquer outro gênero de primeira necessidade para os punks. Fernanda também ri muito, gargalha com muito entusiasmo, e o punk se afasta com as mãos vazias.

“Por que você riu, Fernanda?” pergunto.

“Eu era aquela gargalhada”.

“Era? E o que você é agora?”

“Eu sou a morta, por quem toda essa multidão chora.”

 

Apenas algumas coisas aconteceram Imagens quase vivas Plano de Viagem Home