Foi mais ou menos quando comecei a escrever os Nove Poemas de Justificação que conheci Paula, uma mulher enigmática, misteriosa, dizendo sempre coisas maravilhosas. Num daqueles sábados loucos cheguei uma noite a ela e me apresentei.

“É noite, continua escuro, e eu continuo gritando, como você. Estourou a veia de um anjo sobre a minha cabeça e eu estou todo molhado de morte.”

Ela também se apresentou, mais completa do que eu.

“Os olhos do mundo amadurecem pelas lágrimas, mas elas vêm sempre cedo demais. Três rosas brotaram nesta noite o desencontro dos sonhos, três rosas abriram em pétalas o tempo e a eternidade. Queremos sempre as coisas infinitas, que não podemos agarrar com as nossas mãos de terra.”

Feitas as apresentações de praxe, a partir daquela noite nos tornamos cúmplices de uma realidade que nos incomodava, e naquele primeiro encontro, muito terra a terra, fui logo contando a ela sobre o fim dolorido da paixão por Fernanda, da morte do amor, do cheiro de morte misturado com o cheiro de chuva que havia em minhas madrugadas, e ela ficou um pouco chocada com a minha angústia.

“Não concordo com a sua idéia do amor que morreu. O amor não morre, transforma-se. Você se despojou de sua roupa de terra e deu mais um passo no caminho do arco-íris da ausência das coisas. Enquanto caminharmos em busca de sóis insatisfeitos, seremos vida. É preciso fazer de cada dia uma peregrinação ao impossível caminho.”

Paula tinha sempre palavras bonitas e cheias de esperança para rebater as minhas tristezas, pois não se deixava envolver nunca pelas loucuras do dia-a-dia, conseguia sempre separar as coisas da sua essência, e a realidade exterior, os acontecimentos, jamais a atingiam.

Quando falei a ela do meu desejo telúrico por Majou, uma garota incrível que havia conhecido na Aliança Francesa, das nossas mãos de terra sempre tentando apalpar o infinito, e dos nossos corpos sempre cobertos de folhas no verão, ela entendeu a minha loucura e explicou:

“O seu telurismo por Majou faz brotar em mim o prazer pelas coisas que nos falam mais de perto. Se ela for como você me descreve, com certeza entenderá a sua paixão. E a missa da madrugada encerra a compreensão perfeita. Ela não é insensível, apenas espera o grande crepúsculo que a libertará do que é terra.”

Essa é Paula. Em janeiro do ano seguinte começou a viajar. Daí em diante nos vimos muito pouco, mas nossas almas continuaram se falando, mesmo separadas pelas maiores distâncias. Do Rio de Janeiro ela me escreveu, logo depois do carnaval.

“O teu silêncio no carnaval acordou em meu eu selvagem uma fome de infinito, e vim para o Rio, onde a cidade não é cinza e não chora lágrimas de garoa. Sabe, a sua Tristessa me fez pensar, pensar muito, e eu cheguei a descobrir que ela existe. Foi ontem. De tarde. Começou com o sobressalto de um encontro com quem foi, e continua a ser, o amor impossível da minha vida.”

A Tristessa a que ela se referia era a personagem principal e nome de uma peça de teatro que eu havia escrito e deixado em seu apartamento, em Santos. Ela havia se identificado com o personagem, e pela primeira vez falava de um amor palpável, físico, essência e corpo, em sua vida.

“A agitação de constatar que a morte se prolonga em eternidades, e que o que se quer não muda nunca ! Ah ! A sua Tristessa se tornou presente, Thomas, porque nós arruinamos a nossa própria liberdade. Esta última idéia anda me torturando, e de tal modo, que a passei para o latim. Nostram ipsorum libertatem subrevimus (Alo, Claudia, where are you ? E-mail me from where you are.). É um resmungo constante que ninguém entende, mas que ficou bonitinha. Tenho escrito pilhas de folhas com este tema. É fascinante a luta contra nós mesmos.”

A próxima carta de Paula veio de Paris, escrita com as letras meio tortas.

“Desculpe-me a horrível letra, mas já estou deitada”, explicou. Falava da sua partida, da distância, e novamente de Tristessa, mas achei-a um pouco confusa, diferente, distante dela mesma.

“Acho que esta será a única carta carta que lhe escreverei.”

Estava um pouco balançada com Paris. Mas mesmo recém chegada, no fim da carta percebi que já estava lá, inteira.

“Vontade imensa de viver, balançou-se o meu destino. Vou comprar uma estrela e brincar de anjo. Penetrar todos os silêncios, todos os silêncios de ferro. Eu gosto das coisas impossíveis, você também – acho que a nossa revolta é porque os outros não acreditam que a vida é uma aventura impossível. Deliciosamente impossível. E como é bom renovar-se a cada manhã. Uma tranquilidade de neve muito branca cai agora sobre tudo. Desde que chegamos o silêncio da cor é absoluto. E parece esquisito. Esquisito que a vida continue a mesma agitação, ou melhor, deslize. Nem o gelo dependurado no teto transformou os homens. E a nossa necessidade é mesmo de transformações.”

A poesia das cartas de Paula eram muito fortes. Desde que chegamos o silêncio da cor é absoluto. Isso é muito bonito. Mas as suas cartas eram sempre assim, obstinadas pela transformação das pessoas, e as minhas sempre amargas, falando repetidamente das minhas angústias e dos amores fracassados.

“As coisas em mim caminham agora para isto, Paula, para um despojamento a cada amanhecer, para um desespero cotidiano de tentar renovar coisas que não podem ser renovadas, para uma sensação de malogro a cada fim de noite, por isso eu gostaria de comprar uma estrela, como você, e brincar de anjo. Mas não dá. As minhas estrelas são de terra e os meus anjos são de carne. Estou apaixonado novamente. Agora por uma mulher que eu imaginava para a minha Tristessa. Cabelos negros, escorridos sobre os ombros, olhos claros, rosto fino, docemente magra. As mulheres magras me fascinam, possuem uma dimensão mágica que poucos enxergam.”

Nessa mesma carta contei-lhe também sobre o fim quase trágico dessa relação, o começo do amor por um outro anjo, loiro, os poemas para as duas, os embalos dos sábados à noite, a porrada de carro numa corrida louca, o meu último dos Nove Poemas de Justificação, que chamei de A Entrega – enfim, a angústia de sempre – e terminei citando Sartre:

“Enfim, viver é isso, beber-se a si próprio, sem sede”.

Na carta seguinte ela já vinha inteira desde o início. Paris já se tornara para ela uma cidade comum, como qualquer outra cidade do mundo.

“Fiquei a imaginar você, com todas as musas na cabeça, discutindo com o delegado. Gostei de na Entrega você colocar os óculos escuros e ver a manhã verde – o verde é o desabrochar em potencial, é o abrir-se para a vida e viver. A vida é feita para ser vivida, em todas as direções, em todas as circunstâncias, para ser respirada, como o ar, porque sentido, não tem. Você diz algo que me lembra tudo isso na sua Tristessa, de viver, simplesmente. Sem preocupações. Aceitar. Aceitar tudo. Ah! Mas aceitar verdadeiramente as coisas e as pessoas é dificílimo. Thomas, não se esqueça nunca que depois de cada busca fracassada nós devemos nos erguer mais fortes. O que acontece com você, comigo, e algumas outras pessoas, é que nós não aprendemos a amar com medida, nos damos inteiros, sem restrições nós dividimos o nosso inútil e precário ser. Sabe, a gente devia entrar nesse jogo deixando o coração em casa. É horrível para nós, que somos muito sensíveis. E depois, eu acho que o amor é um amontoado de nadas.”

Na verdade Paula não vinha agora apenas inteira, mas inteira e amarga, quase mais amarga do que eu.

“Para começar não concordo que o amor seja um amontoado de nadas. Acho que o frio de Paris está endurecendo os seus sentimentos. Mas tudo bem, faz parte do jogo, e não conseguimos mesmo entrar nele deixando o coração em casa. Aqui em Santos o inverno, como todas as coisas que possuem um fim, terminou, e a primavera principia angustiada. As minhas mãos ardem na tentativa louca de reter as coisas que passam pela noite, mas elas são muito pequenas para isso, você sabe. E parece que a cada madrugada os sentimentos vão se tornando mais efêmeros. As sensações mais sólidas e duráveis vão desaparecendo e cedendo lugar às paixões fluidas e breves. Na verdade isso não chega a me fazer sofrer, porque até sofrer já está ficando um pouco monótono e sem graça, mas me tira um pouco a vontade de viver. E por isso só o que resta é o cansaço, o cansaço e a incomunicabilidade entre as pessoas.”

“É, as pessoas são mistérios, caixinhas de segredos. Descobri-las custa muito, muitas lágrimas. Choramos por não conhecer os outros profundamente. E em geral, quando cai o véu que nos cerca, vem uma desilusão tão grande, que choramos por ter conhecido o abismo. Crie o seu mundo, a sua confiança, a sua dimensão de enxergar.”

“Hoje é quinta-feira, Paula, na segunda tentei escrever mas não deu. Não estava refeito ainda das loucuras do fim de semana, dos motores roncando novamente loucos pela avenida da praia, e depois da eterna e inútil procura do rosto da mulher amada, perdido entre os outros rostos, na confusão do Clube dos Ingleses. Começo a observar mudanças em nosso tempo. Desde que comecei a escrever, há uns seis anos atrás, fui abrindo e atravessando todas as portas que encontrava no caminho, só que à medida que eu as transpunha elas iam se fechando às minhas costas. Cheguei a um ponto agora em que todas as portas que ficaram para trás não se abrirão mais, e as que estão para a frente já estão todas abertas. Sinto que o tempo agora é de portas abertas, de coisas fáceis, sem mistério. O grande mistério não me foi revelado, mas também deixou de ter importância, como por encanto. É um tempo sem Deus, sem mitos, sem heróis. Que loucura ! Acho que estou ficando louco. Se não estou, pelo menos vou fazer de tudo para acreditar que estou.”

“Já que você falou em loucura, achei genial se convencer que está ficando louco – é a única via para se conhecer o segredo das coisas, sentir pulsar o fabuloso mundo que os lúcidos não conhecem. Acho que falei a você, chamo isso de o meu eu selvagem.”

Na medida em que registro algumas coisas e omito tantas outras, me sinto castrador com Paula, selecionando momentos ou trechos de cartas, como se tivesse competência para selecionar as coisas mais bonitas ou mais importantes, entre as milhares que ela escreveu e disse.

Mexendo agora nas cartas encontrei um cartão de boas festas dela, desejando-me um natal muito colorido, com muita poesia e um grande abraço, de anjos e de doidos. É isso aí mesmo, um grande abraço de anjos e de doidos, e anjos e doidos não tem que pedir perdão.

“Eu não posso ser delimitada. A minha geografia é de mil caminhos. E ainda assim eu sei que todos os caminhos sairão de mim. Estive me procurando na dimensão da minha própria loucura. E continuo triste.”

Está escuro. A noite bate as suas asas molhadas. Desistir ? Não. Continuarei gritando, até morrer.

Digo agora as mesmas coisas que ouvi do menino que encontrei pedindo esmolas de skate, mas é assim me despeço aqui de Paula, da mesma forma como nos encontramos, na noite de nós mesmos, gritando no escuro.

Um grande abraço, Paula, de anjos e de doidos, e até o nosso encontro em Paris.

 

Foi mais ou menos quando comecei a escrever os Nove Poemas de Justificação que conheci Paula, uma mulher enigmática, misteriosa, dizendo sempre aquelas coisas maravilhosas. Num daqueles sábados loucos cheguei uma noite a ela e me apresentei.

“É noite, continua escuro, e eu continuo gritando, como você. Estourou a veia de um anjo sobre a minha cabeça e eu estou todo molhado de morte.”

Ela também se apresentou, mais completa do que eu.

“Os olhos do mundo amadurecem pelas lágrimas, mas elas vêm sempre cedo demais. Três rosas brotaram nesta noite o desencontro dos sonhos, três rosas abriram em pétalas o tempo e a eternidade. Queremos sempre as coisas infinitas, que não podemos agarrar com as nossas mãos de terra.”

Feitas as apresentações de praxe, a partir daquela noite nos tornamos cúmplices de uma realidade que nos incomodava, e naquele primeiro encontro, muito terra a terra, fui logo contando a ela sobre o fim dolorido da paixão por Fernanda, da morte do amor, do cheiro de morte misturado com o cheiro de chuva que havia em minhas madrugadas, e ela ficou um pouco chocada com a minha angústia.

“Não concordo com a sua idéia do amor que morreu. O amor não morre, transforma-se. Você se despojou de sua roupa de terra e deu mais um passo no caminho do arco-íris da ausência das coisas. Enquanto caminharmos em busca de sóis insatisfeitos, seremos vida. É preciso fazer de cada dia uma peregrinação ao impossível caminho.”

Paula tinha sempre palavras bonitas e cheias de esperança para rebater as minhas tristezas, pois não se deixava envolver nunca pelas loucuras do dia-a-dia, conseguia sempre separar as coisas da sua essência, e a realidade exterior, os acontecimentos, jamais a atingiam.

Quando falei a ela do meu desejo telúrico por Majou, uma garota incrível que havia conhecido na Aliança Francesa, das nossas mãos de terra sempre tentando apalpar o infinito, e dos nossos corpos sempre cobertos de folhas no verão, ela entendeu a minha loucura e explicou:

“O seu telurismo por Majou faz brotar em mim o prazer pelas coisas que nos falam mais de perto. Se ela for como você me descreve, com certeza entenderá a sua paixão. E a missa da madrugada encerra a compreensão perfeita. Ela não é insensível, apenas espera o grande crepúsculo que a libertará do que é terra.”

Essa é Paula. Em janeiro do ano seguinte começou a viajar. Daí em diante nos vimos muito pouco, mas nossas almas continuaram se falando, mesmo separadas pelas maiores distâncias. Do Rio de Janeiro ela me escreveu, logo depois do carnaval.

“O teu silêncio no carnaval acordou em meu eu selvagem uma fome de infinito, e vim para o Rio, onde a cidade não é cinza e não chora lágrimas de garoa. Sabe, a sua Tristessa me fez pensar, pensar muito, e eu cheguei a descobrir que ela existe. Foi ontem. De tarde. Começou com o sobressalto de um encontro com quem foi, e continua a ser, o amor impossível da minha vida.”

A Tristessa a que ela se referia era a personagem principal e nome de uma peça de teatro que eu havia escrito e deixado em seu apartamento, em Santos. Ela havia se identificado com o personagem, e pela primeira vez falava de um amor palpável, físico, essência e corpo, em sua vida.

“A agitação de constatar que a morte se prolonga em eternidades, e que o que se quer não muda nunca ! Ah ! A sua Tristessa se tornou presente, Thomas, porque nós arruinamos a nossa própria liberdade. Esta última idéia anda me torturando, e de tal modo, que a passei para o latim. Nostram ipsorum libertatem subrevimus (Alo, Claudia, where are you ? E-mail me from where you are.). É um resmungo constante que ninguém entende, mas que ficou bonitinha. Tenho escrito pilhas de folhas com este tema. É fascinante a luta contra nós mesmos.”

A próxima carta de Paula veio de Paris, escrita com as letras meio tortas.

“Desculpe-me a horrível letra, mas já estou deitada”, explicou. Falava da sua partida, da distância, e novamente de Tristessa, mas achei-a um pouco confusa, diferente, distante dela mesma.

“Acho que esta será a única carta carta que lhe escreverei.”

Estava um pouco balançada com Paris. Mas mesmo recém chegada, no fim da carta percebi que já estava lá, inteira.

“Vontade imensa de viver, balançou-se o meu destino. Vou comprar uma estrela e brincar de anjo. Penetrar todos os silêncios, todos os silêncios de ferro. Eu gosto das coisas impossíveis, você também – acho que a nossa revolta é porque os outros não acreditam que a vida é uma aventura impossível. Deliciosamente impossível. E como é bom renovar-se a cada manhã. Uma tranquilidade de neve muito branca cai agora sobre tudo. Desde que chegamos o silêncio da cor é absoluto. E parece esquisito. Esquisito que a vida continue a mesma agitação, ou melhor, deslize. Nem o gelo dependurado no teto transformou os homens. E a nossa necessidade é mesmo de transformações.”

A poesia das cartas de Paula eram muito fortes. Desde que chegamos o silêncio da cor é absoluto. Isso é muito bonito. Mas as suas cartas eram sempre assim, obstinadas pela transformação das pessoas, e as minhas sempre amargas, falando repetidamente das minhas angústias e dos amores fracassados.

“As coisas em mim caminham agora para isto, Paula, para um despojamento a cada amanhecer, para um desespero cotidiano de tentar renovar coisas que não podem ser renovadas, para uma sensação de malogro a cada fim de noite, por isso eu gostaria de comprar uma estrela, como você, e brincar de anjo. Mas não dá. As minhas estrelas são de terra e os meus anjos são de carne. Estou apaixonado novamente. Agora por uma mulher que eu imaginava para a minha Tristessa. Cabelos negros, escorridos sobre os ombros, olhos claros, rosto fino, docemente magra. As mulheres magras me fascinam, possuem uma dimensão mágica que poucos enxergam.”

Nessa mesma carta contei-lhe também sobre o fim quase trágico dessa relação, o começo do amor por um outro anjo, loiro, os poemas para as duas, os embalos dos sábados à noite, a porrada de carro numa corrida louca, o meu último dos Nove Poemas de Justificação, que chamei de A Entrega – enfim, a angústia de sempre – e terminei citando Sartre:

“Enfim, viver é isso, beber-se a si próprio, sem sede”.

Na carta seguinte ela já vinha inteira desde o início. Paris já se tornara para ela uma cidade comum, como qualquer outra cidade do mundo.

“Fiquei a imaginar você, com todas as musas na cabeça, discutindo com o delegado. Gostei de na Entrega você colocar os óculos escuros e ver a manhã verde – o verde é o desabrochar em potencial, é o abrir-se para a vida e viver. A vida é feita para ser vivida, em todas as direções, em todas as circunstâncias, para ser respirada, como o ar, porque sentido, não tem. Você diz algo que me lembra tudo isso na sua Tristessa, de viver, simplesmente. Sem preocupações. Aceitar. Aceitar tudo. Ah! Mas aceitar verdadeiramente as coisas e as pessoas é dificílimo. Thomas, não se esqueça nunca que depois de cada busca fracassada nós devemos nos erguer mais fortes. O que acontece com você, comigo, e algumas outras pessoas, é que nós não aprendemos a amar com medida, nos damos inteiros, sem restrições nós dividimos o nosso inútil e precário ser. Sabe, a gente devia entrar nesse jogo deixando o coração em casa. É horrível para nós, que somos muito sensíveis. E depois, eu acho que o amor é um amontoado de nadas.”

Na verdade Paula não vinha agora apenas inteira, mas inteira e amarga, quase mais amarga do que eu.

“Para começar não concordo que o amor seja um amontoado de nadas. Acho que o frio de Paris está endurecendo os seus sentimentos. Mas tudo bem, faz parte do jogo, e não conseguimos mesmo entrar nele deixando o coração em casa. Aqui em Santos o inverno, como todas as coisas que possuem um fim, terminou, e a primavera principia angustiada. As minhas mãos ardem na tentativa louca de reter as coisas que passam pela noite, mas elas são muito pequenas para isso, você sabe. E parece que a cada madrugada os sentimentos vão se tornando mais efêmeros. As sensações mais sólidas e duráveis vão desaparecendo e cedendo lugar às paixões fluidas e breves. Na verdade isso não chega a me fazer sofrer, porque até sofrer já está ficando um pouco monótono e sem graça, mas me tira um pouco a vontade de viver. E por isso só o que resta é o cansaço, o cansaço e a incomunicabilidade entre as pessoas.”

“É, as pessoas são mistérios, caixinhas de segredos. Descobri-las custa muito, muitas lágrimas. Choramos por não conhecer os outros profundamente. E em geral, quando cai o véu que nos cerca, vem uma desilusão tão grande, que choramos por ter conhecido o abismo. Crie o seu mundo, a sua confiança, a sua dimensão de enxergar.”

“Hoje é quinta-feira, Paula, na segunda tentei escrever mas não deu. Não estava refeito ainda das loucuras do fim de semana, dos motores roncando novamente loucos pela avenida da praia, e depois da eterna e inútil procura do rosto da mulher amada, perdido entre os outros rostos, na confusão do Clube dos Ingleses. Começo a observar mudanças em nosso tempo. Desde que comecei a escrever, há uns seis anos atrás, fui abrindo e atravessando todas as portas que encontrava no caminho, só que à medida que eu as transpunha elas iam se fechando às minhas costas. Cheguei a um ponto agora em que todas as portas que ficaram para trás não se abrirão mais, e as que estão para a frente já estão todas abertas. Sinto que o tempo agora é de portas abertas, de coisas fáceis, sem mistério. O grande mistério não me foi revelado, mas também deixou de ter importância, como por encanto. É um tempo sem Deus, sem mitos, sem heróis. Que loucura ! Acho que estou ficando louco. Se não estou, pelo menos vou fazer de tudo para acreditar que estou.”

“Já que você falou em loucura, achei genial se convencer que está ficando louco – é a única via para se conhecer o segredo das coisas, sentir pulsar o fabuloso mundo que os lúcidos não conhecem. Acho que falei a você, chamo isso de o meu eu selvagem.”

Na medida em que registro algumas coisas e omito tantas outras, me sinto castrador com Paula, selecionando momentos ou trechos de cartas, como se tivesse competência para selecionar as coisas mais bonitas ou mais importantes, entre as milhares que ela escreveu e disse.

Mexendo agora nas cartas encontrei um cartão de boas festas dela, desejando-me um natal muito colorido, com muita poesia e um grande abraço, de anjos e de doidos. É isso aí mesmo, um grande abraço de anjos e de doidos, e anjos e doidos não tem que pedir perdão.

“Eu não posso ser delimitada. A minha geografia é de mil caminhos. E ainda assim eu sei que todos os caminhos sairão de mim. Estive me procurando na dimensão da minha própria loucura. E continuo triste.”

Está escuro. A noite bate as suas asas molhadas. Desistir ? Não. Continuarei gritando, até morrer.

Digo agora as mesmas coisas que ouvi do menino que encontrei pedindo esmolas de skate, mas é assim me despeço aqui de Paula, da mesma forma como nos encontramos, na noite de nós mesmos, gritando no escuro.

Um grande abraço, Paula, de anjos e de doidos, e até o nosso encontro em Paris.