OS OLHOS DE MARCELA

 
A primeira coisa que enxerguei na classe, no primeiro dia de aula, foram os olhos e os peitos pequenos da Marcela.

Eu havia decidido reativar o francês para aproveitar melhor uma viagem que faria a Paris, e logo no primeiro dia, depois de uma rápida troca de olhares, tive certeza de que aconteceria Marcela.

Uma ligação meio complicada para a época, mas a vibração foi muito forte. E também porque Marcela tinha apenas dezessete anos, um metro e setenta e cinco, olhos azuis, cabelos loiros escorridos e a dimensão mágica das mulheres magras, com pouco peito, que sempre me fascinou.

Mais atrevida e menos comprometida com o mundo diante dos seus dezessete anos, na segunda parte da aula arranjou um lugar ao meu lado na classe. Na saída eu já sabia que atravessava uma relação difícil com um namorado confuso e ela que eu era casado e tinha dois filhos. Ficou meio assustada quando lhe contei, talvez não contasse com essa possibilidade, mas não perdeu a determinação. Chovia muito, ofereci carona e ela aceitou.

“Apesar dos meus dezessete anos, sou uma pessoa muito complicada.”

“Uma criança muito complicada”, corrigi, denunciando pela primeira vez a nossa diferença de idade.

“Pode ser, mas isso não garante que a minha cabeça seja menos confusa do que a das pessoas maduras.”

“As pessoas não ficam maduras, Marcela, apenas se transformam com o tempo. Por que você não me fala um pouco dessa sua confusão? Talvez eu possa ajudar.”

“É muita complicação em minha vida. São os problemas com meu namorado, os problemas com minha família, os cursos que começo e nunca consigo terminar, é uma total falta de identificação com tudo que faço, não consigo me concentrar em nada. Enfim, nada dá certo comigo. Não sei nem por onde começar para tentar resolver a vida. Minha mãe está querendo que eu faça análise.”

“É um caminho.”

“O que mais me confunde, por incrível que pareça, é a relação que eu tenho com o meu namorado. Não vai nada bem, estamos cansados um do outro, mas sinto que os dois anos de relacionamento sexual nos prende mais que tudo. Estamos sempre brigando e voltando, eu com saudades dele, do corpo dele, e ele preocupado em saber se eu não estou transando com outro. As nossas cabeças não são tão liberais como parecem ser as dos outros da nossa idade.”

Marcela deixava claro, logo na primeira oportunidade, que tinha um relacionamento sexual intenso com o namorado, e que isso era muito importante em sua vida. Com isso nos tornava mais íntimos, e sabia que essa era também uma forma de me excitar um pouco, apesar desse comportamento ser normal em garotas da sua idade.

“Sexo não segura ninguém, Marcela. Quando vai bem até ajuda a manter uma relação duradoura entre duas pessoas, mas não pode nunca estar acima do entendimento intelectual e afetivo, senão vira uma relação animal.”

“Pode ser, mas me fale um pouco de você.”

Fiz a ela um resumo cronológico de minha vida, desde o nascimento até aqueles dias, passando pelos amores fracassados, vida universitária e projetos adiados, terminando com a minha fase fotográfica.

“Hoje estou fazendo o que gosto: fotografando, ensinando e escrevendo. Estou dando aulas de fotografia, fazendo trabalhos como freelance e escrevendo um livro.”

“Quando estava no curso de manequim, um dos que abandonei, cheguei a fazer algumas sessões de fotos e gostei. Gostaria que você me fotografasse.”

“Eu também gostaria muito de fotografar você.”

“Podíamos combinar um fim de semana.”

“Que tal o próximo?”

“Combinado.”

“E o seu livro”?

“É uma ficção meio autobiográfica. Outro dia falamos sobre ele.”

“Você me coloca nele?”

“Coloco.”

“Promete?”

“Prometo”.

Marcela se despediu me beijando na boca, meio assustada, e saiu correndo na chuva.

“Que loucura”, pensei. As coisas andaram muito depressa para um primeiro dia com uma garota complicada de dezessete anos.

 

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