O PEDIDO DE THOMAS

 

Na primeira segunda-feira após o nosso encontro em Porto Piano o processo iniciou, e entre aquela noite de verão de 1995 e o final do ano de 1999 me entreguei totalmente ao projeto Tristessa. Comecei trabalhando nos textos que Thomas havia me entregado, recebi dele novos arquivos, elaborei uma estrutura de navegação interativa, criei homepages para cada um dos personagens, procurando trazer para Tristessa tudo que enxerguei nas pessoas e nos textos que passaram por aquela mesa da mandala.

Durante esse período Thomas esteve muito ocupado trabalhando no Projeto Vida, mas sempre nos reuníamos durante o mês para discussões de trabalho, e tudo era muito elaborado, ele se prendia a detalhes, e assim foi até que no início de outubro de 1995 o projeto Tristessa foi disponibilizado online.

Nos primeiros tempos de Web tudo era muito estranho, não só para as pessoas normais como também para os profissionais da mídia tradicional. Perdidos que estavam naquele novo mundo, qualquer publicação online interessava muito a eles, e não foi difícil Tristessa e Passage alcançarem boa repercussão entre os jornais e revistas – especializadas ou não – da época.

Como prevíamos, após a divulgação de Tristessa e Passage, Passenger tornou-se o principal foco de interesse da mídia, pois para quem acompanhava a narrativa ele era visto como o autor de uma história real que estava sendo escrita nos primeiros dias da Web no Brasil, e além disso era editor de uma revista online chamada Passage, na qual os articulistas eram os próprios personagens do livro, incluindo ele. Thomas era apenas um desses personagens, ele não era o autor da história, se bem que mais tarde, em alguns trabalhos acadêmicos, chegou a ser citado como autor.

Começou também um período em que os personagens começaram a receber e-mails, boa parte deles vindos de brasileiros no exterior, em países que já tinham a Internet disponível bem antes do Brasil, mas a maioria era de navegadores brasileiros que estavam deslumbrados, e todos sentimos que aquele momento não tinha volta, o mundo ia ter que se encaixar na Web.

O primeiro editorial das primeiras páginas que foram ao ar levava o título de “A Nova Palavra: Efêmera, Volátil e Poderosa”, e nele dizíamos que Passage pretendia ser uma revista em permanente estado de construção e desconstrução naquela cultura de fim de milênio, uma espécie de crônica fragmentada de uma nova sociedade voltada para a cultura digital.

Num primeiro momento a revista teve mais destaque do que Tristessa na mídia, pois enquanto Tristessa era apenas o anúncio de um livro online, Passage já existia em agosto de 1995, tinha seus leitores, que interagiam com os personagens articulistas. E para mim era um pouco complicado responder as perguntas que faziam, queriam saber se era o Passenger ou o Thomas o autor, se as personagens eram verdadeiras, se eram elas ou o autor que respondia os e-mails dos leitores, se as fotos que apareciam online eram das personagens verdadeiras ou não, e outras tantas.

Novas histórias começaram a brotar da interação entre os personagens e os leitores que acompanhavam Tristessa e Passage, narrativas às vezes longas que poderiam gerar outras histórias, e na medida em que a Web foi assimilada pelo mundo acadêmico começaram a surgir também dissertações e teses, de mestrado e doutorado, discorrendo às escuras sobre algo que eles não tinham uma bússola para se orientar, ou régua para medir, como não as tem até hoje, e usavam então as suas réguas antigas, como as usam até hoje.

Depois do lançamento de Tristessa e Passage o Great Balls passou a ser o ponto de encontro dos personagens, mas a frequência não era programada ou combinada, simplesmente frequentávamos o mesmo bar que um dia Roberta conceituou e uma amiga dela construiu. Éramos todos personagens do mesmo livro, mas não éramos necessariamente amigos íntimos, encontrávamo-nos apenas casualmente, de dia ou de noite, e trocávamos experiências sobre a reação dos leitores. Bebíamos e ríamos muito daquela coisa toda, pois era um mundo novo para nós também. A única ausente nesse período foi Fernanda, que morava em Paris e se desconectou completamente do convívio com os amigos personagens, mas a sua ausência era só de corpo, pois na audiência ela era a que mais recebia e-mails, e os respondia de Paris. Brincávamos que era por causa de seu bordão: bonita, fiel, carinhosa e puta.

Depois de Fernanda, o Passenger foi quem mais interagiu com a mídia e com os leitores, às vezes de uma forma tão intensa que chegou a incomodar Thomas, o terceiro personagem mais procurado. Com a mídia ele não se importava muito, não queria mesmo aparecer. A ideia central era seu personagem, autor da história, desaparecer no dia 19 de dezembro de 1999, mas criar histórias paralelas com leitores não o agradava nem um pouco, pois podiam crescer e tirar o foco de sua Tristessa.

A interatividade entre personagens e leitores era encorajada por ele, fazia parte da trama, e era tão importante no conceito do projeto que sem ela sua história não teria sentido. Mas nos primeiros meses de 1998 começou a crescer uma história paralela entre o Passenger e a autora de outra obra online, na época chamada de Baile de Máscaras. Essa interação acabou se tornando intensa e o incomodou, chegando a estremecer um pouco a nossa relação.

A pessoa que bailava na outra obra se chamava Pleasure, rebatizada depois com o codinome Vera, uma guerrilheira, e durante alguns meses houve uma interação tão forte entre nossos personagens, que começou a resultar em outra história tangenciando Tristessa e o Baile. Houve então um pedido bastante convincente de Thomas para interromper essa interação. Os argumentos que usou para me convencer na época eram pessoais, bem fundamentados, e o pedido foi atendido. O que estava contido nesses argumentos e o que fiz para atender o pedido não posso revelar, faz parte do nosso trato.

Em dezembro finalmente foi inaugurado com muito sucesso o projeto “Vida”, de Thomas, e no dia seguinte ele partiu para Veneza, ia participar de uma exposição fotográfica sua, arquitetada por Fernanda. No dia seguinte a encontrou em Paris, os dois estiveram com o Alex, que estava fazendo uma reportagem sobre os bares parisienses, e depois disso não o vimos mais.

Nem ele nem a Fernanda.

 

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