A ENTREGA DO CD

 

Durante todo o tempo em que olhamos para a capa e o prefácio do livro, o silêncio foi absoluto. Pensei mesmo em afivelar o meu cinto de segurança antes de continuar a conversa, mas não houve tempo, pois Thomas não me deu trégua.

Após dissertar por um longo tempo sobre o projeto, falou-me também de sua vida pessoal e profissional, com todo o exagero de detalhes que o ruído da música nos permitia falar e ouvir. Eu escutava e ao mesmo tempo tentava esboçar o perfil do sujeito que estava me propondo um negócio.

Uma pessoa obsessiva e apaixonada, Thomas havia passado a maior parte de sua vida tentando parir a grande obra, o grande filme, a grande peça de teatro, procurando criar qualquer coisa que tivesse pelo menos o tamanho de seu ego, mas o máximo que havia conseguido fora escrever um livro chamado “A Solidão dos Sobreviventes”, que um dia seria publicado pela editora dos pais de uma amiga, quando surgiu a ideia de publicar na internet.

Enquanto fazia esse esboço e o ouvia, houve um instante em que Fernanda nos deixou, ela já conhecia muito bem aquela história, o que tinha acontecido e o que estava por acontecer. Ele me segurou pelo braço e continuou.

“A verdade é que estou ansioso, cara. Tenho consciência de que não importa a estrada, qualquer caminho é feito sempre dos gestos repetidos de um trocar de máscaras sem fim, mas quero seguir assim mesmo, quero navegar entre esses bits e cores à procura de um formato, da palavra justa, nem que seja para encontrá-los em algum beco escuro de uma madrugada do futuro.”

Thomas não era apenas um candidato a escritor, tinha um ego tão grande que o transportava para outra dimensão, e o que às vezes era para ser uma simples frase transformava-se numa enigmática metáfora. Ele convivia com o fascínio por uma grande catarse, por um grande orgasmo coletivo em torno de uma história que ele acreditava haver existido sempre dentro dele. Para ele não bastava sonhar dormindo, ele tinha que sonhar também no mundo real e contar seus sonhos para as outras pessoas.

E também não lhe bastava apenas a vida, o sonho e a ficção, separadamente, ele queria tudo isso junto. O sonho, aquele sonhado no travesseiro, era o elemento catalisador da sua vida real. A certa altura da conversa tirou um CD do bolsoSoube mais tarde que haviam dois CDs, um com o texto completo, que apenas eu e ele teríamos conhecimento, e o outro apenas com a parte do livro que todos poderiam saber. Mas ele me entregou apenas um CD, o que não estava completo. , entregou-me e disse:

“Tudo que está aqui é verdadeiro, o que ainda não é, vai ser.”

Antes que eu pudesse reagir, surgiu Paula, a anfitriã.

“Vejo que vocês já se encontraram, não foi preciso que os apresentasse. Acho mesmo que vocês tem algo em comum, são como duas crianças mimadas. Um precisa ver o seu texto online para continuar participando do mundo e o outro está igualmente ansioso para ter um projeto na Web porque, como mitos de Baudelaire, só conseguem ser felizes onde não estão”.

Havíamos estudado os três na mesma Faculdade, e foi lá que conheci Paula, mas não cheguei a encontrar Thomas na época. Paula e eu tivemos um relacionamento amoroso muito curto, mas que deixou uma amizade forte para todos os dias que vieram depois.

Ela enveredou muito cedo pelos caminhos da busca de um significado para a vida e falar com ela sobre o estar vivo sempre foi muito gratificante para mim, e quanto a ela penso que via na minha porraloquice o seu avesso. De tempos em tempos nos encontrávamos quando ela ia visitar os pais em São Paulo e num desses encontros falei-lhe sobre o meu interesse em desenvolver projetos para a Web.

“Thomas precisa realmente de sua ajuda, Fred.”

“Ele comentou que está se dedicando em tempo integral a outro projeto.”

Ele apenas nos olhava calado, inquieto, parecia ter urgência em continuar a nossa conversa”.

“É um projeto grande e complexo, desenvolvido em ambiente de realidade virtual, que narra a trajetória do homem desde o tempo em que rabiscou os primeiros traços nas paredes das cavernas até os dias de hoje”.

Paula nos deixou e com o passar da noite e das taças de vinho, comecei a entrar nos delírios do Thomas. Aceitei ao menos conversar sobre a sua proposta do livro online, mas então começaram a surgir outras ideias malucas e pretensiosas sobre a criação de uma revista online.

“Essa revista deverá registrar os primeiros fragmentos de uma nova cultura digital que vai assolar o planeta, e vai estar sempre em permanente estado de construção e desconstrução nesses anos que nos separam do fim do milênio. Será uma espécie de crônica fragmentada dessa nova sociedade voltada para a cultura digital”.

Nessa revista os artigos apareceriam e desapareceriam, sem qualquer compromisso com tempo, frequência, assunto, periodicidade, idioma, e com o próprio espaço de leitura. Teria artigos curtos, por isso chamados de fragmentos, mas enriquecidos por links que possibilitariam àquela emergente sociedade digital uma viagem através do planeta.

Batizamos a revista com nome de Passage pelo motivo óbvio de que em alguns anos estariamos vivendo a passagem do milênio, e o pressuposto editor seria o Passenger alt+””/>. Esse era o nome que me esperava na noite e que iria me acompanhar, a partir daquele momento, por um bom trecho de meu futuro.

A noite já ia alta, com “What´s Up” nos decks, quando Marcela se aproxima. Parece que as mulheres sempre esperam a sua música para entrar.

 

 

“Oi querido, olá…?”

“Frederico. Fred, para encurtar. Ou Fred Passenger, já nem sei mais.”

Para minha surpresa ela era a namorada de Thomas. Os dois haviam se conhecido quando estudavam na Aliança Francesa, há cerca de um ano atrás, e a partir desses dias entrou para a vida dele como uma mistura de anjo e demônio, inicialmente não muito bem recebida por seus amigos.

“Olá, sou a Marcela, disse ao se apresentar, depois de beijar Thomas carinhosamente. “E já estou indo, não se preocupem. Vou deixar vocês à vontade para continuarem a conversa.”

E saiu cantando, meio anjo meio demônio, junto com o refrão da música:

“Twenty-five years and my life is still
Trying to get up that great big hill of hope
For a destination.”
>

Depois de clicar Marcela cantando, ele se estende um pouco sobre a importância dela em sua vida, após haver se separado de Joana, com a qual teve dois filhos. Essas informações ele passava a mim não porque queria me contar detalhes de sua vida, mas porque elas faziam parte de seu texto e para ele já estava implícito que o convite para colocar Tristessa na Web havia sido aceito.

Se a sua história já está toda escrita no CD porque não coloca você mesmo o texto na Web?

“Eu não entendo nada dessa nova mídia, e não vou ter o tempo que preciso para aprender sobre isso. Os capítulos estão aí, do jeito que aconteceram. Ou que eu gostaria que tivessem acontecido. Ou que ainda estão para acontecer.

“Como assim? Para acontecer o que?”

Sem responder a minha pergunta ele continuou. “Esqueça a minha sintaxe de hipertexto e sugestão de links, isso foi feito em um software de multimídia, e tenho certeza que na Web a flexibilidade é maior. Faça da forma que você quiser essa interação entre os personagens e sequência dos capítulos. Crie à vontade. Se não entender alguma coisa, interprete e reescreva à sua maneira, com exceção do final.”

“Tudo bem, estou de acordo, mas você pode me adiantar algo sobre o final?”

“No final existe uma morte e um mistério que talvez você não consiga entender, eu mesmo não estou certo quanto ao que escrevi, mas ela acontece no dia 19 de dezembro de 1999. O autor sempre acaba se envolvendo com os personagens, acessa outras dimensões, e a vida em outros planos dificulta a compreensão da própria ficção. Como não há tempo para passar a você todos os detalhes do que estou falando, não faz sentido mexer nesse fim, como ele será.”

“Será ou foi?”

“Depois de ler você vai entender o que estou falando.”

“Mas todo escritor que começa a escrever um livro já sabe o seu final, ninguém começa a escrever sem pelo menos um começo, meio e fim básico.”

“Não é o meu caso. Se eu já soubesse o final não valeria a pena nem estar aqui conversando com você, não haveria a vertigem, e eu já teria abandonado esse livro”.

Marcela puxou Thomas para dançar e eu saí atrás de uma bebida. Passou um garçom novamente com champanhe, não era o que eu esperava, a noite estava quente e uma cerveja cairia melhor, mas aceitei. Fui para o terraço, fiquei contemplando a baía e pensando em tudo que tinha me acontecido até aquele momento. O som que vinha do interior da casa, bem definido, se misturava com um som distante, desfocado, que vinha de um quiosque rodeado por palmeiras.

Um pouco preocupado com o compromisso que estava por aceitar, na primeira oportunidade recuperei o Thomas de Marcela e continuamos a conversa.

Gostei de seu suspense sobre o final, mas antes vamos dar uma olhada juntos nesses textos. A noite é longa, temos tempo, bebida e um laptop. Não posso me comprometer sem antes darmos uma olhada geral juntos.

Duas pessoas descem pela escada que liga ao deck da casa e ele as chama para me apresentá-las. Informa que é muito importante que eu conheça essas pessoas.

“Este é Alex alt=””/>, jornalista, meu amigo desde os primeiros dias, quando ainda dávamos os primeiros passos. A vida dele não combina muito com os bits de nossos dias, é um sujeito meio em processo de descontinuação, mas isso não afeta a nossa amizade”.

Alex me cumprimenta e ri como se me dissesse: “Não leve o Thomas muito a sério.”

“E esta é Roberta alt=””/>, sua ex-mulher, minha também amiga desde sempre e produtora deste trabalho que faremos juntos. Ela é dona de uma editora que ainda vai se transformar na maior formadora de comportamento do planeta.”

Ela fecha um pouco os olhos, sacode a cabeça como se estivesse debochando de Thomas, depois sorri e me cumprimenta. Entrega outro laptop a ele e os dois saem, rindo muito da situação.

A casa tinha um deck no terceiro andar de onde se podia avistar toda a baía de Porto Piano. A área da praia estava iluminada e outra música vinha dos quiosques distantes, onde as pessoas comiam, bebiam e dançavam impunemente, pouco se importando com o tal futuro digital que iria modificar de forma significativa as nossas vidas.

Acomodamos-nos no deck ao som de duas músicas diferentes, e Thomas começou a mostrar no laptop detalhes do conteúdo dos arquivos. Ele deu uma ênfase especial aos personagens, sempre dizendo os seus nomes, os quais eram os mesmos das pessoas que eu acabara de conhecer. Só então é que me dei conta de que a festa havia sido organizada por Paula apenas para que Thomas me apresentasse pessoalmente os personagens de seu livro.

Ele tinha um ego realmente enorme e seus textos não continham nada mais do que a sua própria história, isso ficou bastante claro depois de algum tempo. Todas as personagens estavam presentes naquela noite em Porto Piano, e eu as havia conhecido ligeiramente – com exceção da Joana – dentro de um clima misturado de realidade-virtualidade-ficção, com alguns toques de mistério a respeito de uma morte anunciada.

Depois de pouco mais de duas horas de conversa no deck Thomas me diz que deve ir embora, tem um compromisso pela manhã em São Paulo. “Vocês vão dormir aqui, eu tenho que pegar a estrada. Às vezes devemos respeitar a liturgia da vida, para não sermos atirados fora dela”.

Quando descíamos do deck passou-me uma última informação.

Esqueci de dizer a você que no CD não estão todos os arquivos, alguns ainda não foram escritos e outros não foram revistos. Enviarei a você na medida em que estejam prontos. E uma informação final: o que está nos textos é inspirado na minha vida, mas não é a minha vida. Até mais, Passenger.

E a festa continuou, sem ele.

 

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