O CORPÓREO E O VIRTUAL

 
O vulto de azul que vinha caminhando ao lado dos dormentes da via férrea estava agora mais perto, e começava a se delinear a figura de uma mulher elegantemente vestida, roupas esvoaçantes ao vento, e andando lentamente em nossa direção.

Joana ignora o vulto, a paisagem e decide não ceder espaço.

“A sua história está chegando ao fim e você não pode ficar com as duas, vai ter que decidir.”

“Existia um conflito entre corpos físicos e virtuais antes de eu partir…”.

“Eu estou falando de nós, Thomas, não de seus delírios virtuais”, ela interrompe.

“Eu não posso escolher, Joana, é preciso que vocês duas participem. Esta praia, você, as crianças, Marcela, aquele vulto cada vez mais próximo, tudo isto é o passado e o presente, é o cenário do meu sonho.”

“Você continua louco, a viagem não o ajudou em nada. O tempo está se esvaindo e você não vai realizar coisa alguma agora. A sua falta de identificação com o mundo físico e a sua incapacidade de criar acabaram por levar você a essa loucura terminal.”

“Thomas ama muito você, Joana”, tenta ajudar Marcela. “Por isso eu acho que você deve viver o que está acontecendo. Você o ama, ele me ama, eu amo você.”

Marcela tentava sustentar o sonho, com a visão que a sua juventude lhe permitia. Quanto a mim, estava ainda um pouco perplexo, apesar de saber que aquelas imagens eram tudo que me restava para poder concluir a minha história.

A mulher de azul que vinha caminhando pela via férrea já exercia em mim uma espécie de fascínio, e eu já amava aquelas garotas que brincavam com os peitos nus, os rapazes de peitos verdes, o mistério daquela praia. Afinal estava tudo ali: Joana, Marcela, as crianças, e a expectativa do vulto de azul, que poderia me trazer notícias do resto do pessoal.

“Pense no futuro, Thomas, apesar da proximidade do fim, pense em nosso filho que está para nascer.”

É Marcela quem responde.

“O futuro já é passado, Joana, como a linha do horizonte, que sempre existiu.”

Depois sai nua debaixo dos lençóis, chega até onde está Joana e a beija no rosto.

“Apesar de você não gostar de mim eu a amo, Joana, porque você também ama o Thomas.”

O sol fazia brilhar o corpo nu de Marcela, agora brincando com as crianças à beira-mar. O vulto de azul começava a se fazer cada vez mais presente no cenário, e cada vez mais tomava a forma de um corpo de mulher. Joana se levanta, caminha até a água e para, contemplando o horizonte.

“Acho que estou tendo uma recaída”, diz levando as mãos ao rosto. “Vocês não tem o menor senso moral. Continuam vivendo de sensações imediatas, por instinto, como os animais.”

Joana estava tendo mesmo uma recaída, mas eu não podia deixar morrer o sonho. Levanto da cama, caminho até ela e beijo-lhe os ombros, abraçando-a por trás. Abaixo as alças de sua túnica, e tento recuperá-la.

“Você está dizendo coisas antigas, de uma outra Joana, mas que formam sentido, e me dá muita vontade de te amar.”

“Na frente de Marcela e das crianças não”, disse recolocando as alças no lugar.

“Por que não?”, retruca Marcela, sem interromper a sua brincadeira com as crianças. “Você um dia foi a mulher dele, se amaram muito, e eu já disse que a amo porque você o ama, não tenho ciúmes e não me importo de ver vocês se amarem. Quanto às crianças, para elas o amor é natural.”

“Pai, quando é que você vai começar a gravar?”

“Agora, filho, justo agora.”

Abri a bolsa, peguei a câmera e acionei o filtro infravermelho, na esperança de captar imagens que de tão vivas poderiam estar invisíveis aos nossos olhos, vibrando em outra frequência do espectro luminoso.

“O pai de vocês está meio maluco”, diz aos filhos.

“Ele ama vocês, a mim, a vida”, diz Marcela. “Ele quer reter o sonho na arte e no delírio, no espaço reduzido da imagem e do tempo. Por que você não fica nua também, Joana?”

“As minhas imagens vão ser inteiras amor, e nelas todos estarão nus ou vestidos de branco, como Joana, e todos se amarão e se darão beijos.”

E assim comecei a registrar tudo: Joana nervosa, Marcela rindo, as crianças participando, pedindo para serem filmadas.

“No fim da minha história eu amo vocês duas e vocês me amam, e nós três estaremos repletos de amor pelas crianças, e faremos amor diante delas e de todo o mundo, cheios de paz por dentro de nós. As imagens serão todas brancas, puras, cheias de poesia e lirismo.”

“Você continua doido. Não sei como pudemos nos relacionar um dia, não sei como me refazer dessa loucura.”

Eu tinha que trazer Joana de volta, integrá-la outra vez no sonho, na nova paisagem, antes que o sol estivesse na vertical. Diminuo o ritmo e começo a rodeá-la lentamente, enquadrando apenas o rosto.

“Você lembra-se do nosso casamento, Joana? Foi tudo tão estranho, tão estranha aquela cerimônia, tão estranhas as pessoas que estavam na festa, a forma como elas nos olhavam e o que elas diziam. E depois da festa aquele vazio tão grande, tão sem fim, tão dentro de nós, nos levando para dentro de uma noite nova.”

“Esse casamento de que você está falando não é o nosso!”

Imagens de Joana revivendo a noite de um outro casamento. Close dos olhos. Corpo inteiro, agora nu. As crianças em um segundo plano, derrubando alegremente os castelos construídos. O vulto de azul chegando, quase saindo do estado de vulto. Marcela abraçando carinhosamente Joana, tentando ajudar.

“A noite era tão grande, tão imensa, e nós depois tão pequenos, seguindo por aquela estrada vazia, tão sós, com a festa inteira ainda tão dentro de nós…”.

Finalmente Joana começava a se integrar na paisagem, a participar e me ajudar na nossa história.

“… e depois aquela terrível sensação de morte, de vazio, de perda da liberdade.”

As imagens começavam a reviver no corpo de Joana, aos nossos olhos, os sentimentos perdidos começavam a aflorar, a ressurgir do fundo da nossa história.

“Pai, o que é antimatéria”?

“É um ser humano, filho, um mundo, girando em torno de si mesmo e em direção contrária à nossa.”

Imagens de Ricardo, Renata, da oportuna pergunta e da brilhante resposta que eu pensava ter dado.

O vulto de azul, agora mulher, definitivamente já fazia parte do nosso cenário, e ficava cada vez mais difícil registrar as imagens que se sucediam. O primeiro registro da mulher de azul foi um close do rosto, agora definido como sendo o de Fernanda, com um pouco de azul e trilhos desfocados.

 

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