NIGGER BAY

 
A manhã estava maravilhosa. O sol já havia se levantado, saído de trás das montanhas e dourava a água agitada de Nigger Bay quando atravessei a ponte e alcancei o outro lado. Conforme o prometido, de longe os avisto. Lá estão Joana, Marcela e as crianças, à beira do mar, bem perto do lugar onde morrem as ondas.

Chego perto e constato: Joana grávida, sem voltar os olhos para Marcela, tricota em sua cadeira de balanço branca. Sua roupa é uma túnica longa, de seda, completamente transparente, sem nada por baixo. Marcela me espera em uma cama de casal, nua, a menos de três metros da cadeira de Joana. Ricardo e Renata brincam de construir castelos na areia.

Pelo chão estão espalhados livros, CDs, disquetes, cartas, objetos da minha infância, que imagino serem os que eu guardava nas gavetas e armários da memória.

E desde o começo já percebo aquele vulto, muito longe ainda, mas caminhando lentamente ao lado dos dormentes da via férrea que percorre todo o trecho da praia, em nossa direção. O vulto é azul e tem a forma de um corpo de mulher.

Chego primeiro a Ricardo, e abraço-o fortemente.

“Papai, você trouxe as figurinhas do Homem-Aranha?”

“Não, filho, elas voaram para dentro do tempo.”

Renata corre em minha direção e abraçamo-nos os três.

“Onde estão as suas amigas?”, pergunto.

“Elas se foram, estão todas trabalhando nas oficinas da noite.”

Chego então a Joana, que tricota na cadeira de balanço onde amamentou Ricardo e Renata. As ondas morrem aos seus pés. Ela olha para mim sem espanto nos olhos, apenas flores. Levanta da cadeira e abraçamo-nos fortemente.

“Como vai, Joana?”

“Saudades suas, Thomas.”

“O que são essas flores em seus olhos?”

“São flores, Thomas, apenas flores. O que há de estranho nisso?”

Caminho até a cama onde Marcela me espera, deitada com um lençol de seda branca enroscado no meio das pernas. Ela levanta, se ajoelha na cama, e me beija.

“O que trouxe você de volta às origens, Thomas? Eu e Joana já o imaginávamos vibrando em outras dimensões, recriado em outros limites.”

“As coisas estão mudadas por aqui. Mudou a paisagem, o cenário não é o mesmo, mas começo a lembrar dessa cama, da cadeira de Joana, dos objetos. Você vai ter que me ajudar a reconstituir tudo isso, Marcela.”

Deixo cair na areia a mala com a câmara de vídeo e nos abraçamos. Os nossos corpos se prendem e começamos a rolar pelo branco amarrotado dos lençóis de seda. Joana continua a tricotar, sem voltar sequer os olhos para nós, como se não estivéssemos presentes. As ondas chegam verdes e brilhantes, molham os seus pés descalços. As crianças continuam a construir os seus castelos na areia.

Não havia muita gente em Nigger Bay, naquela manhã. Apenas algumas garotas, de seios nus, não muito longe do lugar onde estávamos, jogando um jogo que eu não consegui identificar. Os rapazes que estavam com as garotas iam para longe e depois voltavam com as ondas, raspando os seus peitos verdes na areia branca da baía.

Aponto a teleobjetiva para eles e através da lente descubro Paula e Roberta entre as mulheres de seios nus que jogavam o estranho jogo. Aceno para elas, grito, elas acenam, eu registro o encontro.

“Por que você não conseguiu gozar, Marcela?” pergunto quando vejo uma lágrima rolar de seus olhos.

“Não sei, acho que a presença da sua mulher e dos seus filhos me deixa inibida.” Marcela continuava uma criança mimada, chorando como uma criança de quem havia sido roubado o brinquedo predileto.

“Você continua a me trair?” Joana pergunta, indiferente, como se não estivesse interessada na própria pergunta.

“Eu amo Marcela, e sem ela este final não faz sentido. Conhecer o seu corpo jovem e fresco é conhecer a vida e a morte, e não posso viver sem ela, principalmente agora que me resta pouco tempo para esta história.”

“Faça amor comigo novamente, Thomas, me faça gozar. O tesão ainda não acabou, porque de alguma forma ele está ligado ao início do tempo, ao início do mundo, aos primeiros elementos. Um tesão inicial, cósmico, interplanetário, um tesão das partículas mais primitivas.”

E continuamos a rolar, infinita e furiosamente sobre o branco dos lençóis até gozarmos os dois, no fluir do tempo, no desmanchar das ondas aos pés de Joana, no desmoronar dos castelos de areia das crianças. Foi como se estivéssemos vivendo o orgasmo inicial das partículas na geração dos primeiros elementos, da matéria primeira, como se fôssemos novamente parir o mundo.

Uma gosma grossa e transparente, parecida com esperma, jorrou dos olhos e boca de Marcela e grudou em nossos corpos, como se estivéssemos para gerar um elemento novo, rebentar o mundo e fazer explodir uma matéria inesperada.

“Eu sabia que conseguiria gozar. Sempre houve a sua mulher e os seus filhos perto de nós e eu sempre gozei.” Marcela continuava fiel no amor, entregava-se sempre ao máximo, mas queria também receber, amar muito, gozar sempre.

“Pai, em que língua são feitos os sorvetes?” pergunta Ricardo caminhando em câmara lenta na direção da cama.

“Na língua das crianças”, respondo.

A pergunta de Ricardo havia sido clara e objetiva, e para meu espanto, a minha resposta brotou com uma clareza maior ainda, com uma objetividade que eu jamais havia alcançado antes.

“Quem nasceu primeiro, pai, a areia ou o homem”?

“As mãos do tempo, minha filha.”

A cada pergunta e a cada resposta eu sentia estar entendendo cada vez mais aquilo tudo, mas não conseguia ainda alcançar o começo. Chego até a cadeira de balanço de Joana, beijo-a nos olhos e tento conversar.

“Você existe, Joana, é palpável, e eu lembro o seu corpo, o seu perfume, o seu amor. Quero que você me mostre o caminho. Tenho certeza de você me encontrando em nossa casa e nela você branca, pura, coberta de flores, sorrindo.”

“Não adianta remexer o fundo do tempo. Nós só estamos de passagem por aqui. Agora temos é que viver o pouco de vida que nos resta, já que não precisamos mais vestir as nossas roupagens de estrelas e subir em elevadores.”

As palavras de Joana me faziam sentir como se estivesse realmente chegando de um sonho, ou como se tivesse sido acordado no meio da noite, arrancado da cama por mãos desconhecidas e arremessado contra outras dimensões. Só não sabia ainda se estava entrando em um sonho ou saindo dele.

 

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