NÉVOA E SONHO

 
A névoa cobria toda a faixa de areia e formava um arco mais denso no lado do oceano, como um arco-íris sem cor em um cenário surreal, indefinido, quase opaco. Olhando para cima, parecíamos todos cobertos por um imenso branco descido do céu, e as luzes das torres de iluminação eram apenas pontos luminosos desfocados por trás do imenso véu.

Alex e Fernanda estavam saindo para caminhar um pouco pela névoa e me juntei a eles, entre outras pessoas que também se entregavam à experiência de explorar um mundo fosco, pouco transparente. Ouvíamos apenas vozes e os vultos passavam por nós difusos e fora de foco. Alguns levavam lanternas, tinham medo de se perder, outros apenas buscavam sensações de paz e relaxamento.

Fernanda deve ter se lembrado de alguma coisa lá atrás no tempo, e aproveitou Alex para repassar o que sabia sobre os sonhos de Thomas.

“Thomas algum dia comentou com você sobre os sonhos que tinha, sobre como sonhava?”

“Sim, lógico, acompanhei todo o envolvimento dele como o mundo dos sonhos, mas nunca consegui entender muito bem. Eu quase nem sonho, e quando sonho não me lembro do que sonhei. Às vezes sei que sonhei porque acordo com aquela sensação de ter vivido uma história diferente durante a noite, mas é tudo tão difuso quanto esta névoa, é como sentir aqui as pessoas passarem por nós, as suas vozes distantes, e mais nada.”

“E como era para ele, até onde você conhece essa experiência dele na área dos sonhos?”

“No inicio ele apenas sonhava demais, e depois me contava tudo com uma riqueza de detalhes de quem tinha vivido uma história. Às vezes as coisas tinham sentido, às vezes não, mas ele sempre se lembrava de tudo, dos detalhes, mesmo quando não faziam sentido algum. Isso começou lá pela adolescência, não tenho certeza que idade tínhamos. Depois ele percebeu que tinha a capacidade de ficar consciente no sonho, de perceber que estava sonhando, conseguia refletir dentro do sonho e fazer comparações com a realidade. Depois se tornou comum para ele sair de um sonho ao acordar, depois dormir novamente e voltar ao mesmo sonho. E com o prazer por esse jogo passou depois a interagir com a cena do sonho e mais tarde passou a usar os sonhos para orientá-lo em sua vida, principalmente quando tinha que decidir sobre um ou outro caminho a seguir. Roberta também sabia disso desde o tempo em que estiveram em Praga, quando ele também lhe contava seus sonhos.”

“Eu não conhecia essa evolução toda que você acompanhou, ele me falou pouco sobre isso, mas conheci bem os resultados. Muito do que ele cria vem do surf…”.

“Como assim?”

“… do surf nas ondas do seu sono REM, como ele dizia.”

“Você entende do mecanismo do sono”?

“Muito pouco, mas quando o Thomas me contou sobre coisas surpreendentes que foram sonhadas e transformadas em projetos interessantes, conversei com um especialista – que conhece iogues tibetanos que são mestre nisso – e ele me disse que determinadas pessoas tem uma capacidade criativa muito intensa durante a fase do sono REM e com um pouco de desenvolvimento pessoal levam essa experiência para a realidade. O projeto Vida, talvez o mais complexo que ele tenha desenvolvido, foi concebido com a cabeça no travesseiro, segundo ele. O final do livro online, a chamada cena final da praia, ele me disse que também seria.”

“E você vê algum problema nisso?”, perguntei a ela.

“Nesse estágio em que estamos conversando não há problema algum, mas já li que um mestre sonhador pode mais do que isso, ele pode criar o seu próprio sonho e vivê-lo em outra camada, e sentir tudo como se estivesse realmente acontecendo, e de uma forma tão real que ele pode morrer nessa outra camada do sonho.”

“Mas morrer de verdade?”

“Não sei, estou só viajando no assunto, não tenho certezas sobre o mundo dos sonhos. Sei também que, em princípio, quando morremos em um sonho automaticamente acordamos. A morte no sonho é o acordar. Interessante, não? Será que na vida a morte também não é o acordar?”

Começa a escurecer e um grupo de jovens passa com lanternas e celulares nas mãos, fotografando-se uns aos outros, felizes, alegres, barulhentos. Ao longo do caminho passamos por outras tendas e alguns quiosques de serviço, o pessoal que frequentava a região já havia incorporado o nevoeiro em suas vidas, era parte da rotina.

“Não gosto dessa névoa. Ela é bonita, sedutora, mas me transporta ao que a vida tem de mais estranho, me remete a coisas que não conseguimos entender durante toda uma existência na terra. E o sonho é um desses mistérios.”

“Você está fazendo alguma associação ruim entre os sonhos do Thomas e o seu desaparecimento?”, insisti.

“Não sei, mas a cena da praia que Thomas escreveu, e que pode ser entendida ou associada a uma despedida, a um fim, a uma morte, é idêntica a um sonho que eu tive, assim como outras passagens em Paris que estão no livro. Eu não contei para ele esses sonhos, não costumo comentar com ninguém as minhas fantasias noturnas e elas costumam ficar sempre bem guardadas dentro de mim. E roubar sonhos só existe no cinema, não tem fundamento científico nenhum, já pesquisei sobre isso também, e é praticamente impossível que ele tenha tido um sonho igual ao meu e menos ainda que tenha criado do nada algo que eu tivesse sonhado, com toda a complexidade de detalhes.”

“Mas você não acabou de dizer que a cena da praia ele disse que foi concebida no travesseiro?”

“Sim, falei, foi o que ele me disse, mas e então? Será que sonhamos o mesmo sonho. Será que ele entrou no meu sonho?”

Pergunto a ela não costumava registrar seus sonhos mais interessantes em algum lugar, em papel, no computador, onde o Thomas pudesse ter acesso. Ela diz que sim, muita coisa registrava em seu computador, mas tinha certeza de que ele nunca havia tido acesso.

“A cena aparecia muito nos sonhos que ele me contava, e nós também já estivemos muitas vezes juntos na névoa, e quando estamos muito perto um do outro ela penetra por todos os nossos vãos e dobras amalgamando os nossos corpos e quem sabe talvez até amalgamando as nossas mentes, transferindo arquivos como fazemos nos computadores.”

Alex ri muito, mas ela continua, agora como se estivesse passando uma informação a ele.

“Olhe para o que vemos agora. Ela preenche todos os espaços, esmaece as cores, elimina os contornos, e tudo num movimento calado, suave, fulminante. E se eu passei os meus sonhos para ele, seja lá qual for o tipo de conexão, eu me sinto meio responsável também por esse labirinto que ele criou: a sequência de Paris, a cena da praia e a despedida anunciada. Você sabe melhor do que eu sobre a necessidade que o Thomas sempre teve de viver as alucinações que brotam em sua mente.”

Alex percebe que Fernanda está em um momento difícil, precisa falar, e pede licença para tocar num assunto sobre o qual não falavam desde crianças, desde a época do areal branco com a velha casa de madeira, quando brincavam os três, ele, ela e Thomas.

“Acho incrível essa sua capacidade para imaginar coisas não palpáveis, abstratas. Aquela história de havermos nos conhecido em uma vida anterior, você, Thomas e eu. De vez em quando me lembro disso e não sei o que pensar. Tem algo mais que você possa falar sobre esse assunto?”

“Isso não é algo que eu possa discorrer com afirmações e certezas. Contar histórias com detalhes dessas vidas passadas, saber o que efetivamente vivemos nessa época, é algo que só enxergo em flashs, em momentos inesperados. Geralmente quando estou muito cansada, corpo e mente, vocês aparecem, não em imagens, mas em sensações. Eu não tenho controle algum sobre isso, eu não penso, eu não chamo, a coisa vem. A única sensação com imagem que eu tenho é de que tudo tenha acontecido em Veneza, pois quando estou lá esses flashs com vocês ocorrem mais frequentemente, e quando ando pela cidade não consigo deixar de lado a sensação de já ter vivido naquele lugar.”

“Não consigo imaginar ter vivido em Veneza.”

A noite definitivamente se estabelece sobre a baía de Porto Piano. A luz do Farol do Morro dos Macacos gira loucamente como se estivesse em busca de algo, varrendo a praia desde a pequena igreja dos pescadores até o píer. As cores de suas luzes se alternam entre o branco, vermelho e verde, deixando o ambiente mais delirante.

“E você. Alex, acredita em outras vidas?”, provoco. Vê algum sentido nisso que a Fernanda acabou de falar?”

“Acredito sim em algo misterioso a que algumas pessoas têm acesso e outras não. Para mim é mais fácil acreditar nisso do que negar, mas não consigo, como a maioria das pessoas, entender como isso se manifesta, afinal esse é o maior mistério que carregamos em vida.”

“Quando reencontrei o Thomas na adolescência disse a ele coisas que talvez tenha sido a vez em que mais enxerguei isso, parecia até algo racional dentro de mim, quando disse a ele que eu vinha do outro lado para guiá-lo nesta vida.”

Quando passamos pelo píer ele já está vazio, suas luzes também já estão acesas e a bruma apenas muda para um tom mais quente. A visão é fantástica, suas luzes iluminam um caminho para o nada.

Névoa e sonho

 

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