Depois de tantas partidas e chegadas, parece que o tempo parou por um século em nossos corpos e fez com que envelhecêssemos milhares de anos.

Os últimos instantes da madrugada já se escoam pela ampulheta cansada desta noite mágica, mas de repente é como se o escuro fosse prorrogado – a madrugada se demora um pouco mais nos braços da noite para que a luz da manhã não venha nos surpreender nus, ainda na procura de palavras e partes não descobertas de nossos corpos.

Tempo ainda para algumas palavras.

“Veja como a noite é breve, Thomas, olhe no espelho. Estamos envelhecidos, o nosso tempo está se esgotando. Daqui a pouco o sol começará a derreter as camadas de gelo que se formaram nas ruas e os seus raios desmancharão as nossas sombras que ontem as luzes projetaram nas calçadas.”

Lentamente o chumbo da noite vai invadindo o algodão do dia, até que pela moldura da janela surge um sol imenso, anunciando uma nova manhã.

Nus ainda, chegamos mais perto um do outro, de joelhos, e nos abraçamos. Duas lágrimas rolam dos nossos olhos de madrugada e se amam na luz confusa que faz brilhar os nossos corpos, agora refletidos e fortemente iluminados no espelho-porta.

Não percebi o exato momento em que aconteceu, mas a sensação de estar penetrando outra dimensão agora se fez definitivamente presente.

“Todos nós um dia estaremos nos olhando no espelho pela última vez, mas jamais saberemos esse momento, com exceção dos suicidas”, diz Fernanda, com os olhos brilhantes.

Parece que todo o passado, todas as minhas vidas passadas estão existindo em mim neste momento. É como se me penetrassem todas as frases, pensamentos e imagens já escritas ou vividas antes.

Olho para o espelho e uma nova frase está rabiscada nele, com palavras que não representam surpresa alguma para mim.

“Há nas manhãs de Paris uma procissão de anjos e de doidos, que mesmo Thomas e Fernanda não conseguem enxergar”.

Fernanda havia me dito em frente ao Sacré-Coeur que eu leria aquela frase outra vez.

“É realmente muito difícil saber quando estamos nos olhando no espelho pela última vez, é difícil precisar o último momento, o ato de escrever a última palavra, o último gesto, a decisão de colocar na estante o livro que jamais tornaremos a ler.”

O sol começa a refletir fortemente no espelho.

“Ouça, Thomas, passos na calçada. As pessoas já acordaram para o trabalho. O nosso tempo está chegando ao fim.”

Por que chegando ao fim ?” pergunto sem muito espanto.

Mal concluo a pergunta e uma luz muito forte invade todo o ambiente, vinda da porta-espelho. O corpo de Fernanda parece também iluminado, mas de uma luz que vem de dentro dela mesma.

“Porque eu só vivo entre o crepúsculo e a aurora, depois sou massa decomposta, matéria sedimentada, resto de amor refletido nesse espelho.”

“Que conversa é essa, Fernanda, eu não estou entendendo nada. O que significa essa luz dentro do seu corpo, o que significa tudo isso ? Você está brincando comigo de realidade virtual ? Onde é que você está ? Não é hora de efeitos especiais.

O corpo nu de Fernanda fica definitivamente iluminado, quase transparente.

“Quem é você, afinal ? De onde vem ? Por onde andou estes anos todos ?

“Eu estive em Monterey, Woodstock, Altamont, Ilha de Wight, vivi aquilo tudo, mas não alcanço hoje os resultados. Algumas imagens ainda me frequentam, como a de Joe Cocker cantando “A Little Help From My Friends”, louquíssimo. Depois a morte de Jimi Hendrix e Janis Joplin, quase juntos, e mais tarde Jim Morrison, coroando a glória e inutilidade daquilo tudo.”

As palavras de Fernanda vibram em uma dimensão mágica, no plano do sonho e da fantasia e pela porta-espelho entra uma luz branca cada vez mais forte.

“Quem é você ? De onde vem essa luz ?

“Eu já me expliquei infinitas vezes, desde que nos conhecemos: sou trágica, mulher e fodida. Venho lá do outro lado. Muitas dores, muitas mágoas, agora não mais tentando me recuperar porque o meu tempo também está acabando.”

“Que outro lado ? O outro lado do Sena ? Da marginal do rio Pinheiros ? Da Avenida Ana Costa ? Da rampa do mercado ? Do areal ?”

“Finalmente você está começando a abrir a cabeça e a redescobrir as origens. E está ficando muito tarde, porque os seus já estão à sua espera, do outro lado. Você vai finalmente conhecer o outro lado. Fasten your seat belts, meu amigo, porque agora você vai iniciar uma viagem fantástica, inadiável, que todos nós temos que fazer um dia.”

Outra vez me invadem os elementos do passado: pessoas, objetos, trechos de livros, versos escritos, e como se adivinhasse tudo que está me atravessando Fernanda continua a discursar, misturando novamente português com francês.

“Baudelaire disse que o poeta goza do incomparável privilégio de ser, conforme a própria vontade, ele mesmo ou os outros. Comme ces âmes errants qui cherchent un corps, il entre, quand il veut, dans la personnage de chacun. Para o poeta tudo está aberto, disponível, et si certaines places paraissent lui être fermées, c’est qu’a ses yeux elles ne valent pas la peinne d’être visitées.”

“Diga que tudo isto é um sonho e uma brincadeira, Fernanda.”

“Fasten your seat belts, Thomas, porque agora você vai fazer uma viagem definitiva e perigosa, vai descer aos infernos do tempo e da memória. Afivela esse seu cinto de estrelas, porque você vai agora penetrar a dimensão mágica do sonho e da morte, e existe a possibilidade de que nem retorne vivo. Só vai saber se valeu a pena ou não o mergulho quando chegar ao fim da viagem. Um poeta disse que a experiência artística está tão incrivelmente perto da experiência sexual, no sofrimento e no gozo, que os dois fenômenos não são senão variações de uma mesma angústia. Talvez isso sirva de consolo a você.”

“Diga para mim que isso é uma fantasia digital, que eu estou louco, que esta manhã não é real !”

“Nada mais importa, agora. Não existe limite algum entre as dimensões da realidade e da fantasia, apenas os não iniciados é que procuram por essas fronteiras. Sai por aquela porta, atravessa aquela luz e você encontrará respostas para as perguntas que fez durante toda a vida.”

“E você ?” pergunto começando a caminhar em direção à luz.

“Você ainda me encontrará durante a viagem. Um caminho está sendo aberto na poeira do universo, mas em cada ponto dessa estrada só a você caberá a decisão de desistir ou continuar e só de você dependerá o resgate do grande areal branco e da velha casa de madeira.”

Antes de atravessar a porta olho para trás pela última vez e tudo o que vejo é Fernanda desvanecendo-se, evaporando-se num sorriso sarcástico, parecido com o da cena do punk.