MÁSCARAS

Um pouco antes das nove deixo o Closerie e parto para o estúdio-apartamento de Fernanda. Quando dou por mim estou em uma espécie de sótão, imenso, com uma bela vista para os telhados tristes e cinzentos de Paris. Boulevard Saint-Germain, perto dos Jardins du Luxembourg. Decido não contar sobre Tristessa para ela, pois isso tomaria tempo e nós deveríamos encontrar o Alex às dez horas.

Enquanto Fernanda toma um banho aproveito para observar o ambiente. Tudo tem a ver com o seu antigo apartamento em São Paulo, com a diferença de que agora o cenário não é todo branco e há muitos objetos estranhos, cuidadosamente espalhados pelas paredes e pelo chão. O living é quarto, sala de estar, de jantar, estúdio, tudo. Câmaras fotográficas, computadores, projetores de dados, tudo se espalha pelo imenso living. Em um estranho espelho, muito parecido com uma porta, inclusive com maçaneta, lê-se: “TEATRO MÁGICO. SOMENTE PARA OS RAROS. ENTRADA FRANCA”.

“Li isso no Lobo da Estepe, do Hermann Hesse, e não sei se você percebeu, mas esse espelho é a porta pela qual você passou ao entrar”, me diria mais tarde.

O espelho-porta me intriga, fico olhando para ele, através dele, e parece que enxergo um outro mundo do outro lado, mas logo me distraio com os estranhos e variados objetos pendurados nas paredes. Desde posters de Jimi Hendrix, Janis Joplin e John Lennon, impressos em espelho, tipo art-noveaux, até máscaras astecas e africanas, pedaços de máscara, trabalhadas em metal e madeira. Na parede onde está o sofá me chama a atenção o retrato de um homem vestindo uma roupa que lembra o uniforme dos monges beneditinos, com uma profunda expressão de tristeza no olhar.

Contemplo o estranho retrato quando Fernanda surge enrolada em uma toalha vermelha, com os cabelos encaracolados completamente molhados. Nas mãos, dois copos de conhaque.

“Esse é Antonin Artaud”, me explica, tirando a toalha para enxugar os cabelos. “Ele foi uma pessoa mágica, um visionário, um homem que nunca batia nas portas para entrar, fazia-as explodir.”

E nua, enxugando os cabelos com a toalha vermelha, me conta uma história estranhíssima sobre Artaud. Convidado um dia para fazer uma palestra na Sorbonne sobre o teatro e a peste, acabou por ilustrar a conferência com a própria morte pela peste, contorcendo-se, suando, babando, diante de uma plateia horrorizada, que acabou deixando a sala gritando e vomitando.

“Aquilo fazia parte de um projeto maior que as pessoas chamavam de Teatro da Crueldade. Ele era contra a objetividade no teatro. Achava que o drama não deveria se desenrolar apenas no palco, separado do público, mas no centro da plateia, tão perto das pessoas que elas pudessem assistir a cena se desenrolar dentro delas e fossem arrebatadas pelo terror e êxtase da experiência. Ele antecipou em algumas décadas o conceito de rede em que vivemos hoje. Naquela época ele já visitava a Web.”

Fernanda para de falar no exato momento em que abaixa a toalha, como se todo o projeto de Artaud merecesse apenas o tempo que ela gastou para enxugar os cabelos. Amarra a toalha na cintura e caminha para o equipamento de som com os peitos nus, balançando. Coloca um CD do U2 e senta no chão deitando a cabeça nas minhas pernas.

“Mudei muito?” pergunta correndo a mão pela minha perna, procurando dar uma conotação erótica à pergunta.

“Não, continua um tesão.”

“Então me apalpe, me acaricie”, diz virando um grande gole de conhaque e depois dividindo-o comigo, meio a meio.

Puxo Fernanda para o meio das minhas pernas e começo a acariciar-lhe os seios. A toalha se desprende e deixo rolar por seu corpo o resto de conhaque que ainda tinha na boca. Depois de algum tempo de mãos e bocas se procurando experimentamos a nossa primeira noite de amor em Paris, depois de muitos e muitos anos.

Antes que eu consiga me recuperar, ela dispara:

“Eu não trouxe você a Paris apenas para me comer, sabia?”

“Além da surpresa de Veneza, o que mais você tem para mim?”

“Você lembra dos detalhes quando fizemos as fotos da exposição de Veneza?”

“Lógico. Slides queimados, três projetores em cima do seu corpo nu, música do Stockhausen, clima neurótico, lembro-me de tudo.”

“Pois nós vamos refazê-lo agora em formato digital, versão de fim de milênio.”

“Sério? Precisamos preparar um bocado de coisa.”

“Está tudo pronto. Só que desta vez não haverá slides queimados. Usaremos dois projetores de dados, um jogando imagens estáticas e o outro um filme. As imagens detonadas pelo fogo eu já preparei antes.”

“E o filme?”

“O filme você escolhe. Tem centenas naquela estante. Afinal o que vale é o happening, o improviso” diz amarrando novamente a toalha na cintura. “Aí você tem os dois canhões, o computador, os filmes, os espelhos, a câmara, tudo. E já está tudo mais ou menos posicionado. Enquanto você se masturbava em Veneza eu trabalhei.”

Visto o jeans, percorro a estante e escolho Pulp Fiction. Parece-me o mais representativo, mais plástico, mais colorido. Dou uma olhada nas fotos selecionadas e vejo novamente todas aquelas imagens de confrontos de rua, passeatas, policiais dando porradas em estudantes, toda aquela agitação que explodiu no ano de 1968 em todos os cantos do mundo. Só que agora as imagens não são apenas do Brasil mas do mundo todo.

Coloco o filme no vídeo, aciono os projetores e coloco um cartão de memória na câmara. Desta vez não tem Ektachrome 400 ASA, emulsões com cristais de prata fazem parte apenas de um passado não muito distante. Decido que não haverá também a neurose de Stockhausen para compor o som, mas o antigo rock chic de Bryan Ferry. Coloco La Bête Noire no player e reduzo as luzes quase a zero. O ambiente fica mais ou menos como da primeira vez, dois fachos de luz cruzando o centro da sala. A violência silenciosa de Tarantino atravessa o encontro de luzes e se projeta na porta espelhada, fora de foco.

Fernanda surge mágica, como da outra vez, como se os anos não houvessem passado. Dá um longo gole no conhaque, deixa cair a toalha e vai para o centro da arena, no ponto de encontro dos feixes de luz, e as imagens começam a desfilar por seu corpo, novamente como se ela fosse uma tela humana.

“O que você quer que eu interprete para este ensaio release 2.0?”, pergunta com as mãos na cintura e contemplando o próprio corpo refletido na porta espelhada.

“O mesmo que da primeira vez. Imagine-se uma mulher solitária e esquizofrênica e faça o que quiser: chore, grite, ria, faça cara de desespero, de excitação, goze, mas seja neurótica.”

Ajoelho-me a pouco mais de um metro dela e começo a fotografar. Desta vez não existe a timidez inicial, não é preciso comandar-lhe os movimentos e expressões, ela logo se transforma em um animal selvagem, fazendo explodir todos os seus sentimentos. Passa rapidamente da histeria à ternura, da raiva ao desejo, com uma facilidade incrível. A combinação aleatória das imagens que se sucedem é fantástica. Travolta e Uma dançam, enquanto as imagens de 1968 desfilam por seu corpo, misturadas com as explosões de sangue.

As fotos agora não haviam sido verdadeiramente queimadas com fósforos, apenas digitalmente, através da aplicação de efeito no computador e o registro delas, no lugar certo do corpo, só dependia de nós – do movimento e expressão que Fernanda escolhia, com ajuda do espelho e de eu estar atento para não perder a tomada.

As bolhas formadas pelo fogo digital, às vezes minúsculas, às vezes enormes, combinadas com as fotos originais, alteravam a história de uma década a cada troca de imagem: soldados, gritos, expressões de dor, agora misturados com a liberação da década de setenta.

Refeito da maratona sexo-fotográfica e recuperada a respiração normal, lembro que havia ficado de encontrar Alex às dez e já passava das onze.

Havíamos combinado ir ao seu encontro e fazer uma brincadeira, Fernanda se disfarçaria para não ser reconhecida e passaria por outra pessoa. Eu inventaria que a teria encontrado sentada em um banco da Place du Carroussel – como a Tristessa que sumiu – sob o olhar complacente dos fantasmas do Louvre e logo depois salvo a sua vida, impedindo-a de se atirar da Ponte D´Alma. Ela se apresentaria como uma mulher muito angustiada, cheia de problemas existenciais e de origem desconhecida – uma mulher do mundo. Para concluir a trama sugiro que se apresente com o nome de Tristessa, uma vez que a original havia sumido

 

No deck, a céu aberto A ficção apenas não basta Plano de Viagem Home