MANHÃ FRESCA, ÚMIDA, RECÉM NASCIDA

 
Manhã fresca, úmida, recém-nascida. Abro a janela do quarto e contemplo a grama do jardim ainda molhada, apesar do sol explodindo nos girassóis. Parece uma das manhãs da criação, tão grande a vibração da vida nos seres mais simples do mundo vegetal.

Dois bem-te-vis cantam, confirmando a magia do começo do mundo. Acordo cedo, apesar dos uísques da véspera, e me ponho a escrever. Joana e as crianças foram para Maresias. Costumo aproveitar ao máximo esses dias em que a vida pulsa dentro da gente, fazendo-nos lembrar de que somos apenas uma célula viva dentro deste misterioso bacanal cósmico.

Escrevo durante toda a manhã sobre o meu encontro com Fernanda no metrô de Paris e paro quando estamos descendo as escadarias da Basílica de Sacré-Coeur, de madrugada, depois de uma trepada maluca diante dos imensos portões da visitada igreja.

“Existe dentro das noites de Paris uma procissão de anjos e demônios, que os próprios parisienses não enxergam”.

Essa foi a última frase registrada, gritada por Fernanda, e escrita com spray preto nas paredes brancas da sagrada Sacré-Coeur.

Às duas horas da tarde tomo um banho correndo, me arrumo, e saio sem comer. Tinha marcado com Marcela às três.

Ela havia completado dezoito há alguns dias, e tínhamos combinado novamente fazer umas fotos. Seria uma segunda tentativa. Quando saí de casa não sabia sequer se iríamos realmente fotografar – o que eu queria mesmo era estar com ela.

“Venha bem gostosinha, havia lhe recomendado na véspera.”

O pedido havia sido atendido: ela estava com um conjunto de malha branca grudado no corpo, torneando os peitos e a bunda com uma beleza renascentista atualizada para um visual pop. A parte de baixo não tinha dois palmos e mal encobria as calcinhas.

“Onde é que você sugere fazer as fotos?”

“Você é que sabe. O fotógrafo é você, querido, não eu.”

“Só temos duas alternativas: na minha casa ou em um motel.”

Mentira, jamais a levaria em minha casa. O mais racional seria sugerir o estúdio de um amigo, mas essa proposta ela poderia aceitar, e não me interessava nem um pouco dividi-la com outros naquela tarde.

“Prefiro o motel”, ela respondeu, para meu alívio. “O risco é menor apesar de um motel sugerir algo mais além de fotografia.”

Negócio fechado. Achei melhor não discutir mais, antes que ela mudasse de ideia.

“Você tem preferência por algum motel?” perguntei.

Marcela se mostrou um pouco surpresa com a pergunta e fez charme de ofendida, como se não frequentasse. Mas logo em seguida, quando lhe perguntei se conhecia algum motel na região do Morumbi, respondeu sem hesitar.

“Todos.”

“Vá ser sincera assim na puta que o pariu”, pensei em dizer, mas reconsiderei.

Eu estava raciocinando como um perfeito cretino. Trinta e sete anos, casado, dois filhos, querendo controlar uma garota de 18 anos, recém-completados. Enquanto me sentia imbecil e ciumento, ela acabou optando pelo Monet.

“Estou nervosa.”

“Relaxe. Coloque os meus óculos escuros e veja como a vida é verde.”

Ela colocou.

“Eu não me sinto à vontade nem quando entro em um motel com a Joana”, acabei dizendo para consolá-la.

Ela me contou, com detalhes, a história do dia em que o Juizado de Menores deu uma batida no motel em que ela estava com o namorado, usando a carteira de identidade de uma amiga.

“Agora você é adulta, pelo menos por esse motivo não há porque ficar nervosa.”

Só quando entramos na suíte é que Marcela percebeu que tinha se enganado de motel. Havia confundido o Motel Monet com o Motel Musset, onde tinha passado uma noite com o namorado. Confundiu a pintura com a literatura e misturou o impressionismo com o romantismo. Normal.

“Fodemo-nos com a escolha,” foi o que pensei, mas apenas no sentido amplo da palavra, conforme constataria mais tarde.

A suíte de luxo era um lixo, nem banheira de hidromassagem tinha. A única peça interessante que nos chamou a atenção foi uma enorme e luxuosa moldura de madeira com uma foto do David Hamilton, onde uma ninfeta loira, com um véu branco transparente, caminhava ao vento em uma praia das Bahamas.

Marcela pediu desculpas pelo engano, mas a besteira já estava feita, não adiantava lamentar.

Ela começou a mexer na parafernália de botões, ao lado da cama redonda. Enquanto ela experimentava todas as luzes, lembrei que não havia levado sequer um flash portátil. Fotografar sem flash com luz de motel não ia dar em nada, mas fiquei firme. Se dissesse alguma coisa, de repente ela poderia sugerir que fôssemos embora.

Ligou a TV, apareceu um filme pornográfico do canal erótico e ela desligou rapidamente. Acionou o som. Música antiga, de Júlio Iglesias. Esqueci de viver. Versão portuguesa de J’ai oublié de vivre. Nada a ver, mas foi uma espécie de toque. Apanhei a câmera, abri o diafragma ao máximo e coloquei a velocidade no automático.

“Vamos fotografar? Acenda todas as luzes.”

“O que você quer que eu faça?” perguntou levantando da cama e deixando um pouco os botões.

“O que você quiser, desde que seja perto das luzes.”

Fotografamos em todos os pontos da suíte onde havia um mínimo de luz, aproveitando a multiplicidade de luzes e espelhos, mas tudo sem a menor inspiração de ambas as partes, pois ela estava contraída como uma freira posando para a Revista Playboy e sem a menor perspectiva de relaxar.

De repente parou e ficou contemplando a ninfeta do David Hamilton, deslumbrada. Por acaso eu conhecia a foto. Fazia parte de uma série feita nas Bahamas, para uma campanha publicitária da Nina Ricci. Haviam sido publicadas na revista PHOTO sob o título: Voici les images qui m’ont empêche d’abandonner la photo. Cheguei até ela, beijei-a carinhosamente, e expliquei sobre a foto.

“Eu não levo o menor jeito para posar, não é?”, ela perguntou meio desconsolada.

“Acho que leva. Você só precisa relaxar.”

“Não consigo.”

“Eu não vou insistir hoje, porque não vai adiantar. Com essa iluminação não dá mesmo para se fazer grande coisa.”

Expliquei a ela tudo sobre o problema da iluminação, da relação entre abertura de diafragma e velocidade de obturação, disse que mesmo com a objetiva toda aberta a velocidade seria muito baixa e a foto provavelmente iria sair tremida. Aula de fotografia em motel. Ela ouviu tudo com muito interesse, tentando aprender. No fim da explicação puxei-a pela cintura e procurei beijá-la, mas ela se esquivou delicadamente. Insisti, novamente, e outra vez ela se esquivou.

“Por que está fugindo?” perguntei.

“Fugindo do quê?”

“De mim.”

“Eu não estou fugindo.”

Corpos agora estendidos na cama, vestidos. Marcela não tirou nem os sapatos. Papo sempre rápido, frases curtas, tipo torpedos. Conversa de motel tem mesmo que ser sintética, principalmente quando estamos com a mulher do próximo. Não há espaço para digressões filosóficas.

“Você gosta de mim?” ela perguntou.

“Gosto.”

“Quanto?”

“Quanto como?”

“Em percentagem de vida.”

“Trinta e três por cento.”

“Você sabe o que é percentagem de vida?”

“Não.”

“Então porque sós trinta e três por cento. É pouco.”

“Trinta e três vírgula trinta e três por cento. Um terço do amor que eu tenho pela vida é por você.”

“Pensei que fosse mais.”

Beijo nos olhos, na ponta do nariz, na boca. A boca ela entrega, sem restrições. Meto a mão por dentro do vestido e ela rola pela cama, fugindo. A boca é o limite, concluo. Beijo de língua não é traição, mas mão nos peitinhos, na bunda, nas coxas, no meio das pernas, é. Rolo pela cama, atrás dela. Beijo na boca, gostoso, de língua. Mãos nos peitinhos, por dentro da blusa, e ela rola novamente pela cama, para longe de mim.

Pressentimento confirmado. Beijo no ouvido, no pescoço, cócegas, risos, mãos nas coxas. Rola novamente pela cama e para de bruços, me provocando. Deito por cima dela e mordo-lhe levemente o cangote. Cócegas, arrepio. Ficar deitado por cima, de roupa, pode. Por cima da roupa não é traição, até que é gostoso e provocante. Meto a mão por baixo da saia de malha, mas isso não. Escorrega por baixo de mim e salta da cama, toda amassada.

“Por que, Marcela?”

“Não adianta começarmos o que não vamos poder terminar.”

“Por que não? Por que você acha que não vamos poder terminar?”

“Porque eu não vou me sentir bem depois. O meu namorado não merece isso.”

Era ridícula a situação, mas ela tinha razão. Joana também não merecia. Eu também não iria sair daquele motel com a cabeça em paz. Nesse particular Marcela tinha mais juízo do que eu, o que também não era grande vantagem. Je n’oublie de vivre. Não esqueço mesmo. Retomamos as fotos, e reclamo das poses.

“Não precisa ficar pelada, mas pelo menos abra um pouco essa blusa para dar um ar sexy, deixe aparecer um pouco o soutien.”

“Tenho vergonha”, diz abrindo dois botões.

“Deixe de se comportar como uma criança”, digo abrindo o terceiro botão. “Não precisa exagerar.”

“Dois bastam”, responde fechando o terceiro botão.

Desisto. Fazemos mais algumas fotos e dou a sessão por encerrada.

Fotografando em um motel, onde as pessoas vão para transar, e Marcela com vergonha que apareça o soutien. Só comigo mesmo. Ela contempla novamente maravilhada a foto de Hamilton feita nas Bahamas e diz que gostaria de fazer uma igual.

“Impossível, respondo.”

“Por que?”

A ninfeta da foto estava nua, apenas com um véu branco transparente por cima. Ela argumenta que usaria um biquíni por baixo. Desisto, e dançamos um pouco.

A música agora é Down to the Waterline, do Dire Straits. Mãos nas coxas, na bunda, amasso, cama novamente. Mas como antes, tudo por cima da roupa. Contato com a pele, não.

“Você é sempre tão pudica assim ?”

“Não, com meu namorado não. Com ele fico nua, estou acostumada.”

Me arrependi de haver perguntado. Novamente a filha da puta da sinceridade. Podia ao menos mentir, responder de outra forma, mas com ela tudo é diferente. Tem os seus próprios valores, ainda que confusos, e não abre mão deles, não faz o menor esforço para transigir e viver um momento diferente do que vive com o namorado.

Estamos abraçados na cama, fico pensando naquela situação toda e nos contemplando no espelho do teto. Marcela percebe a minha indiferença, vem por cima e me beija. Novamente o ritual do pode-não-pode. Pau duro contra a bocetinha protegida pode. Puxo a saia de malha para cima, e contemplo a sua bundinha no espelho do teto. Por alguns instantes pode, mais não. Suspendo novamente a saia e enfio a mão por dentro das calcinhas. Ela pula como uma gata e salta da cama. Vai se ajeitar no espelho. Chego por trás, beijo-lhe novamente o cangote e acaricio-lhe os peitinhos, por cima da blusa, sem nenhuma resistência.

Olhar lânguido no espelho, sintomas de tesão. Pego-a no colo, tipo recém-casados, e deposito o seu corpo na cama. Penso que agora vai acontecer, mas ela percebe o perigo e sugere irmos embora. Rolamos mais algumas vezes, nos amassando e nos beijando sempre dentro dos mesmos limites, e dou a luta por encerrada. Concordo em ir embora.

Último papo, ainda na cama, no mesmo estilo SMS.

“Como vai o livro?”

“Bem.”

“Ainda estou nele?”

“Está.”

“Eu gostaria de ler. Você vai escrever hoje à noite?”

“Não.”

“Por quê?”

“Não estou inspirado.”

“O nosso primeiro dia em um motel não excitou você nem um pouco?”

“Não, nem um pouco.”

“Você está me ofendendo.”

“Eu sei, foi para ofender.”

“Eu não excito você mesmo?”

“Excita.”

“Assim eu fico contente.”

“Só pelo prazer de me excitar?”

“Só.”

Um último beijo, com as línguas enroladas uma na outra, para coroar com êxtase a estranha e inacreditável tarde. Marcela se arrumou novamente diante do espelho. Suspendeu a saia e ajustou a calcinha, numa última provocação. As toalhas, escovas de dente, ficaram intactas em suas embalagens. Sugeri que levasse a escova de dente para a mãe, mas ela não achou nenhuma graça. Último comentário dela, antes de deixarmos a suíte:

“A arrumadeira vai pensar que somos porcos. Não usamos nem as toalhas.”

Sem comentários meus.

Entramos no carro com a paz de quem sai de uma igreja, depois de cumprir uma antiga promessa. Comentei com Marcela sobre a sensação de tranquilidade e ela disse estar sentindo exatamente o mesmo. Poderia encarar mais tarde o namorado, de bem com ela mesma.

Na portaria a recepcionista me entregou dois bombons, que eu dei a Marcela. Ela resmungou:

“Só dois?”

“Estamos saindo de um motel, não de uma loja da Kopenhagen”, respondi.

 

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