LITURGIA

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“O mundo digital é limitado e monótono, apesar da aparente abundância de escolhas que ele nos oferece.”

Thomas repete a frase para si mesmo diversas vezes, olha pela janela e vê que lá fora cai uma chuva muito forte.

Ao seu lado os pingos escorrem pelos batentes da janela e rebentam no chão desenhando um balé alucinante. Olha para dentro do quarto e vê a vida escorrendo pelas paredes, ensaiando um ritual maníaco em sua própria pele. Apesar de inseguro, após quase seis anos de trabalho sem conseguir sequer um enredo para a própria vida, pensa ter encontrado finalmente os personagens e o tempo para a sua fantasia.

Gostaria de ter Paula ao seu lado nessa noite, mas era impossível. Ela estava recebendo na sua Pousada em Porto Piano um grupo de amigos de diferentes países para um encontro de estudos sobre assuntos na área do esoterismo. Desde o começo da adolescência se interessou pela manifestação do sobrenatural em nossos caminhos e desde então passou a dedicar-se a uma espécie de busca incansável pelo lado oculto da vida.

Alguns dias antes eles haviam estado juntos e Thomas desabafou a ela:

“Não estou seguro quanto ao projeto do evento, Paula , não estou seguro quanto a nada. Continuo com a mesma sensação de que, apesar de acreditar em tudo que faço, não consigo acrescentar nada a nada.”

Ela olhou para o mar e profetizou:

“Nessa noite você dará um grande passo para sair da grande roda. Vai encontrar novamente a pessoa que olha por você, e com ela vai atravessar uma porta de vidroEssa porta de vidro é um assunto sobre o qual Thomas sempre se calou. Era evasivo e dizia não saber também o significado.
Um dia, quando conversávamos em um bar, deixou escapar que atravessar essa porta seria como estar entrando em outro mundo.
, e depois que atravessá-la verá que muitas das perguntas que fazemos durante toda a vida não tem sentido algum.”

“Como é que os bruxos conseguem enxergar essas coisas?”

“Eu não sei. Pergunte aos seus computadores, quem sabe eles talvez saibam.”

Uma ave-maria concreta chega pelo meio dos prédios, entrecortada pelo barulho da chuva, e um sino de igreja toca distante. Nessa mistura de sons, sombra, luz e chuva, seu equilíbrio é testado. Ele preferia um pôr-do-sol nostálgico, recortando o contorno das últimas nuvens, para este momento da sua vida. Começa então a compor o personagem para a noite que se inicia, e que mais tarde vai permitir-lhe desfilar toda a sua vaidade no vernissage de seu espetáculo. Thomas elabora o seu próprio ritual e nessa liturgia o tempo é o seu maquiador.

Os retratos e objetos de sua infância estão espalhados pelas gavetas e armários da memória. Fotografias, livros, discos, revistas, ruas, não são apenas sombras à sua volta, mas objetos que reconstituem e moldam a transformação de seu rosto. Apesar da chuva, as portas e janelas, todas abertas, deixam entrar uma luz muito branca que ilumina por igual todos os mistérios, mas não os desvenda.

É uma noite importante em sua trajetória intelectual. A grande e única obra de sua vida, se é que posso assim considerar, havia sido o livro “A Solidão dos Sobreviventes”, que não chegara a ser impresso. Como já se começava a falar intensamente sobre o livro digital ele começou a se sentir obsoleto antes mesmo de ver a sua obra distribuída e temia ficar perdido num possível buraco negro da cultura impressa.

Para continuar vivo naquela metamorfose selvagem do mundo analógico ao digital criou então um projeto visionário, compreendido por poucos e difícil de ser explicado e compreendido por pessoas normais. Seria mais ou menos algo como se pudéssemos ter um dia todas as pessoas do mundo conectadas através de um mesmo sistema operacional e a interação entre elas fluindo normalmente em todas as línguas e acessível a todos os povos e raças do planeta. Por motivos óbvios a especificação desse projeto não chegou nunca a um nível de detalhes desejável, que pudesse gerar um plano de negócios interessante para investidores, mas mesmo assim ele seguia em frente e corria atrás de dinheiro.

Como o projeto envolvia muito capital era necessário atrair investidores de todo o planeta, principalmente os empresários da área de comunicações, e aquela era a primeira noite da grande apresentação. Para isso produziu então um grande show multimídia em ambiente de realidade virtual sobre a trajetória do homem, desde o tempo em que rabiscou os primeiros traços nas paredes das cavernas até a saturação definitiva das palavras e das imagens. O show não tinha muito a ver com projeto, em termos descritivos, mas pretendia ser uma metáfora do futuro e Thomas escolheu aquele tipo de espetáculo porque a realidade virtual estava muito em moda e ele lidava muito bem com esse ambiente.

De um lado havia esse complexo projeto, que um dia ele chamou de Alma Coletiva e que exigia muito dinheiro, e de outro, algo bem menos dispendioso em que ele estava desenvolvendo de forma obsessiva e ansiosa, em paralelo ao grande projeto: a publicação de seu livro Solidão dos Sobreviventes, trazido para os dias atuais, em versão online, uma antiga pretensão de definir uma linha entre a velha e a nova ficção.

A mulher de Thomas, Joana, se encontrava em Berlim, participando de um congresso sobre a influência da teoria do caos no imaginário artístico da época. Haviam estado separados por algum tempo, por causa de Marcela, uma modelo de 17 anos. Mais tarde se reconciliaram, e agora estavam separados de novo.

Na grande noite de Thomas estaria também Fernanda, que vivia em Paris, onde mantinha um nostálgico estúdio fotográfico digital. Na semana anterior havia encerrado uma exposição sua na margem esquerda do Sena e agora vinha ao Brasil especialmente para vê-lo, atraída por um inexplicável fascínio que sempre teve por ele.

Desde que se conheceram na infância ela esteve sempre por perto nos principais momentos de sua vida, e não era para ele apenas uma antiga paixão. De certa forma os dois mantinham uma relação obsessiva e misteriosa, desde a infância, e depois consolidada na adolescência, quando se encontraram em um casarão no alto da Serra da Cantareira, em uma noite antiga, numa festa meio hollywoodiana.

Apesar da breve separação por causa de Marcela e do fascínio crônico por Fernanda, a mulher de sua vida sempre foi Joana. Ela sempre foi a sua grande companheira, principalmente quando o ajudou a se recuperar de um acidente nunca muito bem decifrado, quando ele terminou de escrever A Solidão dos Sobreviventes.

Mas de seu restabelecimento até aquela noite já havia se passado algum tempo. Agora ele estava recuperado e aparentemente integrado em um mundo que para ele sempre foi muito confuso.

Antes de sair ela checa o e-mail e lê duas mensagens, uma de Paula e outra de Marcela.

De: paula@tristessa.com.br
Para: thomas@tristessa.com.br
Assunto: Sucesso e cuidado.

Amigo Thomas,

Você não me verá, mas eu estarei circulando entre as pessoas, acredite. Tenho certeza que a sua noite será um sucesso.

Li um trecho de seu livro que me deixou preocupada. O arquivo é Paris.htm.

Não viaje. E não deixe de ver a Marcela esta noite. Ouça o que ela tem a dizer a você.

Um abraço imenso, do tamanho do universo.

Paula

“Que trecho de Paris? Que viagem?” pensou. “Paula está delirando”.

De: marcela@tristessa.com.br
Para: thomas@tristessa.com.br
Assunto: Preciso ver você.

Querido,

Tenho um desfile inadiável hoje e não vou poder estar presente à sua grande noite, mas preciso vê-lo de qualquer maneira. Quando se livrar de tudo vá à minha casa, nem que seja de madrugada. Estarei esperando. Não deixe de ir. É importante.

Beijo.

Marcela

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