LA NEBBIA DELL´ESTATE

 
Com o começo do final da tarde o vento sudoeste começou a ir embora lentamente, sem deixar estragos, e uma pequena névoa de verão começou a baixar na região. Como o vento, ela poderia tanto se tornar espessa, com visibilidade mínima, como podia desaparecer, sem atrapalhar ninguém.

Na tenda a conversa em grupo se desfez, pelo menos por um tempo. Alex e Fernanda saem para caminhar, Joana e Roberta bebem e conversam, e Marcela se junta à Paula para observar o movimento de algumas pessoas que olham sem parar para o oceano.

Um pouco distante, quase no final do lado esquerdo da praia, um grupo de pessoas, um pouco agitadas, olham para o oceano, como se procurassem por alguém, mas a névoa já começa a aumentar e fica difícil saber o que está se passando.

“Você sabe o que aconteceu?” pergunto a Paula.

“Não sei. Quando olhei pela primeira vez, antes de começar a névoa, me pareceu ser o pessoal aqui do lado, mas não faço ideia do que está acontecendo. Eles pareciam nervosos, esperando por alguém que estava no mar.”

Uma névoa mais densa logo cobre a tarde, e os vultos visíveis que passam perto da barraca caminham por um mundo flou, sem definição. Rapidamente começa a escurecer, e o cenário se transforma de real, límpido, para surreal, indefinido, com pontos de luz desfocados na paisagem.

A tarde mudou a possibilidade de um forte vento sudoeste para uma real névoa de verão. Paula pegou uma lanterna e saímos os três caminhando pela névoa em direção ao grupo que olhava para o oceano. Caminhamos lentamente rente ao mar, observando as pessoas.

Uma mulher sentada na posição de lótus meditava, e há alguns metros dela uma outra se exercitava com movimentos de tai-chi. Um homem caminhou até a beira do mar, passando entre as duas, e abriu os braços para o branco, numa espécie de saudação. Ele vestia calça e camisa branca, com as bainhas arregaçadas para não molhar a roupa. Ao seu lado um garoto empinava uma pipa usando apenas a pressão na linha para mantê-la no ar, já que não conseguia enxergá-la.

Paula tentava ser forte, se segurar, mas estava muito preocupada com tudo que havia acontecido nesse período, estava preocupada também com Marcela, cuja família estava toda no sul, e envolvida na bruma resolve desabafar.

“O que me preocupa de verdade é que ele parecia estar pressentindo alguma fatalidade com relação à sua vida, trabalhava em tudo com uma urgência fora do comum, como se existisse um tempo limite muito próximo para concluir todos os seus projetos.”

“Não entendi, Paula, você acha que ele podia estar com um pressentimento de que ia morrer logo? É isso?”

Marcela fica nervosa com a suposição de Paula, mas ela continua.

“É apenas um presságio baseado no comportamento dele naquele ano, na urgência que tinha em tudo, na garra com que se apegou a tudo, na pressa em marcar a festa para conhecer o Fred, e tudo isso brincando com uma data marcada para o personagem morrer.”

“Mas ele estava tranquilo, em paz, na noite em que viajou para Paris. Só teve aquele incidente dos arquivos desaparecidos, nada mais.”

“Sim, mas foi a última vez que você o viu, e ele estava indo para Paris para viver uma parte de sua ficção que ainda não havia sido vivida, e nessa ficção incluía a morte do personagem.”

“Nem brinca, Paula, você acha que viver a ficção incluía a morte? Nem consigo imaginar isso, ele não era louco. E além do mais ele esteve com o Alex e a Fernanda em Paris, e estava bem.”

Marcela era mais inocente do que Paula supunha, achei que ela não deveria ter iniciado aquela conversa com ela.

“Você leu o texto em que ele passa por uma porta espelhada no apartamento de Fernanda e em seguida está na cidade onde nasceu, à procura da casa onde brincava quando criança, e depois acontece aquela cena delirante da praia? Para mim ele pode ter vivido tudo aquilo em outra camada da vida, com a ajuda de Fernanda, e pode não ter retornado.”

“Como assim, viver em outra camada da vida com ajuda da Fernanda? O que você quer dizer com isso?”

Uma senhora vestida de branco com um guarda-chuva vermelho passou por nós, caminhando em direção ao mar, também para molhar os pés, como o homem de branco que fez a saudação. Ao passarmos pelo píer as luzes se acendem e a passarela parece levar ao branco, ao nada, a lugar nenhum.

“Existem coisas neste mundo que não podem ser explicadas, e isso que eu acabei de falar é uma delas. A própria Fernanda falou sobre isso na mesa da mandala, sobre viver o que aconteceu em Paris em outras camadas para tornar real a ficção, e teve uma grande discussão com a Roberta. Você não devia estar na mesa nesse momento.”

“Estou perplexa como devia estar a Roberta, não sei do que você está falando. Eu já ouvi falar de bolo em camadas, do buraco na camada de ozônio, das camadas da pele, mas da vida? O que são camadas da vida? E se isso por acaso fosse algo palpável, porque a Fernanda não se manifestou sobre esse assunto? Ela estaria mentindo quando disse que a última vez que viu o Thomas foi quando ele saiu de seu apartamento pela porta espelhada e foi para o hotel e no dia seguinte retornaria para São Paulo?”

“Não, ela não está mentindo. Isso não é coisa que ocorra em seu estado físico normal, ela não registra certas coisas na memória, enfim, não sei também como explicar a você. Como eu disse, isso não se explica. E também eu disse a você que isso poderia acontecer, não era uma afirmação, estava apenas desabafando sobre uma possibilidade.”

“Eu entendo, Paula, mas também não entendo. Se isso não ocorre no estado físico, como haveria a possibilidade dele morrer fisicamente?”

“Na boa, Marcela, esquece tudo que eu falei. Na boa mesmo. Eu gosto muito de você.”

O garoto que empinava a pipa passa por nós com o seu brinquedo debaixo do braço. Os faróis da torre da Ilha dos Macacos varriam a noite com suas luzes coloridas.

Quando chegamos ao local do acidente as pessoas ainda estão olhando para o mar. Ficamos então sabendo que um jovem surfista, namorado de uma das pessoas, não havia voltado. Eles haviam ido para o mar em um grupo de três, dois voltaram, mas um deles quis continuar a surfar em uma zona de arrebentação, causada por bancos de areia da região, e houve um acidente.

Três carros chegaram e apontaram os faróis acesos para o mar na expectativa de visualizar algo, ou principalmente orientar a volta do jovem desaparecido. Todos estavam muito preocupados e a namorada chorava desesperadamente.

Quando o céu já estava totalmente escuro um corpo apareceu diante dos faróis, com a prancha presa aos pés. O rapaz estava morto.

Ficamos todos chocados e deprimidos, solidários com aquelas pessoas na tristeza, mas deixamos o local e caminhamos de volta pela areia, porque também nós convivíamos com a possibilidade de morte de uma pessoa querida. A visão do corpo do jovem iluminado pelos faróis dos carros e a falta de visão que a bruma imprimia na praia transformou a noite em um cenário surreal, indefinido, triste.

 

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