INVADINDO O NOSSO TEMPO

 
Retornamos cansados ao apartamento de Fernanda. Durante algum tempo permanecemos apenas deitados no chão, tentando recuperar os nossos corpos ainda molhados, misturados com terra e folhas. Lá fora a neve começa a cair novamente e pela janela vemos passar os flocos brancos, iluminados pelas luzes da rua. Recomposta, ela me pede em tom visionário, profético:

“Fale-me mais da sua vida nesses anos em que ficamos sem nos ver, eu preciso saber mais, me fale o mais que você puder.”

Misturadas com os flocos de neve que caiam sem parar, as minhas palavras começam outra vez a contar as minhas vidas e as minhas mortes, as quedas e as ascensões, os erros e as descobertas. Volto a falar de Joana, Marcela, Roberta, Paula, Alex, Fred, do livro que escrevi e está na Web, de quase tudo que me aconteceu nos últimos anos e que considero importante para a minha história.

Enquanto conto essas coisas a Fernanda as minhas emoções se alternam. Às vezes sinto a sensação de estar terminando uma grande viagem, às vezes tenho a impressão de não haver sequer partido. A noite flue e reflue, sempre na direção contrária às minhas descobertas, e em um determinado instante seus olhos começam a chorar uma tristeza que eu jamais havia visto em outros olhos. Abraço o seu corpo e permaneço nela, tentando aprender um pouco a sua tristeza, o seu mistério, que parece tocar outras dimensões.

Durante mais algum tempo continuamos falando e nos contemplando curiosos, olhos nos olhos, entre tantas explicações que não levavam a lugar algum. A sensação era de que quanto mais falávamos e mais explicações procurávamos, maior era o mistério.

O calor do chaufagge, dos nossos corpos, as palavras que dizíamos, tudo me dava uma sensação cada vez maior de estar penetrando uma outra dimensão, de estar entrando em um sonho, como quem entra em um cenário sob o olhar de outras pessoas que ainda esperam você para entrar em cena.

As luzes da rua, percebo agora, fazem refletir no espelho as sombras dos flocos de neve que caem na calçada, como se fosse o tempo passando pela janela e nos avisando que depois desta madrugada talvez não haja um novo dia.

Mais uma vez os nossos corpos viajam, mas desta vez parece definitivo, é como se estivéssemos vivendo o último dia da criação. Novamente as nossas carnes se prendem e os nossos corpos loucos de um desejo sem fim se perdem um no outro.

Várias vezes de nossos corpos suados a madrugada parte e várias vezes a eles ela retorna. Aos poucos vamos deixando a escuridão da noite em direção ao dia e possuídos por um amor sem fim começamos a invadir o tempo. Os últimos instantes da madrugada já escoam pela ampulheta cansada desta noite mágica, mas de repente é como se o escuro fosse prorrogado – a madrugada se demora um pouco mais nos braços da noite para que a luz da manhã não venha nos surpreender nus, ainda na procura de palavras e partes não descobertas de nossos corpos.

Tempo ainda para algumas palavras.

“Veja como a noite é breve, Thomas, olhe no espelho, o nosso tempo está se esgotando. Daqui a pouco o sol começará a derreter as camadas de gelo que se formaram nas ruas e os seus raios desmancharão as nossas sombras que ontem as luzes projetaram nas calçadas.” E lentamente o chumbo da noite vai se transformando no algodão do dia, até que pela moldura da janela surge um sol imenso, anunciando uma nova manhã.

Nus ainda, chegamos mais perto um do outro, de joelhos, e nos abraçamos. Duas lágrimas rolam dos nossos olhos brilhantes e amam-se na luz confusa que faz brilhar os nossos corpos, agora refletidos e fortemente iluminados no espelho-porta. Não percebi o exato momento em que aconteceu, mas a sensação de estar em outra dimensão definitivamente se fez presente. Parece que todo o passado, todas as minhas vidas passadas e a presente estão passando por mim neste momento. É como se me penetrassem todas as frases, pensamentos e imagens já escritas ou vividas antes. Tento reter comigo tudo que consigo, tudo que me compõe.

Olho para o espelho e uma nova frase está rabiscada nele, com palavras que não representam surpresa alguma para mim. “Há nas manhãs de Paris uma procissão de anjos e de doidos, que mesmo Thomas e Fernanda não conseguem enxergar”. Fernanda havia me dito em frente ao Sacré-Coeur que eu leria aquela frase outra vez, de uma outra forma.

É realmente muito difícil saber quando estamos nos olhando no espelho pela última vez, é difícil precisar o último momento, o ato de escrever a última palavra, o último gesto, a decisão de colocar na estante o livro que jamais terminaremos de ler.

“Ouça, Thomas, passos na calçada. As pessoas já acordaram para o trabalho. O nosso tempo está chegando ao fim.”

“E o que vai acontecer depois desse fim?”, pergunto, sem esperança de qualquer resposta.

Mal concluo a pergunta e uma luz muito forte invade todo o ambiente, vinda da porta espelhada. O corpo de Fernanda parece também iluminado, mas de uma luz líquida e transparente que vem de dentro dela mesma.

“Eu não estou entendendo nada”. O que significa essa luz que vem de dentro do seu corpo, o que significa tudo isso? Onde é que você está?

O corpo nu de Fernanda fica definitivamente iluminado, quase transparente, sem seus órgãos internos.

“Quem é você, afinal? De onde vem? Por onde andou esses anos todos?”

“Eu estive em Monterey, Woodstock, Altamont, Ilha de Wight, vivi aquilo tudo, mas não alcanço hoje os resultados. Algumas imagens ainda me frequentam, como a de Joe Cocker cantando “A Little Help From My Friends”, louquíssimo. Depois a morte de Jimi Hendrix e Janis Joplin, quase juntos, e mais tarde Jim Morrison, coroando a glória e inutilidade daquilo tudo. Mas antes estive em Bizâncio, na idade média, em Veneza, na Renascença, e em outros tantos lugares. Mas nada disso é importante agora.”

As palavras de Fernanda vibram em uma dimensão mágica, no plano do sonho e da fantasia e pela porta espelhada entra uma luz branca cada vez mais forte.

“Quem é você? De onde vem essa luz?”

“Eu já me expliquei para você infinitas vezes desde que nos conhecemos, mas sei que é difícil para você entender. Eu sou essa luz e vim lá do outro lado apenas para ajudá-lo em seu caminho, mas acabei me apaixonando por você. Os que se perdem em sua missão, como eu, são rebaixados. Muitas dores, muitas mágoas, agora não mais tentando me recuperar porque o meu tempo também está acabando. E para você também já está ficando tarde porque os seus já estão à sua espera para se despedirem, você finalmente vai conhecer o outro lado. Fasten your seat belts, meu querido, porque agora você vai iniciar uma viagem fantástica, inadiável, que todos nós temos que fazer um dia.”

Outra vez me invadem os elementos do passado: pessoas, objetos, trechos de livros, versos escritos, e como se adivinhasse tudo que está me atravessando Fernanda continua a discursar, misturando novamente português com francês.

“Baudelaire disse que o poeta goza do incomparável privilégio de ser, conforme a própria vontade, ele mesmo ou os outros. Comme ces âmes errants qui cherchent un corps, il entre, quand il veut, dans la personnage de chacun. Para o poeta tudo está aberto, disponível, et si certaines places paraissent lui être fermées, c’est qu’a ses yeux elles ne valent pas la peinne d’être visitées.”

“Diga que tudo isto é um sonho e uma brincadeira, Fernanda.”

“Fasten your seat belts, Thomas, porque agora você vai fazer uma viagem definitiva e perigosa, vai descer aos infernos do tempo e da memória. Afivela seu cinto de estrelas, porque você vai agora penetrar a dimensão mágica do sonho e da morte, e existe a possibilidade de que nem retorne vivo. Só vai saber se valeu a pena ou não o mergulho quando chegar ao fim da viagem. Um poeta disse que a experiência artística está tão incrivelmente perto da experiência sexual, no sofrimento e no gozo, que os dois fenômenos não são senão variações de uma mesma angústia. Talvez isso sirva de consolo a você.”

“Diga para mim que isso é uma fantasia digital, que eu estou louco, que esta manhã não é real!”

“Nada mais importa, agora. Não existe mais limite algum entre as dimensões da realidade e da fantasia, da vida e da morte, apenas os não iniciados é que procuram por essas fronteiras. Saia por aquela porta, atravesse a luz e você encontrará respostas para as perguntas que fez durante toda a vida.”

“E você?” pergunto começando a caminhar em direção à luz.

“Ainda vamos nos encontrar algumas vezes nesta viagem. Um caminho está sendo aberto na poeira do universo, mas em cada ponto dessa estrada só a você caberá a decisão de desistir ou continuar e só de você dependerá o resgate do seu grande areal branco e da velha casa de madeira.”

O sol começa a refletir fortemente no espelho, eu me olho nele e me vejo transparente como Fernanda, sinto-me descolado do corpo enxergando a minha parte transparente, sem órgãos.

Antes de atravessar a porta olho para trás pela última vez e tudo o que vejo é Fernanda desvanecendo-se, evaporando-se num sorriso cheio de paz, de missão cumprida. 

 

Fim da noite, névoa da manhã Os olhos em chamas Plano de Viagem Home