IMAGEM

 
O apartamento em que Roberta mora, na Vila Madalena, surpreende Thomas. Decorado com móveis antigos e uma infinidade de objetos em cobre, lembra os cenários que David Hamilton usava para fotografar as suas primeiras ninfetas. O living imenso, com mais de dez metros de janela, o leva a pensar que seria um excelente lugar para se fotografar ao nascer do sol.

“O apartamento é bonito. Combina com a sua cabeça.”

“Sabia que você ia gostar. É uma pessoa sensível.”

“Convencida.”

“E agora?”

“Agora você prepara uma bebida para nós. Não costumo beber quando fotografo, mas esta é uma situação especial.”

Roberta some durante algum tempo e volta com uma garrafa de uísque, dois copos e um balde de gelo.

“E agora, Helmut Newton das garotas magras, o que fazemos?”

“Você me passa a sensação, o tempo todo, de que está me gozando.”

“É uma espécie de defesa. Não sei o que fazer.”

“Tire a roupa.”

Às vezes as palavras brotam espontâneas, sem passar pelo filtro racional do consciente, principalmente quando empurradas por um pouco de bebida.

“O quê?”

“Tire a roupa. Quem sabe nua me deixa mais à vontade. Pode ficar de óculos, se quiser. Conserva o seu charme intelectual.”

“Eu não disse a você que iria posar nua, isso nem me passou pela cabeça.”

“Eu sei. Pela minha também não.”

“Por que, então?”

“Porque eu gostaria de ver como você é por debaixo dessas suas roupas largas e compridas.”

“Simples curiosidade?”

“Hum hum.”

“Não tem nada a ver com as fotos?”

“Não.”

“Você me deseja?”

“Segredo.”

Roberta caminha em direção ao equipamento de som, coloca um antigo disco do Bryan Ferry, e depois segue em direção aos interruptores que controlam todas as luzes do ambiente. Thomas pensa que ela vai deixar a sala na penumbra para se despir, mas todas as luzes são acesas, deixando o ambiente extremamente claro.

Ela caminha para o meio da sala, bem em baixo da luz principal, abre o zíper e deixa cair a roupa. Está sem nada por baixo. Fica nua no meio da sala, debaixo de quase dois mil watts de luz, com um corpo irretocável, incrivelmente perfeito. Os óculos conservam o seu charme de intelectual.

O olhar de Thomas fica parado no corpo nu de Roberta, focando e desfocando sem lente, tentando adivinhar porque ela vivia sempre escondida debaixo de roupas tão largas.

“Faça alguma coisa, fotógrafo, não fique apenas me contemplando”, diz encostando a bunda na mesa, como Charlotte Rampling em uma das fotos do Helmut Newton.

“Você me surpreende, Roberta, você é maravilhosa.”

“Apesar de nua, quero que você fotografe apenas o meu rosto. Estou nua para você, não para a máquina. Estou nua só para te excitar, quero que você me fotografe com tesão, mas só o meu rosto de intelectual tecnológica, como o Alex costuma dizer.”

A música Avalon cresce no ambiente, e em menos de cinco minutos rodando em torno dela, e com ela acompanhando o movimento, a sessão termina. Apenas closes, alguns sérios, outros eróticos, tudo feito de uma forma muito agitada e muito nervosa.

“Você é incrível, Roberta. Não perde a determinação nem nua, sob o foco de uma lente.”

“Chegue mais perto de mim, e talvez você mude de idéia”, disse tirando os óculos. “Coloque as mãos em meus seios, me abraçe, e vejamos se me faz perder a determinação.”

Thomas agarra os seus cabelos por trás da nuca e a puxa para junto dele. Ela abre a boca para o beijo, com vontade, e os dois se agarram forte. Ele de roupa, ainda com a máquina pendurada, e ela nua.

“Me aperta, Thomas, eu preciso de sexo.”

Acabam transando com toda a loucura e toda a certeza de que poderia não haver uma segunda vez.

“Amanhã vou para Paris com a Fernanda. Você quer alguma coisa?”

“Não. Mostre as fotos para ela, acho que vai gostar. Ficaram bastante nostálgicas, bem no estilo dela.”

“E o meu livro? Fale alguma coisa sobre ele antes de eu ir embora.”

“Sério?”

“Sério.”

“Sei o quanto tem se empenhado nele, mas o que eu disse sobre a Solidão dos Sobreviventes, vale para este: você sempre foi muito melhor fotógrafo do que escritor.”

“Está muito ruim?”

“Não é questão de estar bom ou ruim você continua apenas um fotógrafo. A impressão que me passa é a de uma colagem eletrônica, de um fotógrafo colando os fragmentos da sua vida e esparramando pelos nós da rede, desordenadamente, só que agora online, para o planeta. Você continua falando sobre você mesmo, e sobre as pessoas que estão à sua volta. Joana, Alex, eu mesma, essa debilóide da Marcela, estamos todos na grande teia.”

“E de uma forma ou de outra, não é sobre si mesmos que a maioria dos escritores acaba escrevendo, mesmo quando contam histórias de outras pessoas?”

“Não é o caso. Autobiografias disfarçadas, enriquecidas com toques do imaginário do autor reforçando aquela vida que ele imaginava para si próprio, até já deram grandes obras no formato impresso. Mas você não está seguro nem sobre o que escrever sobre si mesmo.”

Thomas tenta retrucar, mas ela continua:

“De repente decide colocar um livro na rede, não tem o que dizer, e quer fazer dessa dificuldade em não ter o que dizer a razão da própria obra. Parece que o livro só caminha na medida em que você vai resolvendo ou deixando de resolver os seus próprios problemas. Esse filme eu já vi, e foi realizado há muito tempo atrás, com muito talento.”

Roberta é cruel quando crítica vai direto ao ponto.

“Apesar de fotógrafos não se transformarem nunca em grandes escritores, no fundo eu acreditava na sua sensibilidade, você foi sempre muito criativo, e eu até pensei: quem sabe o Thomas, depois da experiência em papel impresso, acrescida da experiência tecnológica, não consegue produzir o primeiro cult digital, maldito, revolucionário, e coloca online para uma plateia planetária?”

“Em parte você tem razão. As mídias estão aí, disponíveis, e eu sempre acabo escrevendo sobre mim mesmo, sobre o passado, sobre os amigos. Eu sempre soube, desde o início, que não ia conseguir escrever o que se esperava de mim.”

“Mas não se desespere, tem algumas passagens muito bonitas no que eu vi. O interface está razoável e você está usando o hipertexto com algum nexo. Enfim, não se desespere.”

“Eu nunca me desespero. Se você me convencer que está mesmo uma merda, deleto tudo. Largo o livro, o projeto e volto a ser fotógrafo.”

“Não faça isso ainda, continue. Faça primeiro uma revisão de tudo que você já escreveu e tire as suas próprias conclusões. Com relação à Marcela, que eu mal conheço pessoalmente, sugiro que a elimine sumariamente do livro. Se você observar bem, vai notar que nos trechos em que ela aparece até o seu estilo de escrever muda, e as passagens não tem o menor conteúdo, a menor poesia.”

“Não sei se você está certa, mas o Alex também já disse isso.”

“Eu acredito que ela esteja mexendo muito com a sua cabeça, tanto que causou a separação, mas isso não chega a fazer dela uma personagem para a sua história. O que você acaba transmitindo com ela é a sensação de uma juventude vazia, de uma personagem oca, burra.”

“Não é bem assim, Roberta. Pessoas como a Marcela não são menos inteligentes, são mais leves, talvez pela juventude, por estarem ainda em um ponto da estrada diferente do nosso, e isso não tem nada a ver com inteligência. Elas tem uma dimensão fascinante que as pessoas ditas inteligentes, intelectuais, não conseguem captar. E além do mais ela está prometida para a cena final da praia.”

“Que cena final da praia??? Novamente você com essa cena final da praia?”

“Desta vez vai ser diferente. Esta parte ainda não está escrita, mas tudo que você leu até agora é apenas um encaminhamento para a cena final da praia, para a grande apoteose final, a grande catarse, o grande orgasmo online.”

“É tão importante esse final, você acredita tanto nele assim?”

“Acredito.”

“Você não pode adiantar o que ele tem a ver com os trechos que eu li até agora? Quem sabe posso ajudar.”

“Está apenas na cabeça, é difícil falar sobre ele. Só o que eu sinto é que vai ser mesmo um grande final, uma grande apoteose, como se fosse a antiga Beija-Flor entrando na avenida dos meus sonhos, durante o nascer do sol.”

“Agora fiquei curiosa sobre esse final. Quem sabe até acaba dando um sentido a toda essa colagem que você fez da sua vida até agora.”

“Quem sabe.”

“Mas não esqueça, me deixe fora dessa história, principalmente depois desta noite. Foi muito bom estar com você mas deixe tudo isto fora de sua história.”

“Vou pensar.”

 

Quase imagem Devil or Angel Plano de Viagem Home