IDEIA DE MORTE

 
Agora que o enterro se foi a noite ficou mais escura e as pessoas sumiram todas das ruas. Quando o último personagem desaparece do nosso alcance visual já estamos no Boulevard des Italiens, em frente ao Café de La Paix.

Uma neve muito fina começa a cair novamente sobre os nossos cabelos, a molhar os nossos lábios e a desmanchar as palavras que não dizemos. Olho nos olhos de Fernanda procurando adivinhar o que ainda está por acontecer, mas eles nada dizem. Continuamos então a caminhar unidos novamente apenas pelo mistério da noite, pelo silêncio desmaiado no eco das nossas últimas palavras, que parecem terem sido ditas há muitos séculos atrás.

Cansados, paramos em um banco da Avenida Champs Elysées, debaixo de uma árvore grande e escura. Não há mais ninguém nas ruas de Paris, nenhum carro trafega na solidão da larga avenida. Sozinhos na cidade, com apenas alguns pingos escorrendo pelos nossos rostos e cabelos molhados, vemos novamente as nossas mãos livres para percorrer os nossos corpos.

Penso que essa é uma boa hora para o amor em Paris e a mesma sensação atravessa Fernanda. Seus olhos brilham novamente, os nossos corpos se tocam maiores, crescem dentro da noite e a noite cresce com o nosso delírio. Apertamo-nos com todas as forças que nos restam, com toda a vontade de amor de quem pressente que esta pode ser a última vez e logo nos descobrimos quase nus sobre um banco, em pleno Champs Elysées, às quatro horas da manhã, sob uma temperatura de quase zero grau…

… e rolamos pelo banco como loucos, como se as pequenas e estreitas ripas de madeira fossem uma imensa cama, forrada com lençóis de seda branca. Depois corremos para a árvore, o corpo de Fernanda imprensado contra o tronco e eu a possuo alucinadamente, abraçando ela e a árvore, com braços imensos.

Amar Fernanda novamente parece a única simplificação que encontro para preservar os mistérios e as surpresas desta noite.

Logo começa a ventar cada vez mais forte, e continuamos a nos possuir rolando pela grama, molhados, com folhas grudadas em nossos corpos, indiferentes ao Obelisco de La Concorde, que desafia o céu como se fosse um gigantesco pênis.

“Cansada?”

“Não, o corpo transbordando de amor. Do teu amor.”

“Olha os teus braços, Fernanda, estão floridos.”

“As flores são suas.”

“Ouve a música.”

“A música também é sua.”

Um som estranho, de piano, parecido com a música “Colors” que George Winston toca em um de seus primeiros discos, chega até nós.

“É uma música estranha, mas fala de amor.”

“Será verdadeiro esse som, Fernanda? Essas flores, essa canção? Esta paz, esta sensação de felicidade, será que tudo isto é real?”

“Isto existe não como resultado desta noite, mas como uma síntese de tudo que aconteceu em nossas vidas: amores, sofrimentos, alegrias, tristezas, perfumes, cores, sons, tudo. Tudo que aconteceu e que está por acontecer ainda hoje. Isto é só uma preparação.”

“Mas e daqui a pouco, quando o sol nascer? O que acontecerá se murcharem as flores e desaparecer a canção?”

“As flores não murcharão, e quanto à canção, tente aprendê-la, porque ela existirá sempre em você.”

“E se cairmos na ideia de morte, e nos desesperarmos?”

“A morte faz parte da viagem, ela nos devolve o centro com o qual nascemos e que nos conecta com a existência, para renascermos mais tarde em outra camada da vida”.

“Mas o que podemos fazer se quisermos impedir esta morte?”

“Nada, na verdade isso não tem importância alguma. Vamos viver com muita energia este pouco de tempo que nos resta. Não se deve querer ser feliz ou infeliz por antecipação. E além do mais, de que adianta querer florir em primaveras que ainda nem nasceram? De que adianta ficar pensando no amanhã de uma outra vida, se ainda não terminamos de preencher as distâncias que ainda existem entre nós nesta vida?”

“E se definitivamente esta vida nos separar?”

“Aprenderemos a saudade que fará cada um de nós viver para sempre na vida do outro.”

Um avião supersônico, com o ruído de um Concorde, ocupa o nosso espaço sonoro e faz um voo rasante ao longo dos Champs Elysées.

 

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