FIM DE NOITE, NÉVOA DA MANHÃ

 
O horizonte já começava a ensaiar a claridade do dia que estava por nascer, e começou a baixar um nevoeiro, comum no verão de Porto Piano. Às vezes ele acontecia no fim do dia, pouco antes do anoitecer, às vezes no fim da madrugada, antes da luz aparecer. Paula tirou a sua carta nesse momento.

“Thomas e Fernanda estão no apartamento dela, em Paris, manhã quase nascendo, e depois de muito sexo a conversa dos dois segue numa linguagem codificada, hermética, e termina num abstrata afirmação de que eles começam a invadir o tempo, a penetrar em outra dimensão. Fernanda assume um personagem profético e diz que o tempo deles está chegando ao fim. O corpo nu de Fernanda se ilumina de dentro para fora, e tudo vira luz, e pouco a pouco ela vai se evaporando, dá um sorriso cheio de paz e Thomas sai pela porta espelhada.”

“Uau, estou perplexa com o que acabo de ouvir”, diz Fernanda, surpresa. “Thomas me sonegou esse texto também. E eu que achava ter lido tudo! Não sei o que pensar sobre isso.”

“Bem, acho que está claro que ninguém leu tudo que foi escrito e está nesse CD entregue ao Fred. Talvez ele venha a ser o primeiro a ler a história toda. Eu também não li esse texto, na verdade foi o Thomas que redigiu os resumos e me pediu que providenciasse as cartas. Alguém aqui leu esse texto?”

Ninguém havia lido, e Fred então se manifestou.

“Eu também não li, apenas vi esse texto na tela e Thomas falou sobre ele, mas nada que possa dar mais luz ao que está informado no resumo. Lembro apenas que falou em cabala, alquimistas de Praga, camadas da vida…”.

A pausa de Fred virou silêncio, e uma Paula meio cansada, se dirigiu a todos.

Gente, o dia está nascendo, sugiro deixarmos essa leitura por aqui mesmo. Gostei muito desse encontro e espero que vocês também. Acho que o Passenger já teve uma boa ideia de onde está entrando. As cartas que não foram lidas podemos lê-las em outra oportunidade, em um próximo encontro. Agora vamos dar uma olhada na praia e caminhar um pouco na névoa. É muito relaxante, ajuda a dissolver os mistérios. Depois dormimos um pouco.

E todos desceram, dia claro já, alguns com as suas garrafas de vinho, e mergulharam no branco quase opaco de uma névoa cuja visibilidade não chegava a vinte metros, talvez.

Ouviam-se as vozes de outras pessoas, vozes embaçadas, mas não se sabia de onde vinham. Ao longe a batucada tecno continuava, e o som que chegava também se desmanchava no branco. Tudo era branco, só luz, como no resumo que eles haviam acabado de discutir.

 

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