FERNANDA DAMIANI

Nome de batismo: Fernanda Damiani. Mulher enclausurada em um estúdio fotográfico em Paris: Eu. Olhos: verdes como o sonho. Cabelos: negros como a noite mais profunda.

Apesar de eu gostar do bordão “bonita, fiel, carinhosa e puta”, algo me diz que não cheguei até estes dias com os bolsos vazios.

Foram incontáveis horas de masturbação política, outras tantas de passarela, orgasmos a perder de vista e mais de 2.000 horas editando imagens – fora outras tantas por trás de um visor fotográfico.

Thomas existiu em mim desde a infância, quando brincávamos no grande areal branco e a velha casa de madeira que havia perto de nossas casas. Novamente nos encontramos na adolescência, e a partir daquela noite, de tempos em tempos os nossos caminhos se cruzaram.

Terminado um amor adolescente, voltamos a nos encontrar dentro de um ônibus, que levou a um fantástico ensaio fotográfico exposto em Veneza.

O determinismo do desencontro nos levou mais tarde a uma inútil noite na casa de Robert, um nostálgico jornalista existencialista, mas foi um nascer de sol que definitivamente nos separou por mais tempo que as outras vezes.

A minha profissão e paixão atual é a fotografia. A imagem fotográfica geralmente impõe limites, imobiliza pessoas que se movimentam, gente que na realidade tem vida e movimento próprios. Para mim ela não é apenas uma forma de registro, um meio de reproduzir uma cena, mas uma forma de expressar sentimentos e emoções.

E o que eu enxergo hoje por trás da lente não são formas estáticas, agradáveis, bem equilibradas e arranjadas no espaço, mas a dimensão da minha própria existência, o prolongamento do sangue que corre em minhas veias, o suor que escorre em meu rosto.

As grandes avenidas arrebentam em cores e ruídos na minha cara, e todas as ruas do mundo não passam de repente de um grande cenário colorido e luminoso onde as pessoas caminham apressadas, entrando e saindo da cena, dirigidas sabe-se lá por quem.

Nas ruas elas vivem o patético e o absurdo dos contrastes, uma espécie de vida selvagem, perplexas, diante de outro puta monte de gente correndo de um lado para o outro – sem saber atrás do quê.

É muito difícil para mim, hoje, entender onde termina a fotografia e começa a minha vida. Apenas registro este digital e selvagem começo de milênio com muita raiva e com muito amor.

O mundo digital acabou ficando sufocante para todos nós.

 

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