ENSAIO

 
Sábado pela manhã, às dez horas em ponto, ele já está na porta do apartamento de Fernanda. Ela abre a porta ainda de pijama, bocejando.

“Você chegou cedo.”

“Desculpe-me, não sabia que você iria dormir até tarde.”

“Tudo bem, entre, vou dar um jeito na minha cara. Ontem separei uns slides para queimarmos. Está tudo aí em cima da mesa. Tem imagens de crianças, casas, igrejas, praias, vamos queimar tudo, vamos botar fogo em nossas vidas.”

As fotos haviam sido planejadas quando ela começou a tomar aulas de estúdio com Thomas. Uma noite eles saíram para tomar um chope após a aula, começaram a discutir sobre fotografia, e surgiu a ideia de um estúdio em movimento, aleatório, não convencional.

Fernanda não gostava da fotografia convencional de estúdio. No fundo a ideia lhe havia sido transmitida pelo próprio Thomas, que também não gostava. Conhecia razoavelmente bem os segredos da iluminação artificial, dominava a técnica, mas não gostava, e acabava passando a sensação também aos alunos.

Depois de alguns chopes e muitos voos, decidiram revolucionar o velho estúdio, trocando a iluminação e colocando-a em movimento, aleatoriamente. Pensaram em um ensaio sobre a solidão da mulher moderna, algo que ficasse entre a esquizofrenia das grandes cidades e o amor neurótico e solitário vivido entre quatro paredes. O efeito dramático seria obtido com a projeção de slides cuidadosamente queimados e projetados no corpo nu de Fernanda.

Thomas já havia separado cerca de quinhentos cromos para queimar quando Fernanda ressurgiu. Agora bela, rosto lavado, suavemente maquiado, enfiada num jeans azul claro.

“Estou curiosa para ver como é que fica o efeito de se queimar slides e projetar no corpo de uma pessoa. Foi você quem inventou isso?”

“Não, eu vi alguns trabalhos desse tipo em revistas estrangeiras antigas, feitos a partir de cromos 4 x 5, cuidadosamente queimados, com chama de fósforo ou isqueiro. Dependendo da imagem e da sorte que se tem ao queimar, podemos conseguir efeitos interessantes. Vamos lá, apanha uma caixa de fósforos e vamos atear fogo às nossas vidas.”

Ficaram quase uma hora queimando cuidadosamente os slides, e perderam mais cromos do que esperavam, às vezes se descuidavam e a chama destruía até a moldura. Para conseguir os duzentos e quarenta que queriam foi preciso queimar mais de quinhentos. Fernanda se encantou com os resultados, independente do que fossem fazer com eles.

“É fascinante o resultado, é como se cada emulsão reagisse de forma diversa ao fogo, formando uma textura diferente e intrigante”.

“É impossível obtermos resultados iguais, por mais que tentemos,” explicou. “Tudo depende da intensidade do fogo, da distância da chama, da quantidade de luz que atinge as três camadas coloridas da película, enfim, são tantas as variáveis que fica impossível controlar. Por isso acho que o que nós vamos fazer está mais para um happening fotográfico do que para uma sessão de estúdio.”

A iluminação partiria de três projetores em um quarto escuro, projetando aleatoriamente slides queimados no corpo nu de Fernanda, que posaria ao som de Stockhausen para que os dois pudessem entrar em um transe meio neurótico. O alcance ou não da mensagem que queriam transmitir dependeria mais do resultado do happening fotográfico em si, do que de toda a produção que pudessem tramar. Para suportar as imagens eles concordaram que seria necessário um pequeno texto, para complementar a ideia.

“Venha ver como ficou a nossa arena.”

O apartamento tinha três quartos imensos, um dos quais servia de escritório. Com a ajuda do zelador Fernanda havia esvaziado esse quarto, deixando apenas a aparelhagem de som e dois enormes espelhos, um em cada parede. Montou também os três projetores de slides, os quais havia tomado emprestado na escola, nas pontas de um triângulo isósceles imaginário, com a base menor paralela a uma das paredes. Usou três bancos altos, desses utilizados em salas de aula, para colocar os projetores e apontou as objetivas para o centro, onde deixou apenas um banquinho giratório de piano, em cima do carpete espesso. Os espelhos ficavam de frente um para o outro, nos lados maiores do triângulo.

“Está ótimo, você foi perfeita na produção. Se um dia me tornar um fotógrafo de estúdio, vou contratá-la como produtora. Você tem pique.”

Thomas não chegou a perguntar onde ela conseguira os bancos e os espelhos. Não gostava desse tipo de pergunta, porque essas respostas geralmente consomem tempo para serem dadas e geralmente são desprovidas de qualquer relevância. Teria perguntado se pudesse adivinhar o significado que os espelhos tinham para Fernanda.

“O que é que você achou dos espelhos?”

“A ideia foi ótima, você vai poder ver o que está sendo projetado e modificar os movimentos quando achar necessário. Agora vá se aprontar, ou melhor, tire a roupa, enquanto acabo de carregar as bandejas.”

Eram oitenta slides em cada projetor e seriam trocados automaticamente através de um timer, de dez em dez segundos. Seriam acionados com uma defasagem de 3 segundos um do outro, e assim a cada período curtíssimo de tempo haveria uma diferente combinação de imagens projetadas no corpo nu de Fernanda.

“Agora é que vem a parte mais difícil. Nunca posei nua, sei que não vou conseguir relaxar.”

“Ora, Fernanda, deixa disso, em cinco minutos você já terá esquecido que está nua. Tome alguma coisa para relaxar, se achar melhor. Eu não vou beber nada, porque fotografia e álcool não combinam, pelo menos para mim. Fico muito lento.”

“Vou buscar um conhaque. Hoje esfriou um pouco, além de relaxar vai ajudar a me esquentar. Assim não preciso pedir a você que me esquente.”

“Uma pena,” pensou.

Apanhou um dos três discos do Stockhausen que Fernanda havia separado, colocou no player e acabou de carregar as bandejas dos projetores. Aquele era um de seus discos mais estranhos. Uma vez ele adormeceu ouvindo a faixa “Hymns” e quase teve uma parada cardíaca devido a uma explosão no meio da faixa, após alguns segundos de silêncio. Desde esse dia concluiu que Stockhausen era extremamente perigoso para cardíacos desprevenidos.

Quando Thomas abria a maleta para apanhar a máquina Fernanda voltou. Maquiada, bela, dentro de um roupão de banho vermelho, com um elegante copo de conhaque em uma das mãos e a garrafa na outra. Deu um primeiro gole, depositou o copo em cima de um dos bancos, respirou fundo, e colocou a garrafa no chão.

“O que você trouxe de equipamento?”, perguntou já virando um segundo gole.

“Quase nada. Só a máquina, o motor, a objetiva Nocti por causa da pouca luminosidade dos projetores, e um pacote de filmes. Não é preciso mais do que isso. Vou trabalhar com a abertura máxima para ter mais folga com a velocidade, e depois puxar o filme para 1600 ASA na revelação.”

Fernanda fechou a janela e puxou a cortina. Ele fechou a porta, ligou os três projetores e apagou a luz. Era um ambiente aberto para descobertas. Três fachos de luz cruzavam-se no meio da sala e refletiam-se nos espelhos e paredes brancas, com Stockhausen ajudando a reforçar o clima. Enquanto Thomas ajustava os três projetores para que os três fachos de luz cobrissem uma área de mais ou menos um metro e meio a partir do centro do banco giratório, ela deixou cair o roupão e surgiu nua, bem no meio da parafernália luminosa e barulhenta, multiplicada pelos espelhos. Deu um longo gole e sentou, pouco à vontade.

“Esse banco está gelado, vou pegar um resfriado na bunda.”

Thomas tirou a malha e jogou para que ela sentasse em cima. Ajustou o foco em seu corpo, acionou os projetores, e as imagens começaram a se suceder no corpo de Fernanda, como se ela fosse uma tridimensional tela humana.

“O que eu faço agora?” perguntou olhando para o próprio corpo refletido nos espelhos.

“Imagine que você seja aquela mulher esquizofrênica e solitária que queremos mostrar, e faça o que quiser: chore, grite, ria, faça cara de desespero, de tesão, goze, seja neurótica.”

“Com essa música louca e essas imagens projetadas em meu corpo e em meus olhos não vai ser muito difícil passar por neurótica. Me passa o copo para um último gole antes de eu entrar de cabeça nesse transe.”

“Não vá ficar bêbada antes de começarmos”, disse carinhosamente, antes de passar-lhe o copo.

“Não se preocupe, quando quero vou fundo, trabalho sério, e você sabe disso.”

Thomas se ajoelhou a mais ou menos um metro e meio dela e começou a fotografar. No início Fernanda estava um pouco presa, um pouco espantada ainda com a imagem do seu corpo nu refletido nos dois espelhos, e ele precisou comandar seus movimentos e expressões, agitar a sua cabeça e girá-la de um lado para o outro, conforme a combinação aleatória das imagens que se sucediam.

O efeito da emulsão estourada pelo fogo, cheio de bolhas de diferentes dimensões, era magnífico quando projetado. A imagem original não fora totalmente destruída pelo fogo, mas apenas alterada. E o registro da imagem certa, no lugar certo do corpo, só dependia deles, do movimento e expressão que ela escolhia com a ajuda do espelho, e dele estar na posição certa na hora do clique.

A cada troca de slide as bolhas formadas pelo fogo, às vezes minúsculas, às vezes enormes, combinadas com as imagens originais, alteravam o clima, as sensações, os gestos. Concentrada em sua imagem no espelho Fernanda começava a crescer, e já passava da histeria à ternura, da raiva ao tesão, com uma facilidade que Thomas não tinha para trocar o filme da máquina.

“Como estou?”, perguntou enquanto ele colocava outro filme.

“Você está muito melhor posando do que eu fotografando. Está conseguindo sentir bem a imagem no espelho, está ótima, mas eu estou um pouco lento nos movimentos. Às vezes, quando chego, o slide troca e perco a combinação expressão-imagem. Vamos fazer o seguinte: agora você vai se orientar pelo barulho do motor da máquina, e não pela troca do slide. Só mude a pose quando ouvir o barulho do motor, ainda que o slide troque antes.”

“Está bem professor, vai ser como você quer, mas me deixe tomar mais um gole.”

As imagens rebentadas pelo fogo se sucediam: crianças, casas, objetos, cúpulas de igrejas, texturas naturais, cenas de praia, estátuas, tudo renascendo no corpo agitado de Fernanda, que agora se contorcia ao ritmo do motor, para facilitar as tomadas. Thomas começou então a variar a distância entre eles, às vezes procurando enquadrá-la dentro do ambiente, com o espelho de fundo, às vezes enquadrando só detalhes, eliminando o fundo. Fernanda já estava muito à vontade, se movimentando com a precisão de uma bailarina clássica, mas ao som de Stockhausen.

“Fique de joelhos agora, ele disse retirando a banqueta giratória. Você vai ter mais liberdade para os movimentos, gire em torno de você mesma.”

“Eu estou arrepiada, não sei se de frio ou de tesão, de ficar aqui pelada, me contorcendo toda para você. Acho que estou ficando muito exibicionista, essa música está me liberando os instintos.”

Fernanda começou então a se movimentar de joelhos, girando o corpo de um lado para outro, a cada ruído do motor. Parecia uma gata gozando, tendo um orgasmo a cada clicada. Todo o seu corpo estava arrepiado: coxas, bunda, braços, estava toda sensível. Os bicos dos seus seios estavam duros, como se ela estivesse atravessando sucessivos e profundos orgasmos.

“Vamos apontar os projetores para o chão”, disse ela, aproveitando nova troca de filme. “Agora quero experimentar deitada no chão.”

Fernanda já assumia o comando da sessão. Thomas carregou a máquina, apontou os três projetores para o chão, e desta vez foi ele a encher o copo para um longo gole, afinal já estavam fotografando há mais de duas horas.

Ela se colocou de bunda para cima no centro da pequena arena e ele ajustou de novo o foco dos projetores. Esticou o braço, puxou o copo de Thomas e deu um longo gole. Ele trocou o disco, colocou os três projetores no primeiro slide e os acionou novamente, em outra ordem, para que as combinações de imagens ficassem diferentes.

Acertado o equipamento, Fernanda iniciou novamente o ritual, cada vez mais excitante, abrindo os braços, girando, arqueando o corpo com a bunda para cima, e ele a fotografava agora de cima para baixo, com um tesão que não estava programado.

Começou a pensar que não resistiria ao contorcionismo e às expressões de Fernanda, que cada vez se entregava mais, cada vez mais era só tesão, agravado pela música e pela troca contínua de luzes, que começavam a deixá-lo também um pouco tonto.

“Tire a roupa”, disse ela, interrompendo o ritual. “Agora sou eu quem vai fotografar você.”

“Espera um pouco, a modelo aqui é você, não eu, o ensaio é sobre a solidão da mulher moderna, não sobre o homem moderno, e você sabe que eu não gosto de ser fotografado nem vestido, quanto mais pelado.”

“Em cinco minutos você já terá esquecido que está pelado, não foi o que me disse?”

“Não brinque, Fernanda, tudo isso já me deixou muito louco, e se eu tirar a roupa não existe a menor chance de continuarmos a fotografar.”

“Não se preocupe que eu me protejo”, disse desabotoando a camisa de Thomas.

“São quase quatro horas da tarde e nós ainda não comemos nada”, argumentou, como se aquilo fizesse algum nexo.

Não adiantou discutir. Em pouco tempo ele estava nu, no meio da arena, tentando esconder o pau duro no meio das imagens que agora eram projetadas nele. De pé, pelada, com a máquina pendurada no pescoço, Fernanda começou a fotografar, completamente à vontade, e se divertindo muito com a falta de jeito de Thomas para a profissão.

Fernanda continuava uma bela figura de mulher, constatou Thomas enquanto era fotografado. Ela estava em pé, com uma perna em cada lado de seu corpo, na mesma posição em que ele estava há pouco, quando a fotografava – só que nua.

Vista de baixo para cima Fernanda parecia um monumento de um metro e setenta, flutuando sobre o corpo de Thomas, e ele não aguentou. Se apoiou segurando em suas pernas, levantou o corpo, beijou as suas coxas, e foi subindo. O ruído do motor da máquina parou. Ela segurou a cabeça dele e a apertou contra ela. As imagens continuaram a se suceder, agora sobre os dois corpos enroscados, sem o comando do giro do motor da câmera.

Terminados os slides e o som infernal do Stockhausen, ficaram deitados por algum tempo no chão, um ao lado do outro, relaxando. Só se ouvia o ruído dos ventiladores dos projetores. Os fachos de luz ainda estavam em cima dos corpos nus, mas nenhum dos dois se preocupou em desligar.

Thomas estava um pouco preocupado com o fato de ter transado com Fernanda. Gostava muito dela, queria muito fazer aquela sessão, tudo aquilo tinha sido muito importante, mas não gostaria que mudasse em nada o relacionamento deles, não queria se apaixonar de novo, viciar-se novamente naquele corpo.

“Foi bom, disse ela, cortando o silêncio, foi muito gostoso que você me amasse.”

“Eu também gostei muito.”

“Você acha que as fotos sairão boas?”

“Tenho certeza que sim. Fiz dez filmes, e deve ter muita coisa boa. Você foi maravilhosa, e deve ter sentido isso no espelho como eu senti por trás da câmera.”

“E o final, você acha que valeu?”

“É lógico que valeu. Com esse clima não poderia ter terminado de outra forma. Acho que se não terminasse assim teríamos saído em pedaços, incompletos. Toda grande obra tem que ser coroada por um grande êxtase, um grande orgasmo, literalmente. Eu só tenho um pouco de medo que um dos dois possa sair machucado.”

“Outros trabalhos seus costumam terminar assim também?”

“Não, Fernanda, você sabe disso. Não vamos começar a nos cobrar.”

“Só quando é inevitável, não é?”

“Vamos comer alguma coisa, eu estou com fome.”

“Não se preocupe com as minhas perguntas”, disse virando o corpo e beijando-o carinhosamente. “É só curiosidade mesmo, não estou cobrando nada.”

Apanharam o copo de conhaque e o esvaziaram em dois goles. Beijaram-se mais uma vez, em pé, e depois começaram a se vestir. Fernanda colocou a malha de Thomas, que chegava quase aos seus joelhos, sem nada por baixo.

Desligaram os projetores, abriram as janelas, e a luz invadiu o ambiente, de forma quase agressiva. Já eram quase cinco horas da tarde. Haviam ficado naquele quarto escuro, em transe, durante mais de seis horas. Foram para a cozinha, mortos de fome, mas em menos de quinze minutos estavam saboreando uma lasanha que ela tirou do freezer e esquentou no forno de micro-ondas.

“Sabe, Fernanda, estou pensando em um texto para esse ensaio e não me ocorre nada parecido com o que havíamos imaginado. Estou com as imagens ainda na cabeça, mas as palavras que me chegam são as de uma história de amor meio furiosa, violenta. As expressões que eu captei não foram as de uma neurótica, de uma masturbadora solitária, mas de amor verdadeiro, de um amor intenso, entre um homem e uma mulher.”

“O que você pretende fazer com essas fotos?”

“Se ficarem boas, gostaria de publicar em alguma revista de fotografia com boa circulação, provavelmente no exterior. Podemos redigir um texto de apoio, meio maluco, que acompanhe o pique das fotos, e submeter a umas duas ou três revistas. O que é que você acha?”

“Para mim está bem, mas se tivermos que escrever algum texto vamos fazer isso agora, que estamos ainda com as emoções vivas dentro de nós.”

Sentados no chão, começaram a trocar ideias sobre o texto. Fernanda continuava só com a malha, sem nada por baixo, e isso incomodava um pouco Thomas, apesar de ser um incômodo agradável. Quando se debruçaram para começar a escrever a malha subiu e a bunda ficou descoberta. Ele achou que ela estava gostando de provocá-lo, e que fazia isso deliberadamente.

“Com essa sua bundinha de fora, para cima, vou ter mesmo dificuldades para pensar.”

“Concentre-se no texto e esqueça a minha bunda”, disse deixando tudo como estava.

Depois de alguns voos chegaram a um texto que ela achou até razoável, mas concordaram que seria difícil passar para as outras pessoas a imagem que queriam, e como não conseguiram chegar mais longe, ficaram com um texto provisório.

“O que você achou do texto, perguntou.”

“Está uma merda.”

“Eu gostei, retrucou Fernanda. É que você racionaliza demais, se preocupa muito com a objetividade, fica esperando sempre que as pessoas entendam. É preciso ser mais irracional, ilógico, abstrato, deixa o cartesianismo para as pessoas comuns. Se expomos a nossa dimensão e ela é bela, é justo que as pessoas façam um esforço para compreendê-la.”

Talvez Fernanda tivesse razão, e Thomas hoje concordaria com as ideias dela de quase vinte anos atrás, ideias que já eram parecidas com as de Roberta hoje, guardadas as camadas e profundidades com que cada uma atingia a essência das coisas.

Mas já era um pouco tarde para começarem aquele tipo de discussão e Thomas tinha um compromisso. Quando pensou em ir embora teve vontade de ficar um pouco mais e se enroscar novamente com ela, mas se sentiu meio canalha e despediu-se antes que mudasse de ideia.

“Quando os filmes estiverem revelados volto para vermos juntos o resultado.”

“Espere um pouco, preciso devolver a sua malha.”

“Outro dia você me devolve”, disse dando-lhe um tapa carinhoso na bunda. Ela respondeu com um beijo devasso na boca.

“Tchau, Fernanda, você foi maravilhosa.”

“Tchau, professor, foi bom fotografar com você. Te adoro. Um dia nos vemos outra vez.”

“Por que um dia?”

“Porque será um dia, ora.”

“E as fotos? Você não vai querer vê-las?”

“O importante já foi feito, o que fizemos para mim já existe, já tem vida própria. O resto é resultado, é consequência. Um dia você me mostra.”

“Tem certeza que não quer vê-las logo?”

“Completamente. Um beijo. Nos vemos por aí.”

“Um beijo”, disse Thomas surpreso.

Fernanda continuava a mesma mulher enigmática e misteriosa, precisando ser decifrada.

 

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