DIMENSÃO DO SONHO

 
 
Sentado em um canto do Great Balls, copo de uísque vazio, Alex deixa-se envelhecer, lentamente. Sozinho, com os olhos voltados para a dimensão do sonho que aquele ambiente resgata, ele chama o garçom, quando chega Thomas.

“E aí, escritor, já sei que o seu espetáculo foi um grande sucesso. Eu estava lá, perdido no meio daquela multidão. Mas o que eu quero saber é como vai a maluquice da versão online do livro, em negativo. As pessoas já se acostumaram a ler em negativo?”

“Alguns sim, cara, outros não. Faltam apenas alguns capítulos, e o corpo-a-corpo agora não é mais apenas com o branco do papel. Se a esgrima com as palavras já não era muito simples, a luta com os bits ficou ainda mais difícil.”

“Você sabe que eu não sou a pessoa certa para fazer a crítica de uma obra de ficção online, mas pelo que eu andei lendo até agora você também não está conseguindo acrescentar nada a nada. A Web continua sem um formato para a ficção.”

“É isso que está me fodendo, Alex. Eu também não estou conseguindo encontrar soluções para os problemas de leitura, sem sacrificar a interatividade. Se deixo a navegação fluir fácil, limito a interatividade do leitor. Se crio condições de interatividade ele se perde nos links. Mas vou ficar íntimo dessa nova sintaxe e desvendar-lhe os mistérios. Me aguarde.”

“Vai por mim, Thomas, larga esse texto, literatura tem a ver com tristeza, no papel ou na internet ou em qualquer outro lugar.”

Thomas continua, mais concentrado, como se Alex não tivesse dito nada.

“As palavras, quando colocadas no branco do papel, não tem nada em comum com a mistura de mídias que hoje são colocadas na tela de um monitor, e num certo sentido são até opostas. Além disso, o papel está sendo usado há séculos. Não vai ser fácil nos libertarmos dele, e isso vale tanto para quem escreve como para quem lê. Ainda é difícil olhar uma tela como se fosse o branco do papel.”

“Do que já li posso adiantar: apesar das metáforas, mistura de mídias, confusão de ambientes e personagens, você vai magoar muito a Joana.”

“Nós já nos separamos por causa disso, Alex.”

“O trecho do motel com a Marcela é ridiculamente realista, é tão flagrante a realidade no texto, que você alterou até o estilo de escrever. Só faltam as fotos e o vídeo de vocês dois na cama, online, para o planeta. É óbvio que a Joana vai sofrer.”

“Você sempre se complicou quando enfiou a cara em projetos como esse. Ficou sempre muito clara a sua impotência diante das coisas mais simples, mais óbvias, mais elementares, e isso é até fácil de entender.”

Alex vê Roberta chegando, pede ao garçom para chamá-la, e continua:

“Quando a imaginação voa alto, Thomas, o artista fica mais sensível, mais apaixonado, e se entrega ao seu lado marginal com potência máxima. Sempre foi assim, desde as primeiras palavras rabiscadas nas paredes das cavernas. Só que a nossa vida é dupla: temos o lado marginal, artístico, mas temos também o dia a dia. Se gastamos todas as energias no primeiro, não sobra nada para o segundo, ficamos sem defesas, e pode então faltar-nos o caráter diante das coisas mais banais, como ferir pessoas com uma pequena aventura sem nenhuma importância real.”

 

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