DEVIL OR ANGEL?

 
Acordo agora, às onze horas da manhã, fodido. Lá fora chove, desgraçadamente.

Ainda estou com o gosto da cerveja de ontem na boca. Coloco um antigo CD do “Mamas & The Papas” e aperto o power do amplificador. Os leds iluminam a manhã. Dedicated to the One I Love. Nunca uma música caiu tão bem numa manhã tão filha da puta como esta. Michelle Phillips era linda de endoidecer.

Mais uma vez constato que é impossível escrever em linha reta, são muitas as histórias e músicas que me vêm à cabeça durante o processo de criação. Contudo é preciso escrever para manter o sonho, porque senão de nada adianta continuar vivo.

Leio o que escrevi ontem, principalmente as últimas páginas, que rabisquei ao som de Billie Holiday e Gerry Mulligan, já meio out of this world, mais para come rain do que para come shine, e incrivelmente não fico tentado a rasgar tudo. Se continuar assim acabo por acreditar mesmo que consigo escrever um livro noir, um cult maldito, e apesar das profecias da Roberta, colocar na rede. Penso em mostrar logo a ela, quem sabe me corta o embalo.

Dedicated To The One I Love, again. Ontem era o sax do Mulligan, hoje é ela. Começo a ficar viciado em escrever ouvindo música. Desconfio que seja porque no fundo penso que não há necessidade de se escrever coisa alguma, não faz sentido, é um desperdício muito grande de tempo, e consequentemente de vida.

Para que ficar registrando fatos que já aconteceram, ou inventando histórias que não aconteceram apenas para ilustrar ideias? Se quiser me expor aos outros, não há necessidade alguma de ficar desperdiçando horas, dias, meses, anos, inutilmente. É mais eficaz sair pela noite e me deixar acontecer na medida em que as pessoas forem me conhecendo, pela palavra e pela imagem. Como há muito tempo atrás.

Mas lembro das palavras da Roberta, da necessidade de abrir a cabeça das pessoas, e me consola pensar que o livro atinge um universo maior. Sei que escrevo não porque enxergo melhor do que as outras pessoas, não porque quero acrescentar algo ao que os outros pensam, mas porque gostaria de fazer com que enxergassem o que elas próprias pensam e sonham, como se as minhas páginas fossem a superfície de seus espelhos pela manhã.

Estou ficando muito sério para um domingo de chuva, e esse não é o objetivo. Ouço agora uma coletânea de rocks antigos em que Bobby Vee canta Devil or Angel, e inevitavelmente me ocorre Marcela. “Devil or Angel, I can’t make up my mind / Which one you are – I’d like to wake up and find / Devil or Angel Dear, whichever you are / I miss you, I miss you, I miss you.”

Devil or Angel? Se não sabemos de nada, para que ficarmos atribuindo valores aos sentimentos? É melhor tentar outras dimensões. Fellini, por exemplo, redescobriu as dimensões visuais do pensamento e as transformou em imagem. Presente, passado, futuro, sonho, fantasia, realidade, todos esses planos da vida no plano vazio de uma tela branca.

Mas hoje eu já ficaria infinitamente satisfeito se conseguisse ao menos redescobrir  a minha cara no espelho.

 

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