O DETERMINISMO DO DESENCONTRO

 
Um mês após o ensaio, sem notícias de Fernanda, Thomas não aguenta e vai ao apartamento dela, com os cromos debaixo do braço.

“Não mora mais aqui, não senhor. Mudou-se para o estrangeiro”, disse o zelador.

Thomas sempre acreditou mais no determinismo dos desencontros do que no pragmatismo dos encontros. A vida para ele não se faz na simplicidade do encontro, mas no acaso dos desencontros. O encontro é rotina, é planejado, o desencontro é o acaso, o inesperado. O primeiro é o cotidiano, a repetição de gestos planejados, o segundo acontece quando gestos jamais esboçados se transformam em realidade.

Tudo isso apenas para dizer que os dois acabaram se encontrando somente um ano depois, graças ao determinismo das noites de São Paulo. O encontro foi em um forró nostálgico-existencialista na casa de Robert, amigo comum, jornalista, que estava de partida para Roma. Thomas deveria encontrar uma amiga que não apareceu, e lá estava Fernanda.

Introduzida por Robert no jornalismo de esquerda da época, Fernanda já estava com uma cabeça completamente diferente da apocalíptica do ponto do ônibus. Trabalhava como editora de variedades em um grande jornal de São Paulo e escrevia sobre teatro e cinema.

Havia mudado muito, mas continuava uma mulher fascinante, de cabeça e corpo. Depois de algumas garrafas de vinho confidenciou a Thomas que estava saindo de um romance com Robert, muito machucada, muito apaixonada e amargurada com a viagem dele.

Estavam juntos há oito meses morando em São Paulo, e agora ele ia passar dois anos em Roma, sem ela. Era para os dois viajarem juntos, mas o projeto não dera certo por causa do temperamento do Robert, que dava prioridade ao trabalho, antes de tudo, inclusive mulher.

Lá pelas duas horas da manhã, meio bêbado e fascinado pela nova Fernanda, Thomas sugeriu que ela fosse dormir em seu apartamento, convite esse que foi delicadamente recusado.

“Minha cabeça está em outra hoje, Thomas. Eu não seria uma boa companheira esta noite.”

Grosseiro, indelicado, ele insistiu. Mais por gula do que por tesão. Em sua lógica de bêbado, de repente não fazia o menor sentido adiar uma noite de amor com Fernanda para outra noite qualquer. Insistiu, inexplicavelmente, e a conversa começou a baixar de nível. Ela também já não estava muito sóbria.

“Não, Thomas, hoje não, e isso é tudo. Não posso sair pela noite abrindo as pernas sem vontade, como uma puta. Você entende?”

“Nós nos amamos virgens, Fernanda”, retrucou ridiculamente sem concluir nada.

“Isso não tem nenhum significado para este momento e além do mais também não faz você dono da minha boceta”, apelou com a voz um pouco alta.

A palavra boceta atravessou a sala em um momento de silêncio.

Thomas mudou de tática, mas continuou insistindo e disse que as fotos do ensaio haviam ficado maravilhosas, muito melhor do que haviam concebido. Ela acabou ficando curiosa e concordou, vencida pelo cansaço, em ir ao seu apartamento sob o pretexto de ver as fotos.

Naquela época ele morava sozinho em um apartamento de dois quartos, um deles transformado em estúdio. Logo que entraram colocou nas mãos de Fernanda o material do ensaio e ela se acomodou na mesa de luz para analisar os cromos. Remexeu todo o material com muito interesse, mas Thomas continuava com a ideia firme de levá-la para a cama.

“Você já tentou publicar esse material?”

“Já”, respondeu, sentando-se ao seu lado. “Primeiro na Photo francesa, mas a resposta foi negativa. Eles gostaram do material, mas pediram para reenviar em outra época, pois as matérias dos próximos seis meses já estavam mais ou menos esquematizadas e o ensaio não se encaixava, não dava equilíbrio.”

Antes que a conversa pudesse enveredar definitivamente pelos caminhos tortuosos da fotografia, puxou a cabeça de Fernanda e procurou a sua boca. Ela não recusou, mas também não demonstrou o maior entusiasmo. Escorregou a mão por baixo da blusa e começou a acariciar-lhe os seios, tentando despertar-lhe o desejo, mas as suas mãos pareciam mais incomodar do que excitar. Ela não oferecia nenhuma resistência, mas também não manifestava o menor gesto de aprovação ou prazer.

“Quando eu disse que hoje não queria, Thomas, era verdade.”

“Estou percebendo.”

Thomas não conseguia admitir a menor possibilidade de fracasso na tentativa de excitá-la, e foi ficando cada vez mais inconveniente. A cada investida dele ela repetia as mesmas coisas – que não queria, que a cabeça estava longe – mas nada o fazia desistir.

Aos poucos foi tirando as suas peças de roupa e percorrendo todo o seu corpo com a boca, mas ela reagia com frieza. Acabaram nus, absolutamente contra a vontade dela. Ele mordeu levemente os seus peitos, com carinho, e ela reclamou de forma mais decidida, dizendo que aquilo a incomodava.

Esgotados os recursos mais sutis, apanhou-a nos braços, levou-a para a cama e deitou-se sobre ela. Outra vez ela não ofereceu resistência, mas também não mostrou vontade. Tentou penetrá-la, mas nada. O problema agora era com ele, quem havia perdido o tesão era ele.

Começou novamente a percorrer o seu corpo com a boca, beijá-la entre as coxas, procurando excitar agora a si próprio. Já não se importava mais possuí-la quente ou fria, queria simplesmente penetrá-la, como um animal. Sentiu um princípio de ereção, se jogou em cima dela, mas novamente fracassou.

Fernanda ficou apenas prostrada na cama, nua, sem nada falar, como se já tivesse adivinhado antes tudo aquilo que estava acontecendo. E Thomas, perplexo, com cara de idiota, não entendia se fora a bebida, a sua frigidez, os dois – a verdade é que tinha ido guloso ao pote, sem apetite, e se dado mal.

“Eu o preveni”, disse meio desolada.

Levantou-se, começou a recolher as peças de roupas espalhadas pelo chão e continuou o discurso diante do olhar idiota de Thomas, nu, sentado na cama sem saber o que dizer.

“Vocês machos são todos iguais. Quando cismam de comer uma mulher não querem nem saber se ela está com vontade de ser comida, acham que ela tem que estar sempre disponível. Não pensam sequer se vocês próprios estão com vontade, o que interessa é o troféu, a conquista, a penetração, o esperma derramado inutilmente.”

“Está bem, está bem”, interrompeu. “É isso aí mesmo que você está dizendo, eu me comportei como um imbecil, mas nem todos os dias a gente…”

“Não precisa explicar nada. Na verdade estou também um pouco desapontada comigo, como mulher. Deveria ter me comportado de outra forma mais decidida, não deveria ter permitido.”

Nem sempre a magia dos desencontros conduz aos caminhos do sonho, e a noite terminou muito triste, deixando um vazio muito grande dentro dos dois. Ele levou-a para casa, se beijaram, e foi ela quem o consolou ao se despedir.

“Nós conseguiremos superar esta noite.”

 

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