DESPEDIDA

 
Depois do ensaio fotográfico Fernanda sumiu, e os dois apenas se encontraram novamente após alguns anos, e novamente cresceu entre eles uma atração muito forte, uma afinidade muito grande, como da primeira vez.

Quase todas as noites ele ia esperá-la na saída da redação do jornal após o fechamento de seu caderno, ao redor das onze horas, e saíam pela noite. Enquanto a esperava, Thomas escrevia as primeiras linhas de um futuro livro e tomava uma caipirinha em um botequim bem vagabundo, quase em frente ao prédio onde ela trabalhava, na Alameda Barão de Limeira.

Eles viviam a primeira metade da década de 80 e consumiam boa parte de seus dias e suas noites na procura de um caminho para suas vidas. Concordavam em vários pontos quanto às conclusões sobre o passado, mas também discordavam em outros tantos quanto ao futuro. Fernanda era uma intelectual da esquerda militante, por isso, apesar da lucidez sobre a derrota, estava a fim de se engajar cada vez mais, de ir cada vez mais fundo no processo revolucionário, ainda que para isso fosse necessário levar todas as porradas novamente, e novamente ressurgir de todas as derrotas. Era uma mulher atormentada e cheia de contradições.

Thomas havia deixado por um tempo a fotografia e se tornado uma espécie de intelectual executivo, de paletó e gravata. Nunca partia para uma batalha no corpo-a-corpo, a não ser na cama, e aí residia a grande diferença entre os dois. Ela estava certa de que alguma coisa ainda precisava ser feita, de qualquer forma era preciso um gesto, um agitar de mãos, uma atitude, ainda que fosse para pegar novamente em metralhadoras e praticar sequestros ou assaltar bancos.

Quanto a ele, mais objetivo, achava que a rebeldia das minorias políticas não ia levar a lugar algum. Há sempre um momento nas vidas das pessoas em que elas desistem de mudar o mundo, e aquele era o de Thomas – as ideologias que se fodessem. Ele optou por focar no indivíduo, no ser humano – no caso, ele – e que não podia perder a perspectiva do sentido de sua vida.

Uma noite entrou um casal de crianças vendendo flores em um boteco do Largo do Arouche, onde eles estavam. Thomas deu o dinheiro às crianças e entregou uma rosa vermelha à Fernanda, mas para sua surpresa ela explodiu de uma forma totalmente neurótica. Queria a todo custo sacudir as crianças, dar um tranco nelas para ensiná-las a reagir, a lidar com a vida.

“Para continuar a viver pedindo, é melhor tomar uma sacudida”, dizia. Com ela não havia, naqueles dias, separação entre teoria e prática.

Em outra daquelas noites entrou o lendário Sargento Jacaré, uma das testemunhas daqueles tempos, com a sua surrada farda azul e os seus imensos bigodes brancos, tentando resgatar os bêbados com as suas mensagens bíblicas. Deixou-as sobre a nossa mesa, e quando voltou para recolher os donativos ela começou a ficar nervosa como no episódio das crianças. Delicadamente Thomas devolveu as mensagens ao Sargento, sem dinheiro algum.

Naquela noite, como em muitas outras, ele deixou-a num casarão na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, onde um grupo muito grande se reunia, duas vezes por semana, para tentar reabilitar a esquerda no ambiente universitário. Ele nunca manifestou o menor desejo de participar daquelas reuniões, e ela também nunca tentou convencê-lo a ir. Cada um respeitava bastante a posição do outro, apesar de antagônicas na época, e talvez por isso tenha crescido novamente uma afinidade tão grande entre eles naqueles dias.

Mas alguns meses após uma intensa convivência intelectual e amorosa, ora dormindo no apartamento dele, ora em motéis, a apocalíptica Fernanda do ponto do ônibus surpreendeu-o com um convite irrecusável.

“Quer dormir em casa esta noite?”

“Durmo,” respondeu de susto. “Mas e a amiga com quem você divide o apartamento?”

“Eu dou um jeito.”

Thomas continuou a beber como se nada houvesse sido alterado no vai-e-vem daquelas noites, mas ficou intrigado com o convite. Sentiu também Fernanda um pouco estranha, havia deixado o uísque e alternava entre cerveja e steinhagger. Quanto a ele continuou no uísque, mas antes que a bebida pudesse colocá-lo à vontade diante daquela situação nova, lá estavam os dois, meio chumbados, na porta do prédio.

O apartamento ficava na Rua Avanhandava e era um imenso sala-dormitório, tão grande que certamente se tratava de um dois ou três quartos, onde haviam sido derrubadas as paredes. Os móveis, carpetes, cortinas, era tudo imensamente branco. Até mesmo o equipamento de som e as caixas acústicas haviam sido pintados de branco.

Fernanda colocou um disco do Roxy Music e encheu dois copos de vodca com gelo. Não fez nem muito charme, e em pouco tempo estavam rolando nus pelo imenso e felpudo carpete branco, que parecia um lençol de nuvens sem fim.

Depois de muitas idas e vindas, partidas e chegadas, orgasmos ruidosos e corpos suados rolando durante quase toda a madrugada, ela se lembrou de um compromisso. Os dois ainda estavam deitados no chão, nus, ouvindo o mesmo disco, quando Fernanda disse que precisava estar no Guarujá às oito horas da manhã e estava sem carro.

Tomaram um banho e saíram com os corpos quebrados e cansados pelas ruas vazias de São Paulo. Ela pediu para descer pelo velho Caminho do Mar, que na época estava aberto para passeios turísticos. Na descida da Serra, em frente à casa da Marquesa, pediu para parar, queria ver o sol nascer. Eram quase seis horas, e o sol começava a surgir por trás das montanhas. Santos estava ainda coberta por uma névoa fina.

“Foi bom, Thomas, enquanto durou, mas acho melhor agora nos darmos novamente um tempo. A nossa ligação tem sido tão intensa, que às vezes nos repele. Na verdade somos dose muito forte um para o outro. Acho que jamais conseguiremos viver mais do que alguns meses juntos, sem nos saturar. Eu gostaria mesmo é de voltar a ver você daqui a algum tempo, muito longe deste lugar, para vivermos novamente mais um tempo juntos. E depois sumir novamente, para novamente nos encontrarmos em outro lugar, bem longe dos primeiros. Londres, Nova York, Paris, quem sabe?”

“Só então Thomas percebeu que o estranho convite para dormir em sua casa se tratava de uma despedida, e que desta vez novamente não voltaria a vê-la tão cedo.”

 

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