CORPOS PERPLEXOS

 
Num ponto qualquer da viagem os nossos corpos pareceram perder todo o mistério e a minha boca parou bruscamente em teu sexo. Toda uma história se perdeu naquela não chegada e tudo que havíamos vivido se perdeu na confusão dos nossos corpos perplexos. Chego então a você e digo:

“Joana, vou ter que te deixar.”

Os teus olhos tomaram a forma de uma gigantesca lágrima e rolaram pela noite.

Tudo aconteceu porque uma noite o nosso caminho retrocedeu a um tempo anterior a nós e por ele surgiu uma mulher toda vestida de azul, com muita força nas mãos, caminhando sobre as rosas que deveriam nos subir aos olhos.

Pássaros livres que um dia fomos, durante algum tempo continuamos pela vida com as nossas asas quebradas pelo vai-e-vem das noites confusas que os outros inventaram para nós, mas resistimos.

Mesmo distantes sempre houve a certeza de que um dia amanheceríamos novamente juntos, os corpos nus e perfumados, envoltos na amplidão de um lençol sem fim.

E nus os nossos corpos novamente se encontrariam, mas dessa vez eu seria ainda mais teu e você ainda mais minha – como jamais dois seres humanos se pertenceram – e todo o amor que existisse no mundo seria nosso.

Não consigo encontrar você em parte alguma, Joana. Estive à tua procura hoje, ontem, anteontem também. Quem sabe amanhã, novamente. Foram mais de mil os olhos em que não te encontrei, mais de mil as bocas, as mãos, e o meu corpo já começa a sentir o cansaço da caminhada.

Hoje revi todas as nossas fotografias e recordei com desejo a minha loucura de contemplar em silêncio o teu corpo nu caminhando ao lado do meu naquela praia deserta, e depois o nosso amor girando e girando, e as árvores girando em torno de nós, e você deitada ao longo do meu caminho, e eu viajando em você.

 

Teu corpo prometido ao meu Teu corpo prometido ao meu Plano de Viagem Home