COMMUNIQUÉE, COMMUNICATIONS, COMMUNICATIO

 

Olho todo o texto, tudo o que escrevi até agora – numa espécie de revisão final. Não com os olhos nas linhas, nos parágrafos, mas em todas as imagens de uma só vez para ver o que falta, o que ficou para trás, o que não foi registrado.

Estou deitado na areia branca de uma praia e o meu quarto está mais escuro do que as outras vezes. Uma longa faixa de areia branca se estende na horizontal, do west end para o east end, como o movimento das carruagens nos westerns da Paramount. As imagens desfilam da esquerda para a direita, como em um filme sem fim, e constato: não falta nada. Mas é uma constatação que não resiste à menor análise. Se falta, fica para outra. Afinal, quem decide sobre o que faz e o que não faz parte? Como saber o que faz e o que não faz parte de nossa vida? É tudo apenas uma questão de limites pessoais, individuais, subjetivos, sem respostas.

O som da música Follow Me Home vem do horizonte, por cima do mar, e chega com as ondas, nas areias brancas de Cabo Frio. Todos dançam na praia, ao som do Dire Straits. Depois, mais românticos, ao som de James Taylor.

As pessoas se tocam, se abraçam, se amam, têm amigos. As imensas caixas acústicas instaladas em frente ao Hotel Malibu rebatem, para os que dançam, o som que vem do mar. As ondas se desenrolam verdes, em degradê, e depois se decompõem em azul, mais ao fundo. Céu cinza chumbo, também se decompondo em degradê cinza mais escuro, pesado. E o sol tentando aparecer, por trás de todo esse cenário.

Não preciso me preocupar com a luz agora, ela é natural, difusa, não incidente, não exige controle. Ela ilumina todo o pessoal – sem sombras, sem contraluz, sem efeitos – e faz as pessoas brilharem, deixando uma aura ao redor de seus corpos. As auras de uns se misturam com as auras de outros, que se abraçam a outros, de outros tempos.

E todos descem também as escadarias brancas do Sacré-Coeur, agora longe das areias de Cabo Frio, mas não por muito tempo. Solo de guitarra de David Knopfler. As pessoas estão começando a ficar agitadas, o cenário é apaixonante e sem fim – o fim é o horizonte.

Communiquée. Communicatio. Communication. O som do Dire Straits invade novamente a praia, como naquele ônibus executivo no percurso Jardim São Luiz-Teatro Municipal, como naquele teatro maluco, em Roma. Por incrível que pareça, por pura ironia, Communiquée pode ser a música do fim. Pura ironia.

O pessoal todo do Great Balls está na praia e também está comigo naquela plateia em Roma. As ondas começam a cobrir os seus corpos e eles recitam poesias. Os solos de guitarra continuam vindo do mar, com o vento, e Communiquée em várias línguas.

Assim que a tarde inicia o seu caminho em direção ao crepúsculo as nuvens cinza se dissipam e um sol insano começa a fascinar os meus amigos, a mexer com as suas cabeças, e elas brilham mais fortes, e aumentam as auras ao redor dos seus corpos. Na perspectiva do sol se pôr e na possibilidade de ser o último, um anjo transparente desce e sugere a todos a contemplação do pôr-do-sol na Armação.

E seguem todos para Búzios.

“Malu Mader te amo”, está escrito na parede da loja da Benetton. Nós também. A contemplação do pôr do sol em Búzios tem o mesmo fascínio de Porto Piano. Uma loira de vestido rasgado que dança no Chez Michou deixa o seu crepe e adere.

Na Praça dos Ossos todos se abraçam, na perspectiva da despedida, mas mesmo no amor optam por se separar, como na vida. Uns decidem ficar nos Ossos, outros vão para a Azeda e outros para a Armação. A contemplação do pôr do sol é individual, só existe um em cada cabeça, não há a menor possibilidade de redundância nesse tipo de sensação.

Decido ficar no fim da Armação, sentado perto do barco de um pescador. A loira do Chez Michou estende uma toalha na minha frente e senta em posição de lótus. Um mistério e um fascínio que nunca será desvendado.

Levanto, saio procurando os amigos pelo quarto e constato que estou sozinho.

 

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