COMA

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Passei dias e dias solitário e perdido naquela praia até que desmaiei, e somente fui resgatado depois de muito tempo. É difícil precisar o tempo que fiquei em estado de delírio em Nigger Bay. Era uma noite de verão quando recuperei a consciência, e me vi em um quarto branco muito quente.

Uma luz muito forte iluminava internamente o meu corpo, com as radiações fluindo do plexo solar para as extremidades. Via o sangue correndo em minhas veias, os órgãos funcionando, sentia-me quase transparente. As imagens prometidas começaram a aparecer: terminais de computadores, ventiladores funcionando, mapas, calculadoras sobre as mesas, calendários, mas agora imagens de um tempo passado, não de uma história futura.

“Você sabe há quanto tempo está dormindo?”

“Não faço ideia, mãe. Há quanto tempo você está aqui?”

“Devo ter chegado logo após você ter dormido. Faz muito tempo.”

“Não sabia se era o que você queria. Decidi respeitar a sua partida.”

“Dor no peito que eu sinto.”

“Ainda existem confetes do último carnaval espalhados por toda a casa, por todos os quartos por onde você e Joana fizeram amor. É preciso abrir as janelas.”

Acordei para aquelas últimas manhãs dos últimos dias do último mês da última década do século sangrando ainda, amargando a ressaca de um suposto livro que eu havia publicado na Web. Ouvi as últimas palavras da minha mãe e disse a mim mesmo que se voltasse a escrever tudo desta vez seria diferente. Não haveria rock, nostalgia e nem conflitos intelectuais, o foco estaria, antes de tudo, no desvendar do mistério que impulsionava a minha obsessão por escrever.

“Esquece tudo isso, Thomas, a vida é como uma grande festa. Quando você nasce recebe um convite que não pode ser recusado, que não pode ser devolvido, senão depois que se morre. É uma festa para a qual você é convocado, não convidado. Nos momentos de crise você pode usar máscaras, se esconder pelos quartos, cozinha, banheiros, sair para os jardins, mas a fuga não é permitida. Os muros da casa onde acontece essa festa são muito altos, e não permitem a fuga.”

“Às vezes tenho vontade de rasgar os bilhetes e me retirar dessa festa.”

“Você já deixou a festa, filho.”

“Quem está sentada aí fora, mãe?”

“É uma pessoa que esperou por muito tempo, e quer ver você.”

“Peça para ela entrar, mãe, mas fica comigo.”

“Preciso ir filho, vou fazê-la entrar.”

O ventilador sobre a minha cama estava desligado, mas o vento que entrava pela janela fazia as pás girarem lentamente, como a vida chegando e desaparecendo, surgindo apenas em pequenos intervalos de tempo, como uma brisa. O abajur ligado projetava na parede as sombras das pás em movimento.

“Como vai, Thomas?”

“Sem a sua presença talvez fosse pior, Fernanda.”

“Eu sei. Por isso vim.”

“Os seus olhos estão ardendo de desejo.”

“Como é que você sabe?”

“Pelos seus lábios, pelo seu sexo, que lateja em minha mão.”

“Você não devia enfiar a mão por dentro das minhas calcinhas.”

“Elas estão molhadas.”

“É porque gozei enquanto te esperava.”

“Quanto tempo falta ainda, Fernanda?”

“Não sei, talvez não muito.”

Fernanda tentava me levar de volta à casa onde havia uma grande festa, eu ouvia as pessoas me chamarem, mas os intervalos de tempo do vento foram ficando mais curtos, até que as pás do ventilador…

…pararam de girar.

 

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