CAMINHO

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Terminada a liturgia da preparação para a grande noite, Thomas parte para o local da exibição em seu próprio carro.

Coloca um disco no CD player e desce a Rua Augusta, a mesma da noite onde tudo começou no livro anterior. Era como se a história se repetisse. Dirige lentamente contemplando a noite, fotografando com a mente o seu tempo.

Noite fria e triste, como da primeira vez, e envenenada de um câncer gerado há muito tempo. As pessoas caminham apressadas, com as mãos enfiadas nos bolsos de seus pesados casacos.

Toda a engrenagem luminosa funciona perfeitamente. Uma puta no ponto do ônibus acena e ele retribue o gesto. Um mendigo forra a sua noite com um jornal velho e se prepara para dormir. Na outra calçada um bêbado encosta os lábios na vitrine de uma loja de eletrodomésticos e beija uma bunda digital na TV.

Noite imensa, cruel, sem fim. É o tempo em suas veias. Tempo puro, em sua essência.

No semáforo é abordado por um garota que circula entre os carros em cima de um skate.A menina se aproxima e diz:

“É noite, continua escuro, e eu continuo gritando, como você. Estourou a veia de um anjo sobre a minha cabeça, e eu estou todo molhada de morte.”

“Vai desistir?”, ele pergunta.

“Não! Eu vou continuar gritando, até morrer.”

“Até mesmo a miséria está ficando romântica e poética”, pensa Thomas. “Veja que milagres já realiza a síndrome do acesso universal e imediato ao saber.”

Tenta continuar a conversa com o garota, mas um sinal verde impede a continuação do diálogo.

 

A entrega do CD Show Plano de Viagem Home