ARQUIVOS DESAPARECIDOS

 
Joana aproveita a deixa de Roberta e tira a carta seguinte.

“Thomas vai ao encontro de Marcela em seu apartamento. Ela está preocupada com um texto que havia lido, cuja cena se passava em um lugar onde havia um cemitério de automóveis. Era algo muito tenebroso. O nome do arquivo era final.htm. Thomas surpreende-se que ela tenha conseguido ler aquele arquivo.”

“A sensação que tive ao ler esse texto foi a de que os dois capítulos mencionados foram lidos acidentalmente, um por Paula e o outro por Marcela, e ninguém deveria ter acesso a eles pois faziam parte de um grande final que ele não queria contar para ninguém. Não se tratava do final de um livro, mas de algo mais complexo que ele não queria adiantar a ninguém.”

Marcela ficou intrigada com a explicação de Joana para o arquivo desaparecido.

“O que você quis dizer com algo mais complexo?” perguntou a ela.

“Não sei. Algo mais complexo. Tão complexo, inclusive para o Thomas, que talvez tivesse que ser resolvido antes dentro dele para depois ser divulgado.”

Marcela se perdeu um pouco na explicação de Joana, mas narrou de sua forma.

“Nessa noite eu realmente havia lido um texto muito tenebroso e quando Thomas chegou, depois de eu ter cochilado um pouco, ele ficou muito surpreso quando contei a ele. Tentou abrir o arquivo mas não achou, disse que não estava no laptop, e eu achei que tinha sonhado.”

“Ele pode simplesmente ter deletado o arquivo e dito a você que não encontrou. Apertou uma tecla mágica e transformou a sua preocupação em um sonho. Simples assim. Mas e você, Marcela, como se sente como um personagem real dessa história toda? Meu palpite é que a sua história é a mais real, atual demais para uma ficção.”

“Não me importo muito com o fato dessa história ir para o papel, internet ou qualquer outra mídia. Vejo algumas de vocês preocupadas com a exposição de suas vidas mas eu não sei nem sei o tamanho disso. Quantas pessoas irão ler, quais pessoas se interessarão, qual a dimensão disso tudo? Não sei nem quais de vocês leram tudo e quais leram parte. Na vida real eu convivia com a culpa de ter sido a provável causadora da separação de vocês, mas as palavras que você disse há pouco me deixam mais tranquila.”

“Como você conheceu o Thomas?”, perguntou Roberta. Ela conhecia o texto, não gostava muito de Marcela, e resolveu checar.

“Nos conhecemos na Aliança Francesa e na primeira aula já rolou uma atração. Eu tinha namorado, ele era casado, não escondemos isso um do outro, e começamos a sair até que um dia fomos parar em um motel. Alguns meses depois veio a separação deles, me senti culpada sem ter certeza de nada, e continuamos o nosso relacionamento, morando em casas separadas.

Houve um silêncio, Roberta parecia aguardar a continuação.

“Isso bate com o que você leu nos textos, Roberta?”

O sorriso de Marcela ao colocar a pergunta fez com que ela não respondesse à provocação. Não satisfeita com o silêncio, Marcela continuou:

“Você está esperando mais detalhes? Se o nosso sexo é bom? Se Thomas vai à igreja todos os domingos? Se ele continua comendo outras?”

“Não, estava só pensando. É que não acho boa a ideia de expor os amigos em uma história da vida real, mas foi o que ele quis fazer e não sou eu quem vai impedi-lo, pelo contrário, estou apoiando. Apoio o projeto do livro, não da exposição da vida de seus amigos e relacionamentos, essa parte é responsabilidade dele.”

“E vocês? Onde se conheceram?”, perguntou Marcela trocando de posição.

“Nos conhecemos em Praga, em uma oficina de dança xamânica, numa época em que estávamos meio perdidos em nossas buscas. O texto passa a impressão que nos conhecemos porque eu casei com Alex, seu amigo de infância, quando na verdade nos conhecemos e casamos porque Thomas nos apresentou. Tivemos um relacionamento em Praga, mas quando voltamos casamos com outras pessoas.”

“Talvez isso não tenha relevância na história dele”, alfinetou Marcela.

“Você não sabe de nada, Marcela, não faz a menor ideia do que é importante para ele. Aliás, você não faz a menor ideia de nada.”

Tudo era dito sempre no tom mais cordial possível, era como se aquelas pessoas fossem mesmo apenas intérpretes daqueles personagens e portanto não havia motivos para ciúmes, raiva ou elevação do tom de voz.

Fred continuava a achar tudo aquilo muito estranho, chegou a cogitar que poderia ser mesmo uma representação, mas eles estariam representando para quem? Para ele? Não fazia nenhum sentido. Os textos já estavam escritos.

 

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