APENAS ALGUMAS COISAS ACONTECERAM

 

Joana se adiantou para tirar a próxima carta. Leu antes o texto, em silêncio, depois balançou a cabeça num gesto que poderia significar qualquer coisa.

“Thomas e Fernanda saem caminhando pela noite de Paris e cruzam com uma procissão que acompanha um enterro, encontram um cego falando sozinho, depois um punk que pede algo a Fernanda e no final ela diz ser a morta por quem toda aquela multidão chora. Depois que o enterro se foi o céu fez-se mais escuro e as pessoas foram aos poucos desaparecendo das ruas até que Thomas e Fernanda ficam sozinhos na noite. Caminham pelo Champs Elysées e fazem amor em um banco da avenida. Um Concorde faz um voo rasante ao longo dos Champs Elysées”.  

“Nesse texto Thomas envereda por uma estrada que eu não sei se pode ser considerada literatura ou simplesmente a manifestação do imaginário de uma mente delirante, eu não sei qual é o caminho que ele está querendo pegar. Muitos já deliraram ao escrever, alguns por causa de drogas, outros espontaneamente, e outros por loucura mesmo. Não sei em que caso ele se encaixa. Sei que ele não toma drogas e sei também que não é louco. Fico no beco, sem ter para onde ir a não ser voltar, mas voltar para onde? De onde brota esse delírio? Será que mais de uma pessoa o habita?”

“Como assim?”, pergunta Marcela espantada.

“Não sei. Na carta anterior a Fernanda disse que para ele a ficção não basta, e a vida sem ficção também não. Onde colocamos então essas visões de procissões noturnas, pichação do Sacré-Coeur, Paris sem pessoas nas ruas, trepada em pleno Champs-Elysées, voo rasante de um Concorde? Apenas simples metáforas que não entendemos? Sonhos acordados? Pensar assim seria simplificar demais, você não acha, Fernanda?”

“Eu achava que tinha lido todos os textos, mas esse eu não li não. Talvez Thomas tenha sonegado também a mim a leitura de alguns trechos. Por acaso algumas pequenas coisas mencionadas nesse resumo aconteceu, apenas algumas. Uma noite em Paris encontramos um cego que falou conosco, e depois um garoto punk de cabelo espetado e vestido de terno me pediu algo que eu não entendi o que era. Mais tarde, em um determinado momento, ouvimos um barulho muito forte de um avião que parecia voar baixo, mas não vimos avião algum. Talvez Thomas tenha ampliado esses detalhes para escrever esse trecho”.

“Pelo menos não tinha a misteriosa Tristessa nesse capítulo”, disse Marcela.

“Eu era a Tristessa nesse dia”, replicou Fernanda misteriosamente, quase que desdizendo tudo que acabara de falar e trazendo de novo o mistério do texto.

“Às vezes você me deixa arrepiada, Fernanda”.

“Brincadeirinha, sua boba, fica tranquila”.

Durante toda essa conversa Paula ficou muito pensativa, parecia intrigada, chegou a levantar e encostar-se em uma parede para ouvir a conversa fora do ambiente da mesa. Fora ela mesmo quem havia redigido o resumo das cartas e tudo aquilo havia passado batido quando ela leu o texto, mas o caminho que Joana assinalou quando começou a comentar deixou-a intrigada. Será? Será que não é só um delírio bobo de escritor?

 

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