ADOLESCÊNCIA

 
Hoje definitivamente tenho certeza de que deveria ter adivinhado Fernanda desde o começo daquele verão. Ela desceu desfilando por aquela escadaria de mármore e as sombras dos pilares varavam o seu corpo refletido nas nuvens projetadas por todas as paredes do imenso salão. Eu devia ter adivinhado tudo desde aquela noite, mas não pressenti sequer a sugestão da luz subindo pelas suas pernas, desde o bico dos seus sapatos de verniz vermelho até as calcinhas brancas, mal encobertas pela precoce minissaia transparente. Hoje sei que não se pode adivinhar tudo, apesar das luzes e sombras, sempre amalgamando o tempo na contraluz.

Naquela noite, naquele casarão mágico, ela se reapresentou de uma forma poética, brutal e direta que eu jamais conseguiria esquecer.

Meu nome é Fernanda, tenho o tempo atravessado no corpo, como um punhal sangrando as estações que se sucedem no vai-e-vem vazio dos meus passos aprisionados.

Meu nome é Thomas, sei que as rugas do tempo explodem sempre na pele dos nossos encontros, passados e presentes, mas elas fazem você mais bela. Garanto que conseguirá se libertar.

Adolescentes, inspirados, e querendo desta vez impressionar um ao outro, atravessamos a noite à beira da piscina, os pés descalços balançando na água, falando de um tempo de anjos e de doidos, e do caminho até aquela noite. Durante todo o tempo o vento balançava as folhas das árvores que cercavam a casa e a noite emitia um som misterioso, intrigante, que parecia vir do fundo da terra.

De onde você vem? perguntei.

Eu venho lá do outro lado.

E o que é o outro lado?

É o outro lado da ponte, mas pode chamar do que você quiser.

O outro lado da matéria? Do tempo?

Pode ser o outro lado da matéria.

E o que você está fazendo aqui, sentada comigo na beira desta piscina?

Procuro as bonecas perdidas na minha infância, a lã dos carneiros que me agasalharam, a casa onde morei quando pequena, e acima de tudo estava à tua espera. Eu fui a escolhida para te guiar por esta vida.

E a conversa rolou assim meio estranha, durante toda a noite.

“Que língua é essa em que estamos conversando, Fernanda?”

“Não se preocupe, é um código, uma língua de centenas de anos atrás.”

“E porque estamos falando nesse código?”

“Porque nele as nossas palavras ficarão guardadas em um lugar especial e poderemos nos lembrar em outras vidas caso venhamos a nos encontrar.”

“Já nos encontramos no passado? Você consegue saber isso?”

“Sim, a última vez foi por volta do ano de 1500, na Itália renascentista.”

“E porque você consegue saber e eu não?”

“Cada um de nós tem um caminho a percorrer em cada vida e eu já percorri mais caminhos do que você.”

Quanto andamos até agora em nossa história? perguntei quando o dia já começava a clarear.

Não sei, é sempre o mesmo grito de angústia, o mesmo vazio, o mesmo nada, a mesma perplexidade de não entender. Sei que andei mais do que você, por isso sei mais coisas, mas não sei o quanto andamos. Acho que somos muito novos, ainda. Mas iremos nos encontrar outras vezes, em outras vidas, sempre procurando por janelas e portas para passarmos. Algumas vezes você as mostrará a mim, outras eu a você. A última porta, nesta vida, serei eu a mostrá-la, e você a atravessá-la.

Quando estava escrevendo A Solidão dos Sobreviventes, contei a Alex sobre essa noite adolescente, meio bêbado, em uma mesa esfumaçada do Great Balls.

Mas essa noite mágica sempre me escapa quando tento reconstitui-la no papel. Na minha cabeça ela está completamente viva, as pessoas estão vivas, falando, e as músicas ainda me chegam, vindas do grande salão. Eu e Fernanda conversando a noite toda à beira da piscina, com a água azul se decompondo em marolas aos nossos pés. Mas as palavras escritas sempre constituem uma barreira quando precisamos fazer uso delas, por isso essa noite sempre me chega apenas em golfadas, fluindo e refluindo, como as ondas do mar. Essas imagens não são estáticas, não estão sempre disponíveis, é preciso registrá-las cada vez que as suas ondas rebentam na praia da memória.

Última troca de palavras naquela noite, um pouco antes da manhã nascer:

Fernanda, eu desejo você.

Eu quero que você me ensine o amor esta noite, Thomas.

Não há o que ensinar. O ato de amor deve ser sempre um gesto novo, um novo despertar, não devemos nunca trazer para ele as descobertas de experiências passadas.

Tenho um pouco de medo de que o amor nos una mais do que a vida nos reservou. Que faremos se acontecer um amor muito forte entre nós?

Viveremos juntos, com a consciência de todas as dificuldades que uma união carrega, enquanto esse amor nos mantiver unidos.

Tenho um pouco de medo do futuro.

Quando somos jovens o tempo não existe, vivemos apenas o instante, o importante é o agora. Não existe o passado e também não existe o futuro.

E o que já vivemos? E o que vamos viver?

Ganhamos experiência com o que vivemos, mas não vamos conseguir nunca resgatar esses momentos. Quanto ao futuro, podemos esperá-lo, mas não temos certeza se ele existirá.

Depois que as palavras silenciaram, o grito do chacal despertou os nossos corpos para o sexo, e debaixo dos lençóis amarrotados eles se prenderam, nus e surpresos, e os mistérios da vida e da morte foram determinados por uma vontade de amor adolescente.

Como é que você se sente?

Completa.

 

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