A SURPRESA DE ALEX

 
A próxima surpresa da noite ficou por conta de Alex. Surpreendendo a todos ele tirou uma carta do bolso, colocou sobre a mesa, e se apresentou como o próximo a falar.

“De onde você tirou essa carta?”, perguntou Paula surpresa.

“Caiu do bolso do Thomas quando ele passou por mim.”

“Isso não é possível, explique melhor”, insistiu Paula.

“Estou brincando, é que vi esse baralho na sala ao lado e coloquei uma carta no bolso.”

Ela lançou um olhar de quem não entendeu bem a explicação, esboçou o gesto de quem ia continuar a questionar, mas Alex seguiu em frente e começou a ler o que estava escrito.

“Thomas discute com Roberta, em um terraço, sobre o evento em realidade virtual, mas depois de alguns momentos de tensão ela acaba pedindo a ele para que a fotografe. Eles vão para o apartamento dela e fazem uma sessão em branco e preto, inspirado nas fotos que Helmut Newton fez da Charlotte Rampling em um hotel na Côte D´Azur, algumas décadas atrás. No final da sessão ela sugeriu a ele que as mostrasse para Fernanda, disse que ela iria gostar.”

Ele dá uma olhada para Roberta antes de começar a comentar e dispara:

É difícil encontrar em todo o livro uma única cena em que Thomas e Roberta não estejam discutindo. Não acho que eles se odeiem ou não se gostem, essa é a forma de convivência deles.

Com o pouco que sabia da história, achei que Alex fosse ficar embaraçado pelo amigo de infância ter fotografado sua ex-mulher no apartamento dela, mas ele levou o assunto para outro caminho. Talvez nem conhecesse Helmut Newton, e muito menos que o ensaio mencionado era uma sequência de nudez na luz ambiente de um hotel.

“Nosso relacionamento é assim mesmo, de amor e ódio. Muita discussão, tensão, adrenalina, é assim que produzimos, disse Roberta.”

“E sempre foi assim? O combustível de vocês para a criação é sempre a divergência de pontos de vista?”, perguntou Paula.

“Muito lá atrás talvez não, mas de um tempo para cá sim, e acho isso extremamente natural num processo de relação entre criador e produtor”.

O desconforto, para mim, é que eles discutiam o texto do suposto livro vestindo rigorosamente o papel do personagem! Era como se o livro fosse um registro fiel do que aconteceu na vida daquelas pessoas, não era algo inspirado na vida deles – era a própria vida deles. E apesar de tudo aquilo ser muito estranho, eu não tinha motivos para duvidar, pois estava com as próprias pessoas e tinha lido um texto que continha o que eles discutiam. Muito rapidamente, mas li.

“Porque você pediu para Thomas te fotografar?”, perguntou Paula.

“Não sei, verdadeiramente não sei, não lembro. Talvez tenha sido para quebrar a tensão em que estávamos na discussão de um trabalho. Ou talvez ele tenha pedido para me fotografar, realmente não lembro.”

“É uma pena não termos o Thomas aqui nessa mesa, mas e você Fernanda, gostou das fotos?”

“Não me lembro de muito mais desse capítulo além do que já foi dito no resumo, e também não cheguei a ver essas fotos, Thomas apenas me disse que não ficaram boas.”

“Pena você não ter visto as fotos”, disse Roberta. “Eu também não vi, mas tenho certeza que você iria adorar”.

“Porque eu iria gostar?”

“Não sei bem como explicar, mas me pareceu que ele fez essas fotos para mostrar a você.”

“Alguém viu essas fotos?”, perguntou inocentemente Marcela, mas não houve resposta.

O assunto era delicado, mas todos eram sutis ao colocar as palavras. Eles não subiam o tom e nem alteravam o timbre de voz, de forma que eu ficava sempre perdido nas entrelinhas e nos silêncios. A essa altura eu já estava me pressionando para tirar uma carta também, mas por outro lado achava que o tempo dedicado a esse texto não me dava conhecimento para participar.

“Eu não me lembro desse capítulo”, disse Marcela. “Talvez não tenha lido”.

Com exceção de Paula e Roberta, nem todos tinham lido todos os capítulos. Às vezes por desorganização mesmo, às vezes por decisão do Thomas. Afinal ele já havia me adiantado que nem todos receberiam todos os capítulos, inclusive eu, que não receberia o capítulo final.

“Avalon é uma bela música, bastante sensual”, comentou Paula, que tinha esse texto bem claro em sua cabeça.

Roberta entendeu o recado, tinha consciência de que deveria ter respeitado o relacionamento entre Joana e Thomas, e achou que lhe devia algumas palavras, pelo menos.

“Não sei se você leu esse capítulo, Joana, mas sei que não agi corretamente com você nessa noite das fotos.”

“Eu também não li essas páginas, mas fique tranquila. Como eu já disse, não se preocupem comigo, estou curada do Thomas”.

“A ideia de ver agora um livro de Thomas na internet mencionando o relacionamento de vocês, e o relacionamento dele com outras mulheres, te incomoda?”, pergunta Fernanda.

“Não, com certeza a vida real é bem mais dolorida do que a ficção. Thomas expôs as suas aventuras com outras mulheres enquanto estávamos casados e isso sim foi difícil na época, mas já passou. Se ele agora, na falta de inspiração para criar algo interessante, decidiu expor a própria vida e as das pessoas de seu relacionamento, acho tudo muito pobre. Mas também não o odeio por isso, a dor maior foi mesmo o fim do nosso casamento. O livro é só um acessório, um registro. Ele sempre foi um excelente pai para os nossos filhos, e eu também não fui tão fiel a ele o quanto se possa supor. E isso só não está no texto dele porque ele não sabe.”

“Bom saber disso, é tranquilizador.”

A próxima surpresa da noite ficou por conta de Alex. Surpreendendo a todos ele tirou uma carta do bolso, colocou sobre a mesa, e se apresentou como o próximo a falar.

“De onde você tirou essa carta?”, perguntou Paula surpresa.

“Caiu do bolso do Thomas quando ele passou por mim.”

“Isso não é possível, explique melhor”, insistiu Paula.

“Estou brincando, é que vi esse baralho na sala ao lado e coloquei uma carta no bolso.”

Ela lançou um olhar de quem não entendeu bem a explicação, esboçou o gesto de quem ia continuar a questionar, mas Alex seguiu em frente e começou a ler o que estava escrito.

“Thomas discute com Roberta, em um terraço, sobre o evento em realidade virtual, mas depois de alguns momentos de tensão ela acaba pedindo a ele para que a fotografe. Eles vão para o apartamento dela e fazem uma sessão em branco e preto, inspirado nas fotos que Helmut Newton fez da Charlotte Rampling em um hotel na Côte D´Azur, algumas décadas atrás. No final da sessão ela sugeriu a ele que as mostrasse para Fernanda, disse que ela iria gostar.”

Ele dá uma olhada para Roberta antes de começar a comentar e dispara:

É difícil encontrar em todo o livro uma única cena em que Thomas e Roberta não estejam discutindo. Não acho que eles se odeiem ou não se gostem, essa é a forma de convivência deles.

Com o pouco que sabia da história, achei que Alex fosse ficar embaraçado pelo amigo de infância ter fotografado sua ex-mulher no apartamento dela, mas ele levou o assunto para outro caminho. Talvez nem conhecesse Helmut Newton, e muito menos que o ensaio mencionado era uma sequência de nudez na luz ambiente de um hotel.

“Nosso relacionamento é assim mesmo, de amor e ódio. Muita discussão, tensão, adrenalina, é assim que produzimos, disse Roberta.”

“E sempre foi assim? O combustível de vocês para a criação é sempre a divergência de pontos de vista?”, perguntou Paula.

“Muito lá atrás talvez não, mas de um tempo para cá sim, e acho isso extremamente natural num processo de relação entre criador e produtor”.

O desconforto, para mim, é que eles discutiam o texto do suposto livro vestindo rigorosamente o papel do personagem! Era como se o livro fosse um registro fiel do que aconteceu na vida daquelas pessoas, não era algo inspirado na vida deles – era a própria vida deles. E apesar de tudo aquilo ser muito estranho, eu não tinha motivos para duvidar, pois estava com as próprias pessoas e tinha lido um texto que continha o que eles discutiam. Muito rapidamente, mas li.

“Porque você pediu para Thomas te fotografar?”, perguntou Paula.

“Não sei, verdadeiramente não sei, não lembro. Talvez tenha sido para quebrar a tensão em que estávamos na discussão de um trabalho. Ou talvez ele tenha pedido para me fotografar, realmente não lembro.”

“É uma pena não termos o Thomas aqui nessa mesa, mas e você Fernanda, gostou das fotos?”

“Não me lembro de muito mais desse capítulo além do que já foi dito no resumo, e também não cheguei a ver essas fotos, Thomas apenas me disse que não ficaram boas.”

“Pena você não ter visto as fotos”, disse Roberta. “Eu também não vi, mas tenho certeza que você iria adorar”.

“Porque eu iria gostar?”

“Não sei bem como explicar, mas me pareceu que ele fez essas fotos para mostrar a você.”

“Alguém viu essas fotos?”, perguntou inocentemente Marcela, mas não houve resposta.

O assunto era delicado, mas todos eram sutis ao colocar as palavras. Eles não subiam o tom e nem alteravam o timbre de voz, de forma que eu ficava sempre perdido nas entrelinhas e nos silêncios. A essa altura eu já estava me pressionando para tirar uma carta também, mas por outro lado achava que o tempo dedicado a esse texto não me dava conhecimento para participar.

“Eu não me lembro desse capítulo”, disse Marcela. “Talvez não tenha lido”.

Com exceção de Paula e Roberta, nem todos tinham lido todos os capítulos. Às vezes por desorganização mesmo, às vezes por decisão do Thomas. Afinal ele já havia me adiantado que nem todos receberiam todos os capítulos, inclusive eu, que não receberia o capítulo final.

“Avalon é uma bela música, bastante sensual”, comentou Paula, que tinha esse texto bem claro em sua cabeça.

Roberta entendeu o recado, tinha consciência de que deveria ter respeitado o relacionamento entre Joana e Thomas, e achou que lhe devia algumas palavras, pelo menos.

“Não sei se você leu esse capítulo, Joana, mas sei que não agi corretamente com você nessa noite das fotos.”

“Eu também não li essas páginas, mas fique tranquila. Como eu já disse, não se preocupem comigo, estou curada do Thomas”.

“A ideia de ver agora um livro de Thomas na internet mencionando o relacionamento de vocês, e o relacionamento dele com outras mulheres, te incomoda?”, pergunta Fernanda.

“Não, com certeza a vida real é bem mais dolorida do que a ficção. Thomas expôs as suas aventuras com outras mulheres enquanto estávamos casados e isso sim foi difícil na época, mas já passou. Se ele agora, na falta de inspiração para criar algo interessante, decidiu expor a própria vida e as das pessoas de seu relacionamento, acho tudo muito pobre. Mas também não o odeio por isso, a dor maior foi mesmo o fim do nosso casamento. O livro é só um acessório, um registro. Ele sempre foi um excelente pai para os nossos filhos, e eu também não fui tão fiel a ele o quanto se possa supor. E isso só não está no texto dele porque ele não sabe.”

“Bom saber disso, é tranquilizador.”

 

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