A MESA DA MANDALA

 

Quando descíamos do deck Roberta estava no celular, fez sinal para Thomas esperar, gesticulou que precisava conversar. Ele manda beijos, gesticula de volta informando que falará com ela no dia seguinte, e vai embora. Quando me aproximo dela explico que ele tinha um compromisso logo cedo, ia pegar estrada, daí a pressa. Ela fica furiosa, começa a falar do projeto no qual os dois estão envolvidos, e voltamos ao deck para apanhar o laptop, mas no caminho Paula passa, pega todos pelos braços e seguimos para o interior da casa.

Roberta insiste com Paula para que o segure por mais um tempo, mas antes que ela responda estamos todos diante de uma grande mesa redonda, com um mosaico de mandala no tampo e oito cadeiras. No centro da mesa havia uma pequena caixa de metal redonda, com um desenho no estilo da mesa.

“Gente, isto é uma mesa de mandala, mas estamos aqui apenas para beber, comer e jogar conversa fora sobre o livro de Thomas, não tem nada de místico ou oculto neste encontro”, se antecipou Paula. “Em todo caso, se acharem melhor, sentem apenas com o peso de seus corpos e deixem as 21 gramas de suas almas de fora. A comunicação ficará mais racional, mais leve, sem indagações profundas para as quais não iríamos mesmo encontrar respostas.”

Paula começava a falar coisas que não me diziam nada e antes de sentar solto uma bobagem qualquer apenas para manifestar a minha estranheza.

“Não sei exatamente do que você está falando, por isso na dúvida sento sem a alma, mas a deixo pendurada no espaldar da cadeira para o caso de precisar dela.”

Risos eufóricos de Marcela, que parecia também perdida na conversa, sem saber onde colocar a alma; apenas um leve sorriso nos lábios dos outros.

Após sentarmos, uma cadeira ficou vazia. Focado que estava na história em que começava a entrar, deduzi sem dificuldade que aquele lugar era o de Thomas e que eu já havia conhecido parte da vida daquelas pessoas nos textos que havia lido.

“Como Thomas está planejando lançar o seu livro na Web e todos nós, de certa forma, estamos nele, o objetivo deste encontro é trocarmos algumas ideias. O Fred, rebatizado de Passenger pelo Thomas, é quem vai criar o design, formatar os textos e disponibilizar na rede, por isso achei que seria interessante ele conhecer todos vocês.”

Ninguém pareceu se surpreender muito com as palavras de Paula, afinal todos se conheciam e essa relação na ficção já fazia parte da vida real deles, mas eu procurava processar cuidadosamente as informações para saber onde estava entrando.

Quando li rapidamente alguns capítulos do texto de Thomas não imaginei que se tratava de uma história com traços tão fortes de realidade e muito menos que sentaria em uma mesa redonda com essas pessoas para falar de suas vidas. E como Paula sabia do nome Passenger, se ela não esteve com o Thomas depois que ele falou da revista Passage?

“A ideia do dado vermelho de oito faces foi abandonada?”, pergunta Roberta.

“O Thomas preferiu as cartas.”

“Isto está me parecendo uma preparação de elenco para os personagens de Tristessa”, comentou Joana.

“Mais ou menos isso, o Passenger precisa conhecer os personagens. E para isto iniciar cada um agora vai escolher e falar, em uma frase ou em um rótulo, sobre como vê o outro personagem na história. Thomas está ausente, mas gostaria que alguém falasse dele também.

O murmúrio foi geral, e de repente pareceu-me que não estavam tão confortáveis na brincadeira como eu imaginava, e antes que o rumor se alastrasse Paula se adiantou.

“Começo eu, falando de Joana, acho que ela é uma pessoa que não carrega rótulos como nós outros, é uma pessoa especial, muito querida de todos.”

“Gostei da generosidade”, disse Marcela. “Já Fernanda é bastante conhecida por um proclamado furor sexual, é uma mulher muito ardente, só que é ela mesma quem espalha a própria fama. Toma cuidado comigo, querida.”

“E Marcela é rotulada como burra, sem cultura”, devolve Fernanda.

“Roberta é famosa pela obsessão no trabalho”, diz Joana, “mas nem por isso deixou de dar uma pegada no Thomas, não é amiga?”

“Thomas é reconhecido pela obsessão em contar a sua história”, diz Alex, desesperançado com o caminho escolhido pelo amigo.

“Alex se destaca por ser avesso à tecnologia, precisa fazer um upgrade do cérebro”, diz Roberta.

Vi que apenas eu não havia falado, mas como conhecia Paula arrisquei. “Estou chegando agora, mas imagino que Paula seja rotulada como bruxa, esotérica, e coisas afins. Quanto a mim, se me permitem, sou apenas o sujeito que tem agora um sonho idiota de colocar um livro na Web, que nem de minha autoria é, mas de Thomas.”
Marcela olhou para mim, checou se eu já havia concluído a fala, e não conseguindo conter a curiosidade lançou a pergunta.

“O que tem dentro dessa caixa no centro da mesa? ”

“Um baralho”, respondeu Paula.

“De jogo ou de ver o futuro? ”

Provavelmente Paula esperava falar sobre o baralho apenas mais tarde, mas diante da pergunta de Marcela sentiu-se obrigada a antecipar uma etapa da noite. Abriu a caixa, retirou o baralho e estendeu as cartas sobre a mesa.

“Este baralho tem 61 cartas e em cada uma delas há o resumo de um capítulo do livro que todos vocês conhecem bem, ou parte dele, talvez. A ideia da brincadeira é que cada um tire uma carta, leia o resumo e faça seu comentário sobre o capítulo. ”

Um breve silêncio, troca de olhares embaçados, um vazio suspenso no aroma das taças de vinho, mas Paula seguiu em frente.

“Qual é, gente! Que estranhamento é esse? Isto vai virar um livro na internet e todos terão acesso a esses textos no futuro. Qual o problema de conversarmos sobre isso entre nós?”

“Para mim nenhum” retrucou Joana, “mas eu não me lembro de tudo que li e nem sei se li todos os arquivos que recebi.”

“Não é necessário que se fale apenas sobre o texto expresso, pode-se falar também sobre o não explicito mas conhecido, e até eventualmente sobre o ocultado no texto, caso a pessoa conheça a história toda. E todos podem e devem fazer perguntas a quem retirou a carta. E depois cada um pode ficar com as cartas que leu como lembrança desta noite. As que sobrarem ficam para o nosso próximo encontro.”

Distraída, desconcentrada, Marcela olhou para o lado e descobriu um objeto interessante em um dos cantos do ambiente.

“Que ampulheta imensa!”, disse admirada. “Nunca vi uma tão grande assim.”

A ampulheta tinha um metro de altura e alguns levantaram-se para vê-la de perto, bastante impressionados. Paula explicou que era um objeto antigo, de família, toda feita em madeira com dois imensos cones de vidro, e que era um símbolo muito importante para ela.

“Uma ampulheta serve para nos informar sobre a transitoriedade da vida. A areia escorrendo pelo orifício entre os cones nos lembra de que a vida  corpórea é finita, que o tempo é apenas o instante em que grãos de areia passam de um cone a outro, e fora do instante não existe o tempo.”

Informação abstrata demais para mim, que não esperava por divagações metafísicas naquela noite. Olhamos todos para Paula, sem perguntas, e ela nos convidou para sentarmos novamente à mesa.

Eu me sentia completamente sem informações para participar daquilo tudo, não sabia nem se deveria tirar uma carta a qualquer momento, e pedi ajuda a Paula.

“Essa história que está no CD é real? Tenho que perguntar isso antes de começarmos. Os nomes das pessoas que estão na mesa são os mesmos que li no texto!”

Antes que Paula pudesse reagir Roberta se antecipou.

“Eu esperava mesmo que você fizesse essa pergunta, Fred. Vou passar algumas informações e depois deixo para todos o processamento da resposta. Fala-se que Tristessa é a ‘Solidão dos Sobreviventes’ versão Web, mas isso não é correto. Na produção da versão digital Thomas apenas pediu a essas pessoas que você está vendo ao redor da mesa, que fizessem o papel dos personagens, na interação com os leitores e com a mídia, e nós concordamos. Durante a reescrita dos textos recebemos arquivos com os capítulos, para que pudéssemos começar a nos colocar no papel dos personagens, mas a coisa desandou um pouco durante esse período e os textos antigos acabaram se modificando.”

O que você quer dizer com desandou?

Não tenho como te responder exatamente porque nunca discutimos isso entre nós, essas discussões só existiram entre Thomas e cada uma de nós, separadamente. Hoje nós estaremos discutindo pela primeira vez, e ainda que tenha lido esse CD muito rapidamente, talvez você tenha mais informação do que nós. Talvez juntos possamos processar melhor a resposta para a sua pergunta.

Houve um silêncio curto, e sem esperar quaisquer outras explicações Marcela tirou a primeira carta e leu o resumo.

“Thomas e Alex conversam no Great Balls sobre o livro. Alex havia lido o texto de Thomas e Marcela em um motel e ficou preocupado com a nitidez das cenas, e insistiu que aquilo magoaria muito Joana. Thomas diz que ele e Joana estão separados. Roberta chega, beija Alex e sai com Thomas para o terraço”.

Alex e Marcela se olham, ela dá um sorriso informando que vai falar mesmo o que pensa e ele curva um pouco a cabeça para baixo.

“Na boa, Alex, de vez em quando você deve beber além da conta e acaba enxergando mesmo apenas a dimensão do sonho a que tanto o Thomas se refere.”

Alex levanta a cabeça, dá um gole no uísque, sorri para ela e diz:

“Não se preocupe, segue em frente.”

“Achei divertida a brincadeira de você perguntar se as pessoas já haviam se acostumado a ler em negativo [popup com essa fala] , e gostei do esforço que você fez para convencê-lo a largar a ideia do livro, viver o presente, as coisas mais simples, mas dar conselhos matrimoniais a Thomas depois dele já estar separado de Joana foi um pouco além da conta, você não acha?”

Novamente sorriu, acenou com as duas mãos negativamente, não quis comentar. A rodada começou mal. Joana, envolvida no assunto, permaneceu calada, era como se não fizesse parte da história.

“E a presença de Roberta no final da cena não incomodou você?”, perguntou Fernanda para tirar o foco de cima de Alex.

“No momento em que li não incomodou nem um pouco, eu não sabia o que ia acontecer depois. Mas quando li os capítulos seguintes fiquei aborrecida sim, sou ciumenta.”

Marcela e Fernanda olharam para Joana. Um silêncio longo, e cheio de significados que eu não conseguia captar.

“No que me diz respeito essa página está virada, essa e outras tantas,” respondeu com segurança. “Não se preocupem comigo.”

Roberta também estava na cena em questão, mas apenas observava tranquilamente. Parecia que não tinha nada a ver com o assunto.

Ainda não conformada com o silêncio de Alex, Marcela insistiu.

“Você acha mesmo a cena do motel ridiculamente realista, acha que o Thomas não poderia ter inventado tudo aquilo apenas para me introduzir na história, como havia prometido um dia?”

“Você não vai me convencer, Marcela, eu conheço o Thomas, ele não sairia do seu mundo cinzento, da sua forma complexa de escrever para narrar uma cena vulgar de motel sem que tudo tivesse realmente acontecido.”

“Eu concordo com o Alex, Marcela, todos nós conhecemos os textos dele há anos, e sabemos que essa não é uma cena que ele inventaria”, diz Paula. “Até a cena do ensaio [popup com teaser] com a Fernanda me deixa na dúvida.”

“Deixem-me fora dessa discussão, eu não faço parte do resumo dessa carta”, contesta Fernanda.

“E vocês não acham também que ele conhece tanto vocês, que já sabe o que vão pensar da cena e trapaceia?”

“Ele não está escrevendo o livro para nós, Marcela!”

“Será que não?”

 

Show Great balls Plano de Viagem Home