A GATA DOS FLASHBACKS

Eu caminhava pela praia muito cedo quando percebi aquele vulto caminhando em minha direção. O coração disparou. Eu só havia sentido o contato com o seu corpo, não conheci o rosto, mas apesar do sol e da bruma senti que era o mesmo daquela manhã.

Quando estávamos a pouco mais de 20 metros foi como se começássemos a nos movimentar mais lentamente, ele não chegava nunca, e a pulsação cada vez mais forte. Eu precisava ver aquele rosto, o coração parecia que ia explodir.

Quando me dei conta estávamos mesmo caminhando em câmera lenta, não querendo chegar, não querendo enxergar. A distância entre nós diminuia, mas nunca o suficiente para eu desvendar o seu rosto. Ou ele o meu.

Acordei e fui para a praia. O mesmo sol, a mesma bruma, o mesmo corpo caminhando em minha direção, a mesma distância. Mas desta vez registrei o seu rosto com uma teleobjetiva, antes que pudéssemos nos aproximar.

Quando passamos um pelo outro fiquei tensa, nervosa, não consegui nem olhar para o lado e também não sei se ele olhou para mim. Depois de alguns segundos consegui me virar e ela já começava a se distanciar na bruma que era dele o corpo por trás do meu.

Naquele dia em que ele esteve em casa acordei muito cedo, a manhã ainda estava clareando, e deixei a cama vestindo apenas uma camiseta que estava do cabide. Depois do café atravessei lentamente a sala e apoiei os braços e o rosto na lateral do bar da piscina para meditar um pouco no azul.

Enquanto cruzava a sala sentia meus peitos balançarem, a regata era grande demais e eles ficavam de fora. Dois sabiás cantavam, e completavam a manhã. O calor ainda não havia tomado os corpos, e os meus olhos viajavam no tempo azul da água que se movimentava suavemente com o vento da manhã.

O passado e o futuro se esvaia no azul refletido em meus olhos, numa sucessão lenta de instantes vividos e a viver, quando senti um calor na nuca, e um corpo próximo ao meu. Por trás chegam dois braços e as mãos que encostam na lateral da piscina me envolvem mas não me tocam. Depois um corpo encosta suavemente no meu, por trás, pele na pele, e o calor no pescoço se transforma em lábio roçando, em uma língua lambendo cangote. As duas mãos deixam a lateral da piscina e escorrem para o meu corpo, para os quadris. Silêncio profundo, cessa a respiração. Os pássaros deixam de cantar.

As mãos acariciam o meu corpo calado, se transformam em toques mais fortes, e começam a me arrastar para dentro do outro corpo. Deixo-me invadir pelo desconhecido que procura em todas as minhas partes, sem olhar o rosto, sem perguntar porquê.

Me pegava como se já conhecesse o código, tocava em partes que eu não conhecia, como se já tivesse tocado antes. Depois aconteceu o tremer, a fantasia, o gozo ora gemido ora calado, curvatura dos corpos em sintonia, encontro do corpo e substância.

Como surgiu desapareceu. Só o encontrei novamente naquela manhã na praia, sabia que era ele. Soube pelo arrepio do meu corpo quando ele passou. Não conhecia o rosto mas o arrepiar era o mesmo, tinha o cheiro daquela manhã.

Corri para o hotel e abri a imagem no laptop. O seu rosto…

… disparou em minha mente um processo de flashbacks, começaram a passar muito rapidamente cenas de um tempo em que estávamos juntos, mas eu não reconhecia as cenas, não reconhecia aquele homem. As cenas eram bem definidas, mas muito rápidas.

Antes que eu pudesse pensar em uma já aparecia outra, depois outra, e eu não conseguia lembrar de nada pois passava tudo muito rapidamente. Olhei para um imenso espelho que havia no quarto, e eu era a mulher que estava nas cenas.

Quem era aquele homem? Que cenas eram essas que vivemos juntos? Elas se sucediam, e agora não era mais um sonho, eu estava acordada e precisava viver o momento e não conseguia me livrar das imagens e cenas que passavam em mim como um filme sem fim.

Peguei o carro e fui para Maresias, tinha que encontrar uns amigos, essas cenas haveriam de desaparecer na estrada.

Mas não desapareceram, eu tentava me concentrar no dirigir, mas as imagens não desapareciam. Estava no presente, lúcida, sabia o que ia fazer em Maresias, mas também estava em um outro lugar vivendo cenas mais definidas do que em um sonho, que não sabia de onde vinham. Sempre com o mesmo rosto, em todos os lugares em que estive em toda a minha vida ao lado daquele homem.

Estacionei no hotel onde estavam os amigos e fui direto para a praia. Parei diante deles, e fiquei olhando-os, como em um filme de suspense, para ver se eles notavam algo diferente em mim, mas não notaram.

Na minha frente as ondas de Maresias quebravam imensas perto de nós, com muita espuma e um ruído intenso. No filme que passava em mim eu estava com ele em uma praia ensolarada e com muita gente mas silenciosa, sem ondas. A maioria das mulheres faziam topless, havia poucos homens, e haviam cabines de praia.

O filme começa a passar de forma um pouco mais lenta e eu começo a pensar dentro dele.

Não é uma praia do Brasil, é uma praia com cabines que me é familiar. Não é Nice, não é Cannes, não é na França. Essas cabines se parecem com as de Ostende, na Bélgica, ou com a Lido de Veneza, ou com as praias do litoral de Roma.

Ele me olha, ri e diz alguma coisa mas o filme é mudo. Ao nosso lado uma mulher com os seios de fora se levanta e vai para o mar. Mas estou em Maresias com os amigos e não estou falando com eles, logo vão perceber algo estranho em mim.

Respondo a ele rindo também mas não me escuto. Alex fala comigo, e a sua voz me chega baixa. Faço um sinal de que não estou ouvindo por causa do quebrar das ondas. Marcela está de pé, a onda quebra perto de nós, ela tapa os ouvidos, e ficamos todos respingados.

Começa a surgir também um som do filme em que estou na outra praia.

Houve um remanso, as ondas calaram, os sons começaram a ser mais audíveis, e comecei a viver mais dentro das duas realidades. Já dá para ouvir o que ele me fala, ele me pergunta o que vamos fazer à noite. Alex me pergunta algo e perco a resposta que dei a ele. Peço licença e começo a caminhar, tentar falar com ele.

O que você gostaria de fazer à noite?

‘Hoje não dá mais, te encontro em outro conto’.

Antes que ele perguntasse o que eu estava querendo dizer com isso me dei conta que estávamos sem sinal. Som e imagem desapareceram, os flashback pararam.