A CARTA DO PASSENGER

 
Sabendo que só eu não tinha tirado ainda nenhuma carta, apesar de ter estado muito atento a tudo durante todo o tempo, resolvi também dar uma embaralhada antes de escolher.

“Thomas chega a Paris e antes de ir para a casa de Fernanda decide fazer uma foto, um clássico de Paris, que ele sempre quis fazer: O Arco do Triunfo de L’Etoile, visto através do Arco do Carrossel, e de quebra, entre um e outro, a fonte das Tuileries, o obelisco de La Concorde e o charme da Champs Ellysées. Depois encontra uma estranha jovem de nome Tristessa, que conversa com ele um pouco e desaparece na névoa que baixa sobre o Louvre.”

“Esse é um dos trechos do livro sobre o qual Thomas mais me falou, o nome Tristessa aparecia pela primeira vez no texto, e ele se alongou na apresentação da misteriosa personagem. Confesso que fiquei confuso, pois a partir desse momento a história começa a tomar um rumo enigmático e oculto, principalmente por causa da personagem ser parecida com a Fernanda quando jovem, falar em uma linguagem meio codificada e também por saber coisas da vida dele, como ter estado na exposição em Veneza, e outras coisas mais que eu não me recordo. A personagem era vista apenas na contraluz, e depois de algum tempo de conversa ela sai correndo através da névoa.”

Depois de um silêncio geral, aguardando uma continuação, informei que aquilo era tudo que tinha a dizer e pedi que os outros comentassem também. “Pode ser que essa personagem tenha a ver com o que vocês discutiram em uma carta anterior sobre outras vidas, não?”

“É possível, mas eu gostaria que a Fernanda falasse sobre isso”, disse Paula. “Era parecida com você, era você? Você tem algo a comentar sobre este texto?”

Paula colocou a pergunta com a maior delicadeza possível, mas mesmo assim a Fernanda ficou tensa, era visível.

“Eu gostaria de dizer o que vocês esperam ouvir, mas a minha mente bloqueia as palavras, eu consigo enxergar, mas não consigo transformar isso em linguagem. Desculpem-me. Não é que eu não queira falar, é que eu realmente não consigo.”

Não me pareceu que ela estivesse querendo esconder ou omitir fatos, mas como Alex, estava com dificuldade em encontrar palavras para nos contar algo que ela gostaria de muito de contar.

“Você se lembra de ter lido esse arquivo?”

“Sim, lembro, eu li. É por isso que não estou entendendo esse bloqueio. Ainda ontem falamos sobre ele”.

“Falamos quem?”, perguntou Joana.

“Thomas. É um capítulo que será o início da segunda parte do livro, caso ele venha a ter duas partes. Mistura vida real e ficção, e sim, agora estou conseguindo lembrar alguma coisa, pode ter a ver com uma personagem em uma outra vida.”

“Mas é só uma personagem de ficção, não? Ou vocês andam acessando outras paradas e fazendo casting com almas do outro mundo? pergunta Marcela rindo, tentando aliviar a tensão.”

Todos riem, inclusive Fernanda, e o assunto se dissipa no vapor etílico que paira sobre a mesa da mandala.

 

Uma advertência e um aviso de morte Tristessa Plano de Viagem Home